25 de fevereiro de 2015

Murta rosé 720 Nuits - 2012



È um facto que os vinhos da Quinta da Murta estão hoje marcados, de forma indelével, pelo cunho que lhes imprimo. Dada a natureza do projecto, mesmo não querendo, acabam por expressar em parte, as minhas ideias, as minhas inquietudes e a minha noção de equilíbrio. Sinto isto especialmente quando faço uma prova vertical a qualquer das referências, particularmente no clássico e no espumante. Distingo de forma clara, os vinhos do Nuno Cancela de Abreu, uma zona de transição e depois os meus. Tento imaginar como serão os do meu sucessor...

Pesa embora a forma como me revejo nos vinhos, não sinto qualquer das referências existentes como criação minha. Eu sou apenas um fiel depositário que tem como obrigações preservar, adicionar valor e preparar caminho para quem se seguir.Todas elas foram criadas pelo Nuno (à excepção do Espumante rosé) , eu apenas as tenho adaptado e feito evoluir, como é minha obrigação.

Nesta nova referência, no entanto, o sentimento é diferente. Fui eu quem "teve a ideia, boa?" , fui eu quem "inventou" o vinho, fui eu o "dono da bola". Fui eu que perguntei... Porque não?
È óbvio que em todos os vinhos, o resultado é fruto do contributo individual dos vários elementos de uma equipa, do seu suor, do seu esforço, por vezes até do seu sacrifício e da forma como vamos interagindo uns com os outros. Contudo, nada do que encerra esta garrafa existiria se, em 2008 eu não tivesse olhada para as barricas e para os rosés de uma outra forma, se não tivesse desejado contrariar as modas e testar esta louca hipótese. Feito crescer usando técnicas que já tinham provado servir para as demais referências da casa. Estágio longo em barricas muito usadas.

Isto não me traz mais que responsabilidade, entenda-se. Não quero nenhum tipo de reverência, nenhum tipo de distinção face aos meus colegas de equipa, mas... porra, ao fim de 9 anos aqui, ver finalmente sair um vinho que não existiria se eu aqui não tivesse passado, ver nascer uma nova história, é quase tão forte, pasmem-se, como ter mais um filho. È a certeza de que fica algo de mim.

O seu perfil sai tanto do que esperamos de um rosé que, sou honesto, fiquei admirado, e não necessariamente feliz, quando me informaram que o vinho tinha sido aprovado pela CVRLisboa. Hoje, depois de o termos mostrado a alguns amigos e parceiros, fico ainda mais abismado com a aceitação que este vinho está a ter. Pensei que seria daqueles vinhos que ou se ama ou se odeia… 

Se calhar ainda não o fizémos esquisito o suficiente!

22 de fevereiro de 2015

Casa Cadaval - Trincadeira 2002


Nesta fase, será difícil desconhecer que uma das regiões onde procuro, com afinco, fazer vinho nos tempos mais próximos é a minha região berço, o Tejo. Aflorei os motivos neste post.

Confesso que andava meio arredado do que se anda a fazer na região, principalmente porque tenho andado a descobrir outras que conheço pior. Recentemente, voltei a comprar vinhos da região e, devo salientar que há dois factos que me têm entristecido numa primeira análise. Primeiro, cada vez é mais difícil encontrar um vinho contendo só castas nativas (o castelão então...). Segundo, nos poucos que contrariam o primeiro facto, quando encontro vinhos extremes, os descritores só vagamente os consigo associar aos que a minha pobre memória registou.

Contudo, não sou cego e vejo que a mudança para castas internacionais, para estilos mais consensuais e para abordagens menos regionalistas tem trazido fama e glória junto dos consumidores e da critica um pouco por todo o lado. Isso deve justificar a mudança...

O que me deixa verdadeiramente confuso, é mesmo a prova de vinhos como este que, passados 13 anos me gritam o quanto vale a pena apostar nas castas locais e aplicar-lhes métodos que os deixem expressar o que a uva tem para dar.

Não precisam ir a correr comprar o vinho, ele não resulta, quanto a mim de uma visão como a que acabo de descrever. Eu diria que foi um vinho feito para ser vendido nos primeiros anos de vida, provindo de um ano onde a maturação dos fenóis não se deu por completo. Tem, por isso, junto com a delicadeza da evolução positiva dos constituintes do vinho, um toque de cereal doce que atribuo à evolução dos herbáceo. A esta junta-se uma acidez viva, persistente mas dura. Diria que se vindimou tarde, com necessidade de corrigir acidez, mas antes de ter os fenólicos maduros. Nada de estranho. O normal na época. Especialmente para vinhos idealizados para consumir nos primeiros 10 anos.
Mas... o que está para além disto tudo é que me põe a sonhar!



17 de fevereiro de 2015

Um Toque de Açúcar



Este é o titulo de uma das crónicas que Maria de Lourdes Modesto incluiu na compilação de cronicas à qual chamou "Sabores com História". Versa o texto sobre as doses de açúcar empregues na doçaria, especialmente a conventual.
Não vou aqui reproduzir toda a crónica, não me ficaria bem (comprem o Livro), contudo, uma passagem resume as intenções da autora e, dá força às minhas próprias convicções:

"Hoje, o gosto está a ir no sentido do doce menos doce. Já são poucos os que apreciam dar uma dentada num bolo e sentir aquele "raspar nos dentes" e o pigarro na garganta" que as grandes concentrações de açúcar provocam."

Antes de fazer a transposição para o vinho, deixem-me dizer que admiro profundamente o facto desta senhora de experiente idade, criada numa época de convicções "fixistas", ter a ousadia de propor uma leitura adaptativa das receitas "ancestrais". Não resisto a mais uma tirada que explica, de forma brilhante, o seu ponto de vista:

"As receitas não são intocáveis. Há formulas de base a manter, mas a sua interpretação permite adaptações ao gosto pessoal, regional e de cada tempo histórico".

No respeitante ao vinho, principalmente num pais em que o seu consumo anda inquestionavelmente amantizado com a mesa, entendo que a primeira citação encontra a minha própria convicção sobre o gosto actual do consumidor, a segunda no entanto, deixa-me sem mais que dizer!


10 de fevereiro de 2015

Coisas que me aborrecem - (V)



Esta moda crescente dos Restaurantes bons e muito bons andarem a comprar e servir vinho com marca própria. 
PARA QUÊ? 

Não me entendam mal. Isto aborrece-me, especialmente enquanto cliente!

8 de fevereiro de 2015

Sobre as escalas, o que há ainda para dizer?



Pouco. Quase nada!

Do muito que tenho falado sobre o assunto, gostaria de relembrar duas conclusões:

1º Cada vez mais me convenço de que as pontuações quantitativas não servem aos produtores, e não servem de todo aos consumidores. Servem a todos os intermediários, principalmente a distribuição e o retalho que se rejam pelos padrões do passado. Quem, historicamente, ganha dinheiro com o negócio.

2º Usar escalas "da escola", que toda a gente conhece  - e tem para elas uma leitura ÚNICA E INEQUÍVOCA - mas com deformações, adaptações, ajustes,..., é algo que me incomoda. Se não é um acto deliberado para deturpar a interpretação é uma distracção imperdoável. 
Seja qual for o motivo, um consumidor que apanha um vinho com 14 valores vai achar que é um vinho com bastante qualidade, quando todos os "iniciados" sabem que está no limite superior do sofrível.

Não vale a pena argumentar, até porque parte das pessoas se vai limitar a ler e discutir o título, por isso conto-vos uma história que se passou há dias entre mim e a minha mulher.

A Sara, gosta de vinho, consome moderadamente e, o facto de estar casada comigo faz com que tenha mais atenção ao que bebe. Não é enófila, no sentido de procurar conhecimento sobre o assunto (vejo alguns de vocês a rir neste momento... suas mentes perversas!), mas prova com frequência, tem o mínimo de técnica e descreve decentemente um vinho. Mas nunca pontuou.
Acontece que, por motivos académicos, tenho-me visto forçado a provar e avaliar vinhos segundo uma matriz, que não é a minha... se é que eu tenho alguma. 
Não vos vou maçar com mais detalhes. Provávamos um vinho, em tudo mediano, rapado e sem grandes qualidades. Algum desequilibro entre o que é e o que ainda temos de esperar que venha a ser. Sem defeitos, mas sem grandes qualidades a destacar. Habituado às escalas, dei-lhe 14,5. Ela, muito admirada, declarou que a sua nota estaria entre os 11 e os 13. Afiançou-me que aquele vinho não merecia os 14,5 que lhe estava a dar.

Juro que ainda tentei explicar que ela estava errada, embora certa. Que essa avaliação não corresponderia ao que o mercado (e atenção, o mercado, não o consumidor) está habituado. Que... Esquece... Desisti e fiz um esforço para mudar o assunto! 

6 de fevereiro de 2015

O vinho não pode ser um produto industrial. Porquê?



O que come o seu filho ao pequeno almoço?

Os meus, um bebe leite com chocolate e uma pêra e o outro come papa ou iogurte.
A pêra compro-a no supermercado. Acredito que seja filha de uma produção intensiva com recurso a todos os químicos autorizados. 
Na lista de ingredientes do leite com chocolate lê-se: leite, açúcar, cacau, estabilizador, carragenina, sal, aroma, pirofosfato férrico e vitaminas.
Na papa, encontro fruta, amido de farinha de arroz, leite desnatado... em pó, proteinas do leite, maltodextrina, gordura vegetal, sais minerais, emulsionante, vitaminas e AROMATIZANTE.
Por sua vez os iogurtes... não são diferentes. È pelo mix entre o leite o a papa.

Não sei dos vossos, mas os meus filhos estão "institucionalizados" durante o dia e, a sua dieta passa por alimentos que espero sejam muito, muito, mas muito saudáveis! "NOT!"
È claro que não são, pelo menos nunca o serão na origem dos ingredientes que jamais poderão ser... imaculados. Não esquecerei da primeira vez que dei, com profunda mágoa, salsichas ao meu filho mais velho e ele exclamou: "Salsichas pai? Adoro...!"

Em casa não é diferente. A falta de disponibilidade leva-nos a recorrer ao supermercado para compra de frescos e embalados. Se não sabem eu digo. Não acredito na pureza de nenhum produto que venha do supermercado, acredito pouco nos que vêm dos mercados (sobretudo frescos e fruta) e só confio... só confio... olha... já não sei, honestamente, em quem ou no quê confio.

Vale a pena continuar com esta descrição, ou já entenderam? 

È verdade. Somos mais cuidadosos com a alimentação dos nossos filhos do que com a nossa e, se para eles recorremos a tantos alimentos de produção industrial (e massiva), que têm, obrigatoriamente, de conter químicos que salvaguardem a vida do produto, o que dizer daquilo que nós próprios ingerimos.

Comemos merda e merda damos aos nossos filhos!
Logo... que sentido faz esse purismo desmedido com o vinho. Um produto tão controlado e regulado que é mais puro que o iogurte que dou ao meu filho?

Ainda mais numa realidade em que os consumidores não sabem (nem querem aprender), na sua maioria, distinguir um vinho que foi feito com todos os recursos da industria de um outro que nasce do risco e da quase ausência de manipulação química.

Há dias, como o de hoje, em que tudo isto me parece uma profunda hipocrisia. Um profundo disparate. Uma pesada mentira. Reparem. As quantidades que ingerimos de vinho, não são comparáveis com as doses de carne e o peixe alimentados a rações e antibióticos, a vegetais e frutos feitos crescer com hormona e químicos, a iogurtes esterilizados e carregados de aromas. Tudo isso nós ingerimos.

A hipocrisia é tanta que, nos vinhos, apesar do que se diz, os casos de maior sucesso (económico e nem só) são aqueles tem a abordagem industrial (fácil de definir. Para esses, o vinho é um produto, de cariz alimentar, feito para dar dinheiro e criar o menor numero possível de problemas, correndo o menor risco que se conseguir). Ou seja, exigimos purismo e compramos o oposto. Se no fim, se é o preço quem manda... para quê tanta conversa? Tanta repulsa? Tanto salamaleque?

Valerá a pena ser diferente das outras industrias? 
Porquê? 
Para quê?

QUEM PAGA ISSO?



3 de fevereiro de 2015

Esporão - Um exemplo no marketing online?

Para mim, o Marketing nas redes sociais baseia-se essencialmente em dois factores: (1) Humanização do produto; (2) Despertar de emoções no presumível consumidor. O resto é uma consequência natural. 

Este produtor tem-me surpreendido nos últimos tempos na forma, quanto a mim, bastante assertiva com que espalha a sua mensagem. Não pensei que fosse ver isso nos tempos mais chegados, muito menos, confesso, a partir de uma das maiores empresas do sector. Possivelmente por achar que grandes casas têm sempre tendência a agarrar-se à abordagem institucional até não poderem mais. Com esta pelo menos foi ao contrário, fazendo ver aos "quase inertes" pequenos produtores como se faz!

O meu conselho é que explorem e interpretem para depois reproduzirem a formula, mas adaptada às vossas "à vontades". Mas façam, mostrem-se... expliquem-se! O tempo do ficar calado acabou!




30 de janeiro de 2015

By The Wine - O principio da revolução dos produtores?

Foto de Jorge Nunes, usada sem autorização.


Ainda não fui  mas, se o meu Amigo Jorge Nunes diz que é bom (E vale a pena ler o que ele escreveu sobre isso), eu acredito e atribuo já um prémio à ideia de abrir um espaço desta natureza.

Louvo a iniciativa da José Maria da Fonseca ao mesmo tempo que na minha conspurcada mente se formulam ideias...

Imaginem que os outros produtores vêm nisso uma oportunidade de castigar a restauração pelas pesadas margens com que trabalham o vinho. Imaginem só a hipótese de, mesmo os pequenos se juntarem em consórcios e abrirem restaurantes, wine bars e demais pontos de venda, onde colocam os seus portefólio a preços decentes ao mesmo tempo que concorrem com a hotelaria pela boa gastronomia.... imaginem só!

Eu ia rir tanto....

25 de janeiro de 2015

O Cozinheiro do rei D. João VI

By: Hélio Loureiro




O Quê? O Chefe Hélio Loureiro, para além de tudo o que já faz, agora também é romancista? 

Bom, a julgar pela amostra, eu diria que não tem motivos para se envergonhar de dizer que sim.
Trata-se de um romance histórico de escrita simples e sem grande profundidade técnica, no que ao conteúdo diz respeito, pese embora o facto de, julgo, ter caracterizado a época e os personagens reais o suficiente para tornar interessante esta estória dentro da História de Portugal.

O autor apresenta-nos um cozinheiro que, ao longo do tempo da narrativa nos descreve os acontecimentos mais marcantes segundo a sua perspectiva. Para além da intriga politica e dos acontecimentos históricos, temos bastas descrições de alimentos, pratos, cozinhas e alguns dos vinhos que se consumiam à época. Aqui e ali somo brindados com a descrição de receitas que podemos, assim o desejemos, reproduzir. Gosto particularmente desta perspectiva.

Como disse no inicio, trata-se de uma obra simples para leitura descontraída. A trama é-nos revelada no inicio e mesmo os aspectos nublados são facilmente dedutíveis. Isso, tira a pressão e deixa-nos o deleite e a descontracção necessárias para nos deleitarmos com as iguarias descritas.  Uma tarde ou duas chegam bem e garanto-vos, para quem gosta dos tachos, sendo Português, não dará o tempo e o dinheiro por mal empregue.

Apenas uma advertência. A leitura deste livro engorda.

17 de janeiro de 2015

Prémios TWA 2014





Eu sei! Todos vocês já se perguntam sobre os mais democráticos prémio atribuídos à margem da fileira vínica Portuguesa. Sinto a vossa pergunta ecoar na minha mente:

"Então? Quando lanças isso pá?"


Pois bem. Depois de um longo minuto de reflexão decidi que este ano, não se atribuirão prémios alguns.

Motivo -  Foi um ano muito, mas muito fraquinho para a maior parte das categoria.  Faltou criatividade e inspiração. Senti falta de entrega e paixão. Não me faz sentido premiar, mesmo que a brincar, a mediocridade e a falta de exigência. Seria fazer bitola por baixo e nisso, estamos já muito bem servidos!

15 de janeiro de 2015

Diário - Um branco especial



Querido Diário:

Então? Tinhas saudades minhas? Pensaste que te tinha abandonado?
Nada disso!
A farra tem sido muita e a vontade de vir aqui escrevinhar pouca. Mas não fiques triste, não é nada pessoal!

Antes de mais, espero que 2015 te traga entradas fantásticas. Desejo usar as tuas linhas só para descrever bons momentos e fantásticos acontecimentos. Tudo farei para que tal assim seja.

Ainda há por aí muita gente com a ideia de que o trabalho do Enólogo se resume à vindima e depois a uns engarrafamentozitos. Nada anda mais longe da verdade e, já o disse anteriormente, muito menos quando falamos de adegas de brancos. Talvez seja por isso que ainda muito boa gente (e é mesmo assim, isto nada revela do carácter de quem assim age) aceite/defenda que o enólogo visite a adega apenas duas vezes num ano.



Ontem, por exemplo, foi um dia importante. Ao fim de muitos meses (mais de um ano), o vinho destinado a ser o próximo Clássico da Quinta da Murta saiu finalmente das barricas. Este é um vinho muito peculiar, já que resulta da junção de diferentes abordagens enológicas.
Como sabes, usamos apenas a casta Arinto para fazer os "Quinta" e torna-se por isso difícil encontrar naturalmente o mesmo grau de complexidade que um lote de castas consegue atingir. O que faço é simplesmente pegar na casta e fermentar pequenas porções em diferentes condições de maturação, volume, vasilhame, temperaturas,... Depois, na sala de prova, logo se verá quais delas combinam melhor entre si e nos dão um vinho mais harmonioso.

Neste caso, o lote foi previamente escolhido, gosto mais assim. Desta forma, quando o vinho sai das barricas, já sei o que vai para onde e torna a acção logística mais facilitada. Agora, é colar, filtrar e engarrafar. O mais rápido possível para que o estágio em garrafa seja o máximo possível antes do mercado nos exigir a sua libertação. Gosto que seja no mínimo um ano, principalmente porque a experiência me diz que, nesta referência, 12 meses, é o tempo mínimo que a madeira leva a casar com o vinho. 
Não gosto de nada "descasado". Seja a madeira, o gás dos espumantes ou a aguardente dos fortificados.
Por isso... é esperar, pacientemente para que quando figurar na prateleira nos possa continuar a dar as alegrias dos seus irmão mais velhos.
Até amanhã.





23 de dezembro de 2014

Cegueira da prova cega


Quem me conhece afirma, fazendo disso uma anedota, que ao longo do tempo tenho vindo a tornar-me contra a prova cega.
De facto, assim não é! Só o absolutismo me aborrece. Não concebo a ideia de que a total idoneidade e isenção na prova possa vir unicamente do facto desta se realizar na total ignorância dos dados do vinho. Vou mais longe, acho que é precisamente o contrário.

Pensem neste exemplo, muitas vezes real:
Estão a avaliar um vinho do qual nada sabem. Imaginem que ele é colocado num flight onde a maioria dos vinhos são novos, acabados de fazer e lançar no mercado. Este vinho, longe de estar morto, dá-vos já sinais de evolução (não necessariamente cansaço). O que fazem? Consideram que é da idade dos outros e penalizam o seu estado avançado de decomposição ou, consideram a sua maioridade e dão-lhe uma nota a condizer.
Quando avalio um vinho gosto de ser justo, tanto com o vinho como com quem o vai consumir na base da avaliação que lhe der. No caso citado, o desconhecimento do ano de colheita penaliza ambos. È preciso explicar porquê?

O conceito usado em concursos como o IWC, é, quanto a mim, bastante mais justo. Ali, organizam-se os vinhos segundo a sua proveniência e esse conjunto é apresentado aos júris. Para além da origem, sabe-se também o ano de colheita, a quantidade de açúcar residual e as castas utilizadas. Estes elementos, não sendo reveladores da marca ou do nome do produtor, parecem-me essenciais na avaliação séria, honesta e coerente de um conjunto de vinhos. Podemos avaliar uma Baga da Bairrada ao lado de um Syrah do Alentejo sem nada saber sobre cada um deles?

Por ultimo, deixem-me referir que considero a prova inteiramente cega, muito útil para o treino do provador ou para a sua avaliação enquanto tal, na mesma medida em que a considero inútil para um vinho. Primeiro pelas dificuldades que cria ao avaliador, segundo porque o nosso cérebro, na ausência de dados, tem tendência para se defender, valorizando o que entende melhor. São os vinhos mais simples, com aromas mais directos e maior concentração de açúcar que saem beneficiados. Os vinhos complexos, muito secos, com aromas menos revelados (essencialmente os que coloco na categoria 3), confundem um cérebro desinformado que ainda nos tenta proteger do envenenamento. 

No limite, a prova inteiramente cega é outra forma (indirecta) de influenciar o cérebro. Tão "má" como a fama do rótulo.







17 de novembro de 2014

Portugal - Mais de 200 castas...


A pedido de algumas famílias, consegui convencer o meu "Dealer" das camisolas a "arranjar" mais para a malta. Assim, passarei a publicar, com a frequência com que as for criando, imagens do boneco e antevisão do produto final.
Normalmente, podem escolher as cores para as camisolas, o tipo de camisola (Sweat, sweat com carapuço e t-shirt) e as cores das estampas!
Os preços começam, normalmente, nos 9,99€ para as t-shirts mais simples e depois variam consoante a estampa e complexidade do boneco!

Estas, durante o "lançamento" ficam em 9,99€ para a t-shirt e 24,99€ para a sweat com capuz.
Quem estiver interessado contacte-me, via Facebook ou mail.


16 de novembro de 2014

Diário - #winecult, um passo de gigante


Querido diário,

Hoje demos um passo grande. O nosso primeiro projecto de tinto passou para as barricas.
Para além das escolhas e dos seus porquês, que guardarei para o local próprio, importa referir porque é este momento mais importante do que uma simples trasfega, uma simples mudança de tercios.

Transferir um vinho tinto para uma barrica é um passo de assumpção. É um passo de compromisso. È uma aposta num futuro que desconhecemos mas que arriscamos adivinhar. Em produções de garagem como a nossa, joga-se o tudo ou nada. Umas vezes ganha-se, outras perde-se.
Não quero dramatizar em demasia um passo simples, mas este revestiu-se de significado.

Até para mim que tenho alguma experiência, devo confessar que foi um ano estranho, confuso, cheio de falsos sinais. Durante a fermentação, cada dia tínhamos um vinho novo na cuba, uns dias saia da adega feliz, outros tristes, sempre com imensas duvidas. Sempre a fazer contas de cabeça.
Hoje, senti que até à primeira gota de vinho entrar na barrica, o Ricardo estava com a mesma tenção e as mesmas duvidas que eu. Provámos repetidamente o vinho à procura de um vislumbre do futuro. 
Já íamos a meio da primeira barrica quando o Ricardo olhou para mim, ergueu o copo e disse: 

"ei... isto vai ser um grande vinho!"

Rimos os dois e nesse momento, as duvidas foram-se. 

Não é verdade que um vinho tem de se mostra aos seus criadores logo no inicio da vida. Não é verdade que os sinais iniciais venham a corresponder obrigatoriamente ao resultado final. Não é verdade que num vinho feito fora de controlo industrial as certezas abundem.

Independentemente disso, as barricas estão agora cheias, os batoques selados, a casa arrumada. Está nas mãos dos Deuses!

Este vinho está a ser feito para quebrar regras, para provocar, talvez também para inovar. Quando se contraria muito do que nos é implantado durante anos e anos de pratica, surgem duvidas, receios, ressalvas, ses...

Mas sabe (so focking) bem!






14 de novembro de 2014

Vinhos Portugueses no topo das classificações internacionais põem a nu a falência do Marketing de curto prazo!

Foto usada a partir daqui


Estranho! 
Muito estranho! 

Estes classificaçõe de 3ª (Douro Chryseia 2011) e 4o (Quinta do Vale Meão 2011), top wines pela Wine Spectator são mesmo para vinhos Portugueses?

FEITOS COM CASTAS NACIONAIS?

Como é possível! 
Tanta Merlot, tanta Syrah, tanta Cabernet, tanta moda e modinha e depois é isto? E os sticky products, esses grandes motores da internacionalização dos vinhos Portugueses que consistiam no lote entre castas PT com outras mais famosas? Onde ficam nestas tabelas?
Então anda um gajo a investir e a seguir os conselhos dos grandes gurus do Marketing de vinhos nacionais e depois é isto?
Está mal, só vos digo!

Pior ainda é que agora vou ter de gramar com as reportagens feitas por eno analfabetos (tenho duvida se serão apenas eno...) onde, mais do que os vinhos, a sua origem, a cultura subjacente, interessará a massagem ao ego ferido dos pobres Portugueses que, continuam a deixar-se "enrabar" de todas as maneiras, por todos os tipos de poder, mas não obstante, têm outra vez os "melhores vinhos do mundo" (mesmo que uma coisa não tenha nada a ver com a outra).

Acabam por não lhes tocar porque custam mais de 5€ e como sabemos, 5€  é considerado uma fortuna para dar por um vinho. Ninguém em Portugal cai nesse logro!
Haja alegria que ignorância não nos falta!

Os meus sinceros parabéns a quem continua a insistir nesta loucura que é fazer vinhos Portugueses em Portugal!
"Gandas" Malucos!

11 de novembro de 2014

A vantagem de ser Enólogo e Wine Blogger




Ser blogger é uma das "coisas" que mais me completa enquanto enólogo! Duvidam?

Não duvidariam se recebessem o mesmo numero de convites, pedidos de morada para envio de amostras e tentativa de descarga massivas das notas de imprensa que me impingem numa base diária!


Não levo a mal, claro, não tenho porquê! Mas diz muito sobre a forma como as agências de comunicação fazem o seu trabalho!
Vê-se mesmo que conhecem os blogs, os bloggers e o trabalho de quem contactam!

Se não sabem. Se não conhecem a diferença entre despejar informação e comunicar, então, acho que sozinho consigo fazer melhor trabalho!

Talvez siga o exemplo e comece a vender serviços, para além de enologia, também desta nova forma de circulares dobradas a que dão o nome de "Comunicação"!
O que acham?

6 de novembro de 2014

Chave de mangueiras... essas malucas!


Ninguém, no seu perfeito juízo, poderá dizer que sabe o que é trabalhar numa adega se nunca perdeu uma chave de mangueiras. Ponto!

A verdade é que, depois de apuradíssimos estudos, altamente científicos, descobri que as bichas têm vida própria à qual juntam um sentido de humor de uma criança de 5 anos.
Ora, as tabelas e gráficos (que só não mostro para não vos enfadar) demonstraram que, não sou eu que as deixo em qualquer lugar, mas sim elas que vivem numa constante vontade de brincar às escondidas e fogem para qualquer lado longe da vista à menor distracção.

Fica então esclarecido este facto a todos que, como eu, podiam ter 20, 30 quiçá 100 palhaças destas que nunca saberiam de nenhuma.

Tenho feito registo fotográfico dos sítios mais estranhos onde as vou descobrindo. Ora vejam lá se alguém, no seu perfeito juízo as meteria...

...no fundo de uma celha de lavagem. Com água!
... em cima de uma cuba
... no laboratório, em cima de um aparelho de destilação
... na secretária
... dentro de uma cuba
... em equilíbrio nos locais mais estranhos. São radicais! 
... no empilhador
... agarrada a uma mangueira. Disfarce perfeito!
... onde nunca serão precisas
... junto dos vinhos acabados? Será que querem viajar?
... no bolso das calças! Tem muita saída esta!
... sem comentários!




4 de novembro de 2014

Sabedoria do Mendes - (VII)



MALTA, MALTA, MALTA....

Pela ultima vez:

 È trASfega e não trANSfega.

Trasfega refere-se à passagem de um liquido de um local para outro.
Tranfega, pura e simplesmente não existe!
Está bem?

Então vá!

1 de novembro de 2014

Vinhos brancos em 3 classes.



Quem me conhece, sabe que não gosto muito de classificações, provas cegas, procuras da qualidade absoluta e essas merdas que nos têm impingido ao longo dos últimos anos.
Gosto de apreciar o vinho, gosto de ter prazer e gosto de poder arrumar o que sinto em compartimentos, mais ou menos selvagens que me ajudam a interpretar o que sinto.

Aos brancos, compartimento-os em 3 categorias distintas. Estas, chegam-me para agrupar 90% dos vinhos existentes. Devo alertar que ficaria mais bonito arranjar nomes para cada uma delas. Talvez um dia o faça. Hoje não me apetece!

Categoria 1 – Nesta categoria, enquadro os vinhos que não me dão sensações nenhumas, ou muito reduzidas. Que não me fazem desejar bebe-los, vinhos "rapados" da maior parte dos constituintes que lhe podiam dar graça ou identidade. São normalmente vinhos que respeitam a constituição química, e pouco mais!
Na representação mental, imagino um copo, só com água.

Categoria 2 – Aqui enquadro os vinhos que, para além da base (Categoria 1), normalmente boa, possuem ainda elementos aromáticos intensos. São vinhos directos, com poucos descritores, mas bem definidos. Pouco complexos, são vinhos que não evoluem muito no copo e duram pouco na garrafa. Vêm muitas vezes munidos de uma boa dose de açúcar residual (não obrigatoriamente) e podem ou não ter namoro com a madeira. São quase sempre muito fáceis de descrever.
Costumo representa-los como um copo de água, com uma flor bonita lá dentro. Olhamos e imediatamente vemos toda a beleza da flor. Tudo nos é revelado no primeiro olhar.

Categoria 3 – Para esta categoria mando todos os vinhos com complexidade, que não mostram logo tudo, mas antes, que vão abrindo e revelando aos poucos o que têm para me dar. O prazer total não é imediato. É-me dado em pequenas doses que fazem aumentar ainda mais a excitação. São vinhos, normalmente difíceis de descrever, porque têm um espectro mais alargado, contudo, intensidade mais baixa.
Represento-os com o mesmo copo de água, só que lá dentro está um bolbo fechado. Ou seja, imediatamente percebemos que é diferente dos vinhos da categoria 1, mas ao contrário dos da categoria 2 não sabemos logo o que tem ele para nos dar. Imagine agora aqueles chás chineses em que os bolbos são enfiados em água quente e começam a abrir para as mais variadas formas de flores. A emoção dos vinhos desta categoria é precisamente o acompanhar dessa revelação, a atenção em cada novo detalhe, o estimulo à imaginação nos detalhes ainda não revelados.

Por norma, não tenho paciência para consumir vinhos da categoria 1, não sou um fã dos vinhos da categoria 2, preferindo sempre os da categoria 3, embora reconheça que há momentos que têm uma relação de exclusividade com os vinhos da categoria par!
O publico generalizado e a prova cega têm tendência a preferir imediatamente os vinhos da categoria 2 em detrimento dos outros. É um facto que ligo mais ao factor orgânico dos sentidos que usamos na prova do que propriamente a favorecimentos, conspirações, ignorâncias ou mesmo vontade de chatear. Os nossos sentidos foram desenvolvidos para nos proteger e só depois é que nos começaram a dar prazer. Defendem-nos sempre da confusão. 

Por fim, nada disto pode, ou deve ser usado para avaliar um vinho fora do momento do consumo. Se é um facto que conheço muitos vinhos que iniciam a sua vida na fase 2 e depois evoluem para a fase 3 (os bons Bucelas são um exemplo claro disso), a experiência diz-me que a maior parte dos vinhos que nasce 2 morre antes de se tornar 3. 
Mas... cuidado.
Muito cuidado!

27 de outubro de 2014

Sabedoria do Mendes (VI)


Noto uma tendência crescente para que, mesmo dentro da gama de vinhos de um produtor, termos, em concursos nacionais e internacionais, bem como em painéis de prova mais ou menos cega, os vinhos de gamas mais baixas com classificações mais altas que os topos de gama. Também vejo muitos produtores industriais a serem melhor classificados que produtores "terroaristas".

A confirmar-se, quem achar que isso se deve pura e simplesmente à qualidade dos vinhos, deveria ser proibido de os continuar a fazer. Deveria  ser condenado/a a uns 10 anos de prisão efectiva mais proibição vitalícia de se aproximar de uma adega.

Quem perceber o porquê, por favor, explique-me... estou à nora!