17 de Junho de 2013

Emoções de Vindima - Vontade de matar um!

Retirado daqui:

"In the good old days the combination of overwork, tension - and drink - [during the vintage] resulted in at least a couple of murders every year. "



Encontrei paz.
Finalmente!

Já por várias vezes me perguntei se... esta vontade de matar gente, durante a vindima, seria um exclusivo meu. Congratulo-me de saber que não!
Para quem leva isto a sério, é uma época de emoções no máximo. Pela forma como as coisas se fazem hoje, a janela de oportunidade para se realizar uma vindima de qualidade é muito curta (temos de garantir que a totalidade ou um máximo de uvas é apanhada na altura ideal).
Desta forma, surgem excessos de horas - daí enólogos e adegueiros terem muitas vezes três subsídios  em vez dos dois habituais*. Não é incomum, alguém numa adega, começar a trabalhar às 8:00 e acabar, com material lavado e casa arrumada a horas tão simpáticas como 1:00,  2:00, 3:00, ... da manhã.
Percebem por isso, que graus de cansaço próximos da exaustão tragam ao mortal, uma confusão mental que facilmente desarruma a caixa craniana.
Das 7 vindimas + 1 estágio que tenho no pelo, já passei por muitas fazes diferentes, mas reconheço um padrão no meu comportamento.

Durante a primeira semana, há uma excitação em tudo aquilo, um estado de bebedeira seca. Tudo parece mágico. As primeiras uvas que entram, os esquemas que vinificação que correm na perfeição, os ensaios previamente definidos que se desenrolam consoante o fluxograma criado, o cheiro da uva fresca, os aromas dos mostos gelados, o zumbido da pressa, ah..... tudo parece celestial. Há um claro empanturrar de satisfação. Um orgasmo mental em tudo o que acontece.
A partir da segunda semana, a falta de cama começa a pesar. O inicio do dia tolera-se. Há um renovar de energia com a frescura matinal e a esperança de um dia mais calmo. Com o passar das horas e a subida do calor, as coisas começam a ter contornos insuportáveis. Apodera-se de mim um mal estar transcrito em respostas secas e pouco animadas. A noite é um suplicio. Entro frequentemente num estado de vigília parva a que dou o nome de "rabuje" (rabujem). Digamos que é a fase em que todas as armas de fogo devem ser afastadas de mim.  
A partir da terceira semana, é o descalabro. È altura de ligar o piloto automático, confiar no talento e nas decisões tomadas antes de tudo aquilo começar. È seguir esquemas e decidir apenas pequenas coisas. Os colegas de trabalho começam a parecer-se com Orcs e o patrão uma personificação manhosa de Sauron.
Nesta altura, escondam qualquer objecto cujo aspecto suscite ao de leve, serventia para cortar, esmagar ou picar. Garanto que o usarei. 
Felizmente, o meu amigo e companheiro de luta Igor Bocov, sabendo destas minhas deficiências mentais, toma para si toda as partes referentes à higienização. Não imaginam como o respeito, também por isso. Contorço-me, só de pensar em ter de lavar uma prensa, à meia noite, depois de duas semanas intensas de trabalho onde, independentemente do que fizer, 30 ou 40% da água é mandada de volta para mim, precisamente para a cara e carregada de mosto, películas e grainhas.
Estou certo que, não fosse essa atitude providente, já teria feito história!

*Não se trata de um prémio (não deixem que lhes chamem isso!) pelo trabalho e esforço extra, mas sim uma forma dessas horas serem pagas a preços mais baixos. Pagando horas, gastaria muito, mas muito mais que um salário extra. 

11 de Junho de 2013

The Story of Champagne

... The History and Pleasures of the Most Celebrated of Wines

By: Nicholas Faith




Não vou gastar o vosso tempo a falar de como gosto da história de Champagne ou de como a bebida ali criada me inspira,... bla, bla, bla!

Vou ser simples e grosso:
Comprei este livro há um ou dois anos, num lote com outros 2 ou 3 sobre o mesmo tema. Li os primeiros e fui deixando este para trás, sem nenhuma razão consciente.

Peguei nele agora e, ironia da vida... partilha com este, o pódio da satisfação.
Penso que está muito bem dividido e tem informações para todos. A escrita é, quanto a mim, muito boa. Linguagem clara, textos nada massudos. Conteúdo muito bem estruturado.
Toda a primeira parte, dedicada à descrição histórica em si, aparece-nos maioritariamente de forma cronológica, o que não é assim tão regular neste tipo de livros. Ajuda contudo a encaixar melhor os acontecimentos o os seus porquês. Gosto disso.
Ao enófilo que quer saber mais sobre o passado da famosa região, é obrigatório. Ao enólogo que pretende perceber de onde vem tudo aquilo é recomendável.  Para os produtores que procuram inspiração é... Obrigatório.
Espero que gostem, eu gostei muito!





3 de Junho de 2013

Produção de vinho. Do garrafão à garrafa.

Foto captada do livro Wine, de André Dominé - pag. 675


Este post, não passa de um exercício mental. Não recorri a nenhuma consulta bibliográfica e alimentei-o das minhas percepção, observações e interpretação dos factos. Posto isto fica o aviso. Isto não tem validade cientifica.

Factos ligados à produção de vinho em Portugal:
- Produz-se aqui vinho, pelo menos desde a época em que os Romanos, percursores da loucura Cavaquista, andavam pela península a construir estradas. 
- Somos dos países com maior numero de castas autóctones.
Temos a mais antiga região demarcada do mundo. 
Temos um clima perfeito para a produção de vinhos.

Seria de esperar, por isso, que Portugal tivesse uma longa história ligada à produção de vinho, com raízes e tradições passadas e melhoradas entre gerações. Seria de esperar que estivéssemos entre os lideres na investigação e desenvolvimento da coisa vínica. Seria de esperar que estivéssemos no topo do reconhecimento mundial.  Pois é, mas à excepção do Porto e Madeira (outros amiúde e em momentos marcados no tempo) essa realidade, não existe. Ou pelo menos eu não a conheço.

Permitam-me o desvario.
Nós, Portugueses, somos uma "raça do camandro". Não gostamos nada de esperar e entendemos ser mau negócio semear a colheita dos nossos netos (esses mancebos tratantes). Tudo tem de ser feito na hora e os resultados são para ontem. Malta de sangue quente. Latinos, pois então!

Centremo-nos na segunda metade do Séc  XX. 
Muito, muito, muito  resumidamente, o que andámos a fazer foi uma bebida alcoólica que não tínhamos dificuldade em vender, fosse ela boa ou má. Entre as tabernas e as colónias "mamava-se" tudo. E ainda pediam mais. Tempos bons onde meia dúzia de "pipos" davam para  sustentar a família, pagar o estudo aos filhos e ainda proporcionar umas bebedeiras com os amigos. 
No ultimo quartel veio a desgraça (do vinho, entenda-se). As colónias foram quase todas entregues aos seus donos e internamente o vinho foi diabolizado até à exaustão, encabeçando todos os demónios do alcoolismo e suas consequências sociais. De um dia para o outro, o mercado encolheu drasticamente. Com a procura de novos mercados, percebeu-se que os vinhos não estavam ao nível dos melhores do mundo como os pequenos "Hugo Mendes" cresceram a ouvir e acreditar. Eram tecnicamente pobres, com muitos problemas de concepção e claramente resultantes de uma viticultura muito atrasada.
Urgia uma reacção. Clamava-se por soluções. O que fazer?
Uns "putos" acabados de chegar de França (uns foram estudar enologia, outros foram apenas passear e comprar diplomas), trouxeram a promessa  da cura para os males da falta de aceitação dos vinhos no mercado "estrangeiro". 
Passava por acabar com o tradicional e "plantar"  francesismos.  Desde a adega à vinha, passando pelas castas, as técnicas e principalmente o tempo de espera, tudo refundado. Em alguns casos refundido. Bastas vezes refud... é melhor não continuar!
A entrada para a C.E.E. veio mesmo a tempo de injectar dinheiro à pazada,  a fundo perdido, nesta orgia báquica.
De todo o lado  apareceram  "terroirs" especiais que mereciam ser demarcados e separados dos demais. Organizou-se um complicado mapa de retalhos. Uma base de trabalho útil para o marketing do vinho Português. Foi? 
Os vinhos tiveram sucesso... cá dentro!
Os consumidores saídos da repressão politica andavam doidos com a Coca Cola, o Marlboro e as castas com nomes difíceis de pronunciar. Foi a loucura! 
E a exportação?
Não sei, parece-me que subiu, mas não para os níveis aconselhados. Nunca para os valores pretendidos.
È preciso entender que respeito  as opções tomadas (embora discorde de muitas delas) e consiga respeitar quem as tomou. Foram frutos da época. Delírios de um pais de pobres espíritos. Natural a quem passou mais de metade de um século com os olhos vendados sem ver a luz do mundo.
Quando olho para trás, e com a vantagem que o tempo me dá, não consigo deixar de reparar na ironia trocista de tudo isto.
Reparem, foi precisamente na altura em que mais denominações de origem se criaram que mais denominações de origem se destruíram.  Eu explico. Ao mesmo tempo que se reconheciam determinados locais como especiais, os produtores decidiam cortar radicalmente com o passado e plantar castas estrangeiras, adoptando praticas de viticultura e enologia que lhes permitissem "ombrear" com os vinhos da moda nos mercados onde queriam entrar (prometo que não falarei do estudo Porter). Infelizmente, para o grosso dos produtores PT, ombrear significava/significa copiar!
Resultaram  vinhos fotocópia que, independentemente da origem, faziam pensar que se tratava de um único lote, engarrafado com diferentes rótulos. Foi a loucura dos enólogos consultores, das receitas e da homogeneização. Foi tempo de queimar identidade. A origem parecia envergonhar. Se pudesse passar por um vinho Australiano, Neozelandês ou Sul Africano... tanto melhor. 
Percebem agora a ironia da coisa?
Agora, vendia-se vinho e a fórmula parecia estar a resultar. Virou moda ser produtor. 
Depois vieram os exageros. Típicos do processo de aprendizagem (neste caso, tanto da enologia como do consumo). Foram as monocastas, os vinhos seco que pareciam doces, as barricas engarrafadas, a extracção/concentração, e outros devaneios enológicos, também com o intuito de enganar o tempo.
No fim, parece que resulta, vão-se pagando as contas, vai-se satisfazendo o consumidor, vai-se permitindo financiar a próxima colheita, certo? 
Errado!
No fundo, esta politica empresarial, não constrói nada. Não desenvolve identidade, não cria valor ao negócio, não cria alicerces! È proxenetismo da terra. Apenas e só!

Entendo que Portugal é  um pais demasiado pequeno e especial para estar vocacionado para o volume ou cópia. Claro que necessitamos ter alguns produtores a actuar no volume, mas precisamos não fazer gala disso (com promoção). Se é para copiar, copiemos os nossos.
Entendo que o caminho passa por olhar para trás antes de olhar para a frente, analisar o que tínhamos de tão especial e nos permitiu criar esta infinidade de denominações. Procurar verdadeiramente a especificidade com as castas locais e aplicar-lhes os conhecimentos que temos hoje melhorando o produto final, e não, conduzi-lo a algo para o qual não está vocacionado.  
È um caminho longo e muito mais doloroso, mas com frutos mais suculentos. 
Por outro lado, entendo que, de uma vez por todas temos de promover os vinhos que melhor nos podem representar. Esses vinhos "diferentes", especiais, nativos, identitários, enraizados, únicos.  Promovendo esses, e só esses, poderemos depois levar os outros atrás, quando a marca Portugal for associada a estas promessas de compra.
Para isso só precisamos da coragem de quem faz promoção e de muito fair play de quem dela beneficia.
Na minha geração de produtores e enólogos vejo muito mais  paixão, mais apego ao que é da terra, vontade de procurar o elemento único e  de valorizar as nossas raízes, vontade de arriscar ... De construir terroir.
Não que esta seja uma geração de gente melhor. Estamos, isso sim, numa condição diferente. Os desafios são outros e começámos o trabalho a partir daquele desbravamento que, bem ou mal foi feito. A nossa missão passa muito por esta reaproximação à terra, mas também pela participação na "educação" vínica dos consumidores. Não precisamos destruir nem cortar com o passado. Precisamos de o redireccionar!  Não  precisamos pintar nem esconder o que foi feito, mas considera-lo património histórico. Cimento para a nossa credibilização. Ponto de partida. "Estrada"!
Dito de outra forma, temos condições para fazer um bom trabalho e deixar muitas condições para que, já na próxima geração, os vinhos Portugueses sejam uma referência internacional de real peso. 
Eu pelo menos, penso assim! E vocês? O que pensam disto tudo?




16 de Maio de 2013

Espumante pelo Método Clássico – Passo 3.1: Tiragem. Elaboração do Lote



Precedências:
Passo 1: Escolha das uvas
Passo 2: Elaboração do vinho base.


Passo 3: Tiragem

Resumo:
Tiragem, no método clássico, é o nome que se dá ao engarrafamento do vinho base com leveduras e uma fonte de açúcar, a fim de promover uma 2º fermentação alcoólica  na qual o gás formado fica retido na garrafa.



Desenvolvimento:

Se quisermos ser rigorosos, teremos (tenho!) de dividir este passo em três momentos distintos, todos de importância capital para a obtenção de um espumante de elevada qualidade. Elaboração do lote; Preparação do lote; Tiragem.

Passo 3.1: Elaboração do Lote:
A concepção de um lote de vinho para espumantizar não é diferente, nos procedimentos, dos demais néctares etílicos.  Lembro, que nesta fase estamos ainda a provar vinhos "normais" e sem bolhas, que apresentam apenas parâmetros diferentes. Para quem nunca provou, os vinhos base, além das características descritas no passo 1, têm maior acidez, o que, costuma incomodar os provadores menos avisados
Prefiro-os completamente secos* (não têm de ser, já que vai haver uma nova fermentação de açucares!), facto que combinado com a acidez "dá cabo" de uma boca... quem sabe de duas. Mas permite, no entanto, uma avaliação mais directa, sem desvios provocados pelo doce (basta pensar como a adição de açúcar ao café os torna todos iguais e bebíveis!) 
Tecnicamente,  o vinho final não precisa ser de uma única colheita (safrado) para ser classificado nas categorias superiores (D.O.C.). Pode ser feito com recurso a colheitas mais antigas loteadas com as mais recentes de forma a conferir uma maior homogeneidade nos lotes de "ano para ano", bem como para conferir ao vinho características especificas (cuja especificação levaria à transformação deste post num pequeno lençol.Mas se interessar, podemos discuti-las nos comentários!). 
Socorro-me da simples, mas brilhante organização de ideias apresentada por Paul Guyard, num recente workshop organizado pela Enartis PT, para ilustrar a forma de estruturação de um lote ideal. Dizia ele que, independentemente do espumante que se pretende,  o lote ideal resulta sempre do equilíbrio entre 3 pilares fundamentais:

 Aroma, estrutura e frescura.

 Pessoalmente, penso que poderemos, mediante a finalidade do vinho, alterar o peso individual de cada pilar, concedendo mais peso ao aroma e frescura nuns casos, à frescura e à estrutura noutros. Conceptualmente, acabo por dar importância capital à frescura, pois não concebo um espumante em que ela seja assunto menor. Mas.... lá existirão os casos onde o aroma e a estrutura sejam mais interessantes do que a frescura. Não me ocorre nenhum caso, mas...





Figura 4 - Esquema representativo da interacção entre as característica principais, a ter em conta na realização de um lote de um vinho base ideal e pronto para a espumantização. 

_____
*Refere-se à quantidade de açucares residuais, ou seja, da concentração de açúcar que sobra da fermentação alcoólica.  Um vinho seco, por norma, apresenta-se sem açúcar, o que analiticamente representa concentrações inferiores a 2 g/L.

2 de Maio de 2013

Fórum da Revista de Vinhos. O fim!


Num país que não aceita o fim dos ciclos. Que encara como derrotas qualquer ponto final. Que apaga do curriculum toda a experiência mal sucedida. Que prefere arrastar na agonia projectos moribundos, até que afundem na treva todos os recursos disponíveis. Neste país, e por isso, entendo que a decisão da Revista de Vinhos, de fechar o seu forum, se reveste de uma especial dignidade e clarividência. Tiro-lhes o chapéu.

Reparem. Não sou muito entendido na tecnologia empregue nestas plataformas (nem sei se lhes podemos chamar assim), mas baseado apenas na minha ignorância, julgo que manter um forum sem movimento, deve ser tão difícil como manter um site ou um blog sem actualizações. Uma vez pago o domínio, mais as outras merdas, deve ser só "deixar estar".
E "deixar estar" é, como sabem, um desporto nacional!
Ele são sites que vivem do "deixa estar", fóruns que sobrevivem do  "deixa estar" e blogs,  tantos, que se actualizam com mais "deixa estar".
Sou pelo experimentalismo. Sou pela tentativa e erro. Sou pela leveza dos pontos finais. Sou pelo baralhar e dar de novo. Sou pelo assertividade da 10ª tentativa. Sou pela correcta leitura do fracasso (apenas mais um degrau para o sucesso!). 
Sou leviano. 
Chamo a tudo isto aprendizagem.

Volto ao forum da RV. 
Não tenho interesse em dissertar sobre os motivos do fecho. Essa é uma reflexão que cabe aos responsáveis mais aos estudiosos do "Eno Social Media". Tenho as minhas teorias.
Quero apenas deixar um agradecimento a todos os outros "floristas", sem excepção, que, ao longo destes anos, nas várias discussões ali desenvolvidas, contribuíram  inequivocamente, voluntária e involuntariamente, para o meu desenvolvimento pessoal e eno-intelectual.
Quero ainda agradecer à equipa que criou e manteve o forum aceso durante todo este tempo. Durante anos, ali foi o "único" sítio onde a discussão virtual sobre vinhos pt aconteceu.

Sou grato! 

P.S.: Agora.... que eu gostava de saber quem era o tal do Barrica em Segunda Mão.... isso eu gostava! ; )

23 de Abril de 2013

"O que fazes com o CO2 da fermentação?"

Para aí em 2006, uma amiga do "mundo" da cerveja perguntou-me o que fazíamos (no vinho) ao CO2 (dióxido de carbono) que se forma durante a reacção de fermentação (o açúcar é consumido pela levedura e o resultado é álcool e dióxido de carbono). 
-
Os fermentadores de cerveja permitem recuperar o gás produzido, canalizando-o para balões de armazenamento. Depois é usado em coisas tão variadas como a injecção de novo na cerveja (durante o enchimento) ou armazenado nas botijas que são usadas nas máquinas de "imperial".
-
Ri-me da pergunta e disse-lhe que o gás produzido era tão pouco que não valia a pena o esforço monetário para o recolher e armazenar. Seria um investimento ainda mais parvo do que a micro geração de energia da EDP.
Mantive-me assim até visitar o produtor de Bordéus, Château Gruaud Larose.

Às vezes, as grandes ideia são ... estupidamente simples! Interpretações básicas das evidências, e sua  utilização em nosso benefício.
Um dos riscos que se corre nas adegas, durante a vindima, é a oxidação dos mostos antes do arranque da fermentação. Especialmente para quem usa leveduras nativas (em mostos brancos limpos), já que a fermentação tem tendência a demorar um pouco mais a começar. 


O produtor citado, minimizou o risco recorrendo, precisamente ao aproveitamento do CO2 que se perde na fermentação.
Como? 
Montou um sistema de canalização simples (PVC) com picadas direccionadas às cubas, cada uma com uma torneira. As tampas têm uma rosca que permite acoplar uma mangueira flexível que faz ligação da cuba à canalização.




Depois, já vêm, é só abrir a válvula das cubas que já estão a fermentar, de forma a que o CO2 libertado, pela pressão gerada, "inunde" os canos e se direccione para as cubas e lagares que estão ainda por arrancar e que precisam de ser protegidas. Simples não?


Figura 1- Representação esquemática do fluxo de CO2, numa adega com canalização que permita fazer o aproveitamento do gás formado pelos mostos já em fermentação, na protecção daqueloutros ainda inactivos. 


Mas cuidado! 
O CO2 é um gás muito perigoso e, pelo menos nos lagares, requer que seja manuseado por alguém com muito bom senso e um enorme sentido de responsabilidade (agora que falo nisso, lembro-me do Paulo Coutinho ter falado de algo semelhante num qualquer forum de discussão!).

No mercado já vi tampas adaptadas e cubas com local de acoplagem independente que podem ser utilizados para este propósito. Não é  que seja caso único, possivelmente não é, contudo, penso que a ideia é simples, barata e de uma eficiência estonteante.
Para as adegas portuguesas, onde a pobreza é seguramente maior do que numa adega bordalesa,  podemos sempre recorrer a uns metros de mangueira alimentar e uma torneiras (prefiro de plástico do que em inox "fajuto"). Depois é ver como inventar nas ligações (roscas de PVC ligadas com abraçadeiras à "canalização").
A pressão do gás será sempre pouca, por isso, não há necessidade de coisas muito robustas. Apenas teremos de ter atenção à adequação aos facto de estarmos a lidar com um produto alimentar, nesta fase, muito receptivo à incorporação de aromas estranhos que lhe sejam fornecidos.
Conhecendo os princípios, olhando para as coisas de forma simples e com imaginação, conseguimos mesmo, excelentes soluções, não?

Alguns esclarecimentos úteis:
O CO2 é um gás inerte (não reage  com nenhum componente do vinho) que usamos bastas vezes na protecção de mostos ou vinhos. Isto porque, sendo mais pesado que o ar, tem tendência em substitui-lo na zona de contacto com o mosto/vinho. Aprendi a chamar isso de almofada de CO2 (Cf. Figura 2). Se têm dificuldade em perceber o conceito por se tratarem de gases, imaginem um copo com vinho ao qual junta azeite. Este ultimo terá tendência para subir à tona e formar uma camada entre a superfície do vinho e o ar.


Figura 2- Representação de um mosto protegido desprotegido e de um outro protegido com CO2.






15 de Abril de 2013

Estes Alemães são doidos!

Adolf Schrödter, Falstaff und sein Page, 1841

Socorro-me, mais uma vez, de Hugh Johnson's, e do seu no fabuloso livro História Universal do Vinho, para quebrar o jejum de posts. Mas tenho medo. Começo a correr o risco de, num destes dias, ser olhado como uma nova versão (fraca e desinteressante) do Dr. Vasco d'Avillez.
Cruzes credo, isso não quero!
Este digníssimo Senhor do Vinho merece que a "pasta" seja herdada por alguém muito melhor que eu, um miserável citador de curiosidades.

Diz então o autor que, pelo século XVI, o povo alemão ganhou uma obsessão por vinho, de tal forma, que as famílias nobres tinham o costume de contratar "bebedores profissionais". Não refere o texto (e eu não procurei noutra fonte) se era um serviço permanente ou somente para os eventos de salão. Contudo, tinham a particularidade de escolher figuras, já de si, cómicas. Estão a imaginar quem? Claro, os gordos bem falantes, desenvoltos no discurso mas completamente trapalhões nas acções. Uma espécie de bobos da "nova era". No seu caderno de encargos constava apenas que tinham de, pasmem-se:
 beber muito, arrotar e vomitar.

Imaginam a cena? Tudo em animada algazarra e o tipo, vermelhão de tanto vinho (isto já sou eu a interpretar), "saca" de um brutal arroto que leva os convivas às lágrimas. De seguida sai da mesa e vomita (ninguém sugeriu onde, por isso usem a imaginação), volta à mesa e de novo arrota, confirmando o vazio da vasilha. O publico vai ao rubro e aplaude de pé!
Que grandes festarolas, sim senhor!
"Gandas" malucos!

Não consigo decidir se está aqui uma ideia de negócio ou se é, simplesmente, mais uma demonstração da parvoíce extrema deste povo, que depois nos deu coisas tão boas como o nazismo, os turistas gordos e barbudos que bebem cerveja o dia todo ou a Angela Merkel.

É muito tentadora, a ideia de alguém pagar para me empanturrar de Riesling e depois o vomitar no colo de um qualquer capitalista alemão. Mas não daqueles que o Gandhi gostava, se puder escolher, só vomito em políticos e banqueiros, vestidos!

7 de Abril de 2013

Monte Cascas - O Totó e o Surfista

Foto usada a partir do Airdiogo num copo


Por mais voltas que dê, por mais tentativas que faça, não consigo!
Não consigo fazer um report bonitinho, a raiar o jornalístico e cheio de notinhas de prova e apreciações aos vinhos.
È também por isso que rejeito os convites que me fazem, enquanto blogger, para estar presente nesta ou naquela apresentação. 
Mas desta vez... Houve choradeira, imploração e alguma chantagem emocional. Lá fui, sem saber ao que ia, mas.... fui!

E onde fui eu?
Ao Restaurante Avenue para a apresentação aos blogger do projecto Monte Cascas e sua gama de vinhos.


Foto retirada do perfil de Facebook


O projecto em si, é um "velho" conhecido. Há muito que o acompanho. Não só porque a ideia de negócio é, aos meus olhos, de um brilhantismo sem par  por terras lusas, como também porque desde que o conheço, nutro a mais profunda inveja pela coragem destes dois malucos.
O que tem de tão especial?
Não fazem e vendem vinho?
Sim!
Mas isso é o menos. A forma como o fazem é que me parece brilhante.
Produtores sem vinha nem adega, mas com umas enormes raízes em todo e qualquer recanto do país (por agora?) onde encontrem umas poucas de uva que lhes pareçam especiais. Depois negociam com os proprietários, procuram uma adega próxima e pronto, já está (o tanas é que está!).


Foto retirada do Google, mas originária no site do projecto.


A sua gama de vinhos parece-me muito inteligente. Têm 3 patamares de qualidade/preço/quantidade/Individualidade, bem definido e muito bem conseguidos. As primeiras duas ( dos colheitas, reservas e grandes reservas), claramente para responder aos "bons" apelos do mercado juntando as melhores uvas e todo o seu respeito por elas. Junta-se uma terceira, (dos single vineyard e icon), onde os dois dão largas à loucura e se permitem a tudo o que entendam ser necessário para que as uvas, de um determinado vinhedo (o foco é mesmo nas uvas), possam expressar aquilo que as suas mentes viram e sentiram ao pisar as entrelinhas das leiras que lhes calharam em sorte.  Goste-se muito ou pouco, são especiais, quase personificações do espírito da vinha. Vinhos com carácter, que a meu ver perdem ao ser bebidos/provados sem que as suas histórias/estórias estejam no prato.
Em suma, é um projecto desempoeirado, com gente alegre e feliz pelas suas escolhas. Apelidam-se de Totó (Hélder Cunha) e Surfista (Frederico Gomes), e logo se entende porquê. Não se nota um corte entre a vida profissional e a vida pessoal. Aquilo que se vê, parece ser mesmo o que se tem. Aquilo é parte deles, uma forma de estar na vida, mais do que um simples negócio.
Fazem o especial favor de serem meus amigos. Por isso, há uma forte probabilidade de que este post esteja carregado de emotiva fraternidade. Nada como vocês  fazerem os vossos próprios juízos.  Seja provando os vinhos, seja conversando com eles. È uma questão de os procurar por eles nas feiras, mostras e lojas.

O evento noutros blogs:

Copo de Salto Alto
Jójójoli
Airdiogo num copo
ETOVL

Adega dos Leigos

3 de Abril de 2013

Nicolas Joly - Vinho, do Céu à Terra


A curiosidade pela biodinâmica já vem de trás. Sabia o mesmo que o comum dos enófilos, sobre este movimento agriculta.  No entanto, recentemente, houve algumas questões de "envolvência ambiental" que me aguçaram a curiosidade e levaram ao aprofundar de conhecimentos neste campo.
Na pesquisa que fiz, este foi o primeiro que me saiu em Português (também sugerido por alguns amigos/colegas), prometendo ser abrangente o suficiente para a estreia.

Bom, o livro!
A primeira recomendação vai para os corações mais frágeis dos cartesianos materialistas. Terão de ler página a página (claro! Mas refiro-me a uma leitura pausada) acompanhado com fortíssimas infusões de tília ou flor de laranjeira. È a única maneira de não procurarem o autor para lhe tentar partir as "fuças", tal o grau de agressividade gratuita com que este apresenta e defende as suas crenças.
È uma pena que assim seja, pois, finda a leitura, entendo que há boas ideias aqui. Muito bons princípios que merecem ser estudados. Não carecia, o escrivão, de atacar gratuitamente todos aqueles que defendem abordagens diferentes (deixo a justificação para um conjunto de posts que planeio fazer, no fim das remanescentes leituras, especificamente sobre a Biodinâmica).
Para já, e feitas as ressalvas necessárias - até porque não há muitas alternativas - recomendo a quem queira saber o que é isto da Biodinâmica que o leia (o autor tem outro mais virado para os enófilos, mas só encontro em Inglês e Francês).
È um livro fácil e com conceitos simples. Se derem o devido desconto, aprendem-se umas coisas para além do muito que nos põe a pensar!

29 de Março de 2013

2009? Não... não se vendia. È muito velho!


Feriado. Chuva "que Deus a dá". Livros novos para explorar. Ideias para organizar. Uma vista fantástica para o diluvio que cai lá fora e.... 
Pensam que aproveitei?
Nada! Um convite para almoçar, mesmo em cima da hora, pôs as tropas em movimento rápido cá por casa. Tive de ceder.

Cá para os meus lados, quando se quer comer boa comida e pagar pouco, ruma-se a Almeirim. Há para ali uma infinidade de restaurantes do tipo "cantina", com boa comida e ingredientes razoáveis.  O serviço de vinhos é geralmente mau, mas em contrapartida, os preços são bastante toleráveis.
A escolha do restaurante (pelo menos para mim!) é quase como as predileções clubísticas. Tal como sou do Benfica, tenho preferência pelo Forno. Apenas porque sim!

Comeu-se bacalhau dourado e polvo à lagareiro (no Forno não sabe a polvo cozido) e para acompanhar, procurei na carta (melhorada, pelo menos na apresentação das referências, mas ainda assim pouco ousada!) um vinho branco com idade e madeira. Entre as possibilidades, apareceu-me um que parecia conseguir cumprir a função. Um Fiuza Primium feito com as castas Chardonnay e Fernão Pires na colheita de 2009. 
Neste tipo de pratos gosto sobremaneira dos amanteigados dos Chardonnays com o toque, mesmo que leve, da madeira. (O amanteigado vem essencialmente da batonage, não da madeira. Este pode ser conseguido em cuba, embora com o tempo em garrafa tenham depois tendência a puxar para os queijos mais do que para a manteiga e massa de bolo)
Não tenho especial predilecção pelos vinhos deste produtor - embora respeite e reconheça a qualidade e o bom trabalho nos seus produtos - e por isso desconheço as particularidades das suas referências. Perguntei a quem nos servia se aquele vinho teria estágio em madeira. Respondeu-me terminantemente que não (e com um ligeiro esgar de troça), que isso de meter os vinhos em madeira era coisa de vinhos tintos, mas que ia ver! 
Começamos mal! Fico logo em brasa quando alguém conhece tão bem os vinhos brancos e a forma de os fazer!
Trouxe a garrafa e confirmámos que de facto, tinha qualquer coisa no contra rótulo que indicava a passagem por lá, pela madeira! Decidimos arriscar. Os copos é que não estavam à altura do vinho. Pena!
Acabou por me surpreender pela positiva. Mostrava muito mais o Chardonnay que o Fernão Pires (o que não será de estranhar já que estas duas castas têm tendência a evoluir em sentidos opostos). Untuoso e com peso, apesar de não se notarem os 14% de álcool.  A manteiga e o "cremoso" a aparecer junto a um ligeiro doce que atribuo à madeira. A acidez estava lá, sem deslumbrar, mas a aguentar o barco com bastante garbo. Estava de facto bom e por uma módica quantia de 7 euros e qualquer coisa. Acima de tudo, combinou na perfeição com os pratos escolhidos.

No fim do almoço decidi visitar a loja do produtor, que é ali ao pé, e comprar 2 ou 3 garrafas para mostrar à malta enófila com que costumo reunir-me. Estava fechada. Sexta-feira Santa.Não desisti! 
Fui a uma das pequenas lojas de vinho que há por ali e pedi o vinho. Não tinham. Olhei para a estante e vi apenas as mais recentes colheitas. As entranhas revolveram-se. Perguntei ao Sr. da loja se havia motivo para isso. Respondeu: "Sabe... 2009... já é um risco grande! As pessoas não compram". Disse-lhe que fazia também parte das suas funções educar os consumidores. O Sr. respondeu-me já meio agastado que não poderia tirar-lhes o dinheiro do bolso. Não valia a pena insistir, percebi que ele não iria tentar "impingir" uma verdade que não acredita. Saí irado e fui a outra loja. Só tinham o 2010 e ao preço do restaurante (como?). Fui a outra, só tinham o 2011 (também ao preço do restaurante). Sai e desisti, não fosse correr o risco de  encontrar o 2012  e perder totalmente o interesse pelo vinho. Em absoluto!
Neste périplo, informaram-me que na loja do produtor o vinho está entre os 5 e os 6 euros. Um pouco de reflexão leva-me a concluir que(talvez pela forma de pensar do ambiente envolvente), se no restaurante se vende a este preço,pode também  ser porque querem despachar o stock (não tem de ser, este restaurante pratica uns preços muito justos para os vinhos!).

Meus caros! 

Os vinhos brancos, hoje, já não merecem este tipo de desconfianças.
E que bem  saberia, se os responsáveis por fazer chegar os vinhos aos consumidores, soubessem  mais sobre as maravilhas de um bom e respeitável vinho branco de 2009.



27 de Março de 2013

Espumante pelo Método Clássico – Passo 2: Elaboração do vinho base



Passo 2: Elaboração do vinho base

Resumo:
Um vinho destinado a fazer espumante, para além de requerer parâmetros físico-químicos diferentes dos demais (Cf. Passo 1), requer especiais cuidados que devem ser tidos em conta na hora de processar as uvas. A apanha deve ser manual, a prensagem  feita às uvas inteiras e com engaço. O mosto deve ser separado segundo critérios específicos. Apenas pretendemos o que nos provém da polpa. 
A fermentação deve ocorrer a temperaturas controladas, a fim de encontrar a relação óptima entre a obtenção de aromas e a de produção de levedura (biomassa), com vista a obter os vinhos pretendidos.
Depois da fermentação e até que se inicie o processo de preparação para a tiragem (passo 3), as cubas devem ser guardadas atestadas e deve intervir-se o menos possível.

Desenvolvimento:
Depois das uvas escolhidas, podemos começar a pensar na elaboração do vinho base. Esta fase, é a que tenho mais dificuldades em descrever, pois os processos variam de produtor para produtor, de enólogo para enólogo ou de colheita para colheita. É uma das boas coisas da enologia, o facto de não existir uma formula única para chegar ao "mesmo" resultado.
Em todo o caso, há um passo que é critico. A prensagem. Recomenda-se que seja feita tão depressa quanto possível,  sem que haja qualquer intervenção prévia nas uvas. Basicamente será assim: Uvas apanhadas à mão e metidas dentro da prensa com engaço e tudo. Este, facilita a drenagem, o que faz com que todo o líquido extraído tenha menor contacto com as películas  evitando a extracção de compostos que noutro tipo de vinhos são benéficos, mas não nos espumantes. Para além disso há uma optimização da prensagem em si (tem a ver com os tempos e com o rendimento de cada patamar de pressão. Podemos discutir isto se quiserem!).
Qual é então a vantagem de apanhar as uvas à mão? 
Para além de ser a única maneira de ter engaço, permite, com uma equipa bem oleada (preferencialmente de mulheres. Um dia destes explico porquê!), escolher ainda um pouco mais as uvas no campo. Dá, logo na vinha, para rejeitar uvas menos sãs, uvas com maturação fora do pretendido… Enfim, já perceberam a "coisa". Tudo isto é uma preciosa ajuda para quem não tem tapete de escolha, mas também para quem tem, pois facilitando o processo, aliviamos a tenção que representa esta ultima barreira.
Muito bem, retomemos! 
Não há contacto pelicular, as uvas são imediatamente esmagadas com engaço. O mosto resultante passa para uma cuba de refrigeração onde se fará a clarificação.
Nem todo o mosto deve ser usado na realização deste vinho. Há partes que convém serem retiradas, principalmente no principio e no fim da prensagem. As do principio porque são muito ricas em lípidos que dificultam a acção da espuma e as ultimas porque contêm outras moléculas que não queremos no vinho. Só queremos mesmo o néctar puro da polpa, rico em açucares e ácidos. 

Figura 2 - Esquema representativo do comportamento das uvas na prensa. Com engaço, formam-se canais de drenagem que facilitam o escoamento do mosto. Sem engaço o mosto demora mais tempo a escoar a partir do topo.

Dependendo do gosto, da filosofia empregue ou da capacidade tecnológica da adega, a clarificação faz-se em maior ou menor escala. No fundo, consiste na separação das matérias mais pesadas, recorrendo à combinação frio + tempo, adjuvadas por outros aditivos como enzimas e colas, que facilitam o processo ou ajudam a remover constituintes prejudiciais à formação de espuma (a nossa maior preocupação).
O mosto limpo é depois separado do restante (que fermentará à parte), por um processo de  decantação (que não cabe aqui, mas explicarei noutra altura.), e estará agora pronto para a fermentação.
A adição de leveduras seleccionadas é também uma opção que se tem, tendo em conta as variáveis descritas acima. Presentemente, na adega onde estou a tempo  inteiro, uso as leveduras nativas, com belíssimos resultados (não só neste vinho, mas em todos os brancos). Contudo, entendo que deveremos ter o máximo de condições para isto, não esquecendo equipamento, capacidade higiénica, conhecimento do comportamento da casta (no nosso caso foram 6 anos a estuda-la antes de avançar para esta realidade) e presença "constante". Também os perfiz dos vinhos estão dependentes, quanto a mim, da escolha de levedura.
A temperatura de fermentação é outro factor que está relacionado com o vinho pretendido. Para vinhos a consumir novos, em que os aromas primários sejam mais importantes, prefiro baixas temperaturas (12-14ºC) e recorro mais facilmente a leveduras seleccionadas para garantir segurança em todo o processo. No caso de um vinho que se destina a estágios maiores, já admito temperaturas mais altas (16-18ºC). Mas prefiro recipientes de menor volume onde a temperatura se possa dissipar mais facilmente. Gosto particularmente de usar barricas de carvalho francês muito velhas (225l) numa sala com temperatura controlada, ou bem arejada.
Obviamente que uma fermentação a temperatura mais baixa demorará mais tempo (entre 2 a 3 semanas) que outra a temperatura mais alta (aproximadamente 1 semana).
Finda a fermentação, há que preparar o vinho para o inverno. Um pouco de SO2 para proteger (à volta dos 20 mg/L no SO2 ivre), cuba atestada e nada de mexer no vinho. Ao contrário dos demais brancos, em que gosto de misturar a borra fina (a que resulta da deposição das leveduras mortas depois da fermentação acabar) de quando em vez para lhes dar mais cremosidade e arredondar a acidez (quando ela chega para isso!), nas base espumante quero que as mexidas sejam as menos possível. Porquê? Simples, a ressuspensão das borras finas é, no fundo, igual à batonage que fazemos nas barricas, ao fazermos isso forçamos as leveduras mortas à decomposição celular mais rápida, impregnando o meio de manoproteina, glicerol e aminoácidos que nos trarão mais estrutura, mais cremosidade e mais complexidade aromática. Acima de tudo dá-nos “peso”. Tudo o que não queremos num vinho espumante, certo?
E pronto, rezamos muito para que o Inverno traga frio e seja amigo do nosso vinho. Normalmente não gosto de lhes voltar a tocar até ao virar do ano, altura em que começo a pensar na tiragem e a fazer as operações preparatórias para a tiragem.

Figura 3 - Diagrama de fluxo das operações unitárias mais relevantes da fase 2.

18 de Março de 2013

Espumante pelo Método Clássico – Passo 1: Escolha da Uva



Já por diversas vezes, abordei aqui a questão dos espumantes (vejam a etiqueta que diz espumantes). Contudo, existe ainda muito a dizer (e não se esgotará neste conjunto de 6 posts) sobre esta bebida fascinante.
Sinto necessidade de aprofundar um pouco mais sobre o método Clássico. Aquele que foi iniciado e desenvolvido em Champanhe e de onde (arrisco o erro!), ainda hoje, nos chegam as mais importantes inovações e evoluções.
O presente conjunto de posts, não são mais do que uma tentativa (já que o todo será uno) de explicação dos diferentes passos da hierarquia de execução, tal como a concebo.
Não deixa de ser, também, bastante pessoal, já que o conhecimento em enologia não é estático. Deixa espaço para a interpretação e adaptação a diferentes realidades. Até às interiores de quem faz as escolhas e aplica os métodos.

Passo 1: Escolha das Uvas.

Resumo:
A escolha das uvas está dependente, sobretudo, do tempo de estágio que se pretende dar ao vinho. Desta forma, escolho uvas mais ácidas,  menos alcoólicas e mais neutras do ponto de vista organoléptico, para vinhos que se destinam a estágios longos ao passo que, para vinhos de consumo mais precoce, prevalecerão parâmetros que permitam intensificar as sensações aromáticas provenientes da uva e conseguir vinhos menos agressivos, com espumas mais cremosas logo cedo.

Desenvolvimento:
Posso fazer um vinho espumante com as mesmas uvas (mesma parcela) que uso para um vinho “de barricas”?
Sim. Em teoria posso. Mas terei de ter atenção ao estado de maturação. A altura de as colher, bem como alguma acção na vinha, são condicionadas pelo vinho que tenho em mente. Mesmo entre diferentes tipos de espumante, terei sempre de ter em conta factores como o publico alvo (se é uma condicionante!) ou, mais importante, o tempo em que lhe será permitido dormir sobre as borras (a tratar no passo 4).

Se pretendo um  estágio prolongado (mais de 2 anos), procuro uma acidez alta (para aí  8 - 10g/L). O pH na casa dos 2,8 e o álcool provável*, para estes valores, se estiver entre os 9 e 10% fico radiante. Procuro ainda uma uva com aroma e sabor mais neutros. Menos intenso e com uma polpa mais “leve”.
Um parênteses aqui. O ideal é mesmo que o álcool provável seja próximo de 10 (explicarei à frente), contudo, para os vinhos espumante, desde que o valor não seja superior, ou muito superior,  passo a dar maior importância à acidez porque é de quem mais me socorro para garantir um bom estágio.
Se por outro lado pretendo um vinho onde o que sobressai são as notas de fruta (mais apelativos aos consumidores Portugueses) e com menor tempo de estágio, procuro que a acidez já seja mais baixa (entre os 7g/L e os 8g/L). O pH pode subir um pouco aos 3,0 (ou 3,1…vá) mas o álcool provável não pode passar dos 10,5 -11%. Do ponto de vista organoleptico, procuro uvas com aromas mais ricos (mas não exuberantes), que consigam dar-me a sensação de  mosto leves aos quais permitirei alguma estrutura mais, mas seguramente inferior aos brancos tranquilos.
Em qualquer dos casos é importante que na prova não se sintam herbáceos (se não sabe o que é, experimente morder um engaço... é melhor do que qualquer explicação que lhe possa dar. E nunca mais se esquece).

Para resumir, a escolha do ponto exacto de maturação é muito dependente do perfil pretendido e do tempo que o vinho permanecerá com as leveduras na garrafa depois da fermentação terminar.
As leveduras, por exemplo, só em estágios superiores a 6 meses** começam a libertar para o meio os compostos que nos dão as sensações dos aromas secundários (pastelaria, pão torrado, massa crua...), não fazendo sentido trabalhar com bases muito neutras em vinhos para consumir cedo. Prefiro bases mais ricas em aromas primários.
Nos estágios longos, uma vez que teremos desenvolvimento dos aromas secundários e com "sorte"***, também de primários**** , prefiro escolher uvas que originem vinhos base mais neutros, de forma a que os aromas se desenvolvam em harmonia, dentro da garrafa.
Façam uma vaquinha entre amigos e comprem uma cuvée prestígio (nomes que eles dão aos topos de gama) de qualquer casa de Champagne para perceberem melhor o que vos digo. Encontrarão um belo casamento entre as notas frescas e muitas vezes primárias e as deliciosas notas de pastelaria e afins à segunda fermentação. Tesouros descobertos por um  estágio prolongado.


Figura 1 - Variação dos critérios de escolha dos parâmetros físico químicos e organolépticos em uvas para espumante em função do tempo de estágio pretendido. 


A escolha da uva é por isso um passo fundamental no planeamento de um vinho espumante, pelo que já entenderão a necessidade de acções de viticultura também especificas. Não quero assustar, mas isto começa logo na maneira como se conduzem e podam as vinhas.

-------
Álcool Provável - Percentagem de álcool espectável depois da transformação de todos os açucares presentes no mosto.
**Na bibliografia, dependendo das fontes, estes valores variam entre 3 e 12 meses.
***Depende, obviamente, também da casta e do terroir.
****Muitas vezes estão presentes as moléculas que originam estes aromas, mas ainda não na "forma" certa ou nas ligações que lhe potenciam o aroma.

13 de Março de 2013

“Os blogs [de vinho] são TODOS uma merda!”


-“Os blogs são TODOS uma merda!”
...
-“Tenho um desses gajos que não pára de me chatear a pedir amostras!”
...
-“Já disse a um deles que quando quiser que ele prove os meus vinhos lhos envio. Ele que pare de me enviar e-mails e pedidos no facebook!”
...
-“Esses gajos não percebem UM BOI de vinho. Querem é MAMAR à pala!”
...
-“Já viste o que aquele gajo escreveu? Aquilo é o quê?”
...
-“Então mas tu não vês que aquilo nem de nota de prova pode ser chamado? Aquilo é uma comédia!”
...
-"Esses gajos são todos uma corja de desocupados!"
...
-"Já não tenho pachorra para os apanhar nos eventos por causa destas aves andarem sempre por lá a pedinchar!"
...
-"um gajo manda o vinho e eles não dizem nada! Às vezes dizem um ano depois quando já o vendi todo!"

Acreditem ou não - sei que a muitos de vós dará mais jeito não acreditar – ouço frases desta natureza, entre uma e duas vezes por semana. Ditas por quem? Por pessoas ligadas à produção e comercialização de vinho.
Eu lá vou defendendo a minha dama. Afirmo que nem todos são iguais, que é necessário separar o trigo do joio, que há malta a fazer coisas com bastante interesse, que trabalhado com rigor podem ser uma ajuda preciosa. Uma aposta de/com futuro.
Nada. Raramente consigo mudar uma opinião que seja. 

Não deixa de me aborrecer depois, quando me pedem ajuda para seleccionar bloggers para convidar para eventos ou enviar amostras, misturem tudo no mesmo saco. Mesmo quando eu rejeito peremptoriamente aqueles que considero bloguetas, afinam e acabam por convidar/enviar a todos. Uns porque não gostam de levantar ondas, outros porque têm medo, outros porque continuam a querer trabalhar mal.

Depois, claro está, voltam à mesma lengalenga de lamurias e lamentações. Na vez seguinte  tornam a convidar/enviar para os mesmos. Usam igual critério de escolha como se isso fosse uma obrigação institucionalizada. 
Não é! 

Meus amigos, nunca como hoje tivemos [produção] a capacidade de criticar quem critica. Seja quem for. Nunca, como hoje pudemos apresentar argumentos discordantes do que dizem do nosso vinho ou da nossa propriedade. Nunca, como hoje, tivemos a possibilidade de isolar um tipo e dizer-lhe que é mal formado, ou no limite… um perfeito “atrasado mental”.
Quando, numa época sem voz  um produtor calava por medo dos “poderosos” críticos… ainda entendia.
Agora, hoje…. 
Ter medo?
Medo de alguém que tem menos canal para comunicar que nós?
Medo do que diz ou faz um blogger?

Tenham paciência pá!


4 de Março de 2013

Rapariga depressiva tenta o suicídio e descobre bebida afrodisíaca



Diz Hugh Johson´s, logo na abertura do seu fabuloso livro, "História Universal do Vinho" sobre a estória  que vos romanceio (isto porque duvido que seja mesmo história!) que é a mais citada de todas as lendas, no que à descoberta do vinho diz respeito. Acredito.
Porque não?

Conta-se que, Jamsheed, um rei Persa cuja história muito se assemelha à de Noé (uma de muitas descritas por essas civilizações fora). Também salvou a bicharada e se não me engano, dever ter ajudado a repovoar o mundo (Não sei como esta gente evitava o pecado, mas pronto!).
A maior atracções, para nós que somos amantes de uma boa "pinga", é mesmo o facto da "rapaziada" na altura gostar de guardar uvas para depois as "mamar" fora de época. Nada de extraordinário.  O meu avô também fazia isso para ter uvas no Natal. A diferença é que o meu avô as pendurava ao ar e aqui a "malta" do Jamsheed usava umas ânforas - O Sr. Mendes não sabia da existência dos vinhos passito, senão teria decerto tentado.
Conta-se, que uma dessas ânforas fermentou e  o "pessoal", desconfiado como só os seres humanos conseguem ser,  "achou" logo que aquilo era veneno, metendo a vasilha de lado. Para quê não sei, mas também é conhecida esta nossa mania de guardar lixo em casa. Por isso não estranhem!
Agora é que começa a parte gira.
"Diz então" que no harém do rei - Isso. O gajo tinha muitas... e era legal -  havia uma "mocita" que sofria de dores de cabeça de origem nervosa. Farta da sua vida, tomou a decisão de beber o veneno e acabar com a miséria.

Aqui tenho mesmo de interromper o relato. Só para dizer que, não me convencem  com essa da dor de cabeça. Já fui enganado muitas vezes.... ná! 
A gaja não gostava era dele e, no desespero tentou matar-se. O tipo devia apertar com ela e ser bonito como uma salamandra gigante. Isso sim!

Bom, mas centremo-nos no resultado.
Parece que a "tipa" se empanturrou de "veneno" e passado pouco tempo estava leve e contente (pudera!). Depois encontrou um sono repousante e regenerador. Quando acordou, bem... devia estar com uma dor de cabeça do "caraças", mas desta vez, de origem diferente. Como era nova, passou ao fim de algumas horas.
O resto é "história". O rei, sabendo disso mandou fazer a nova bebida e a partir daí foi beber e curtir.

Não sou de intrigas, mas o gajo percebeu, de certeza, que bêbadas as mulheres iam com mais facilidade e até se divertiam! ; )
Esperto!

"E puff... Fez-se o vinho!"