27 de Outubro de 2014

Sabedoria do Mendes (VI)


Noto uma tendência crescente para que, mesmo dentro da gama de vinhos de um produtor, termos, em concursos nacionais e internacionais, bem como em painéis de prova mais ou menos cega, os vinhos de gamas mais baixas com classificações mais altas que os topos de gama. Também vejo muitos produtores industriais a serem melhor classificados que produtores "terroaristas".

A confirmar-se, quem achar que isso se deve pura e simplesmente à qualidade dos vinhos, deveria ser proibido de os continuar a fazer. Deveria  ser condenado/a a uns 10 anos de prisão efectiva mais proibição vitalícia de se aproximar de uma adega.

Quem perceber o porquê, por favor, explique-me... estou à nora!

21 de Outubro de 2014

Diário - Pondo a escrita em dia


Querido diário:

Durante o período alto da Vindima, é normal e frequente, deixar os registo para trás. Não gosto que assim seja, até porque desta forma, acabam por perder uma parte fundamental do seu "papel" que é auxiliar às decisões. Mas... é vida! Não vale a pena explicar!

Vale-me o treino, aliado a alguma capacidade para analisar os números sem necessidade que sejam organizados em tabelas ou gráficos (longe de ser infalível, contudo!) para ir tomando as decisão nos tempos certos.

Findo o período de maior reboliço, há que voltar ao papel, com algumas análises à mistura a fim de fechar as informações e compilar histórico que me será útil no futuro. Aproveito para tomar algumas notas e começo a esboçar algumas conclusões sobre as decisões tomadas antes e durante o processo de vinificação.
Considero ainda que para as empresas, é importante guardarem um registo histórico de cada vinho.

Confesso que este trabalho, nos seus dois componentes me agrada e desagrada. Se por um lado me aborrece de morte, andar a rebuscar e compilar todos os dados recolhidos durante a "festa", por outro, não deixa de ser verdade que me dá um prazer imenso, pensar sobre os vinhos, rever decisões, tomar notas, projectar futuros,...
Acaba por equilibrar! 
Valha-me isso!

Até amanhã!






19 de Outubro de 2014

Faça o seu próprio Vinagre a partir de vinho.



Este, acaba por ser um não tema. O que vou dizer, já toda a gente sabe, mas... de vez em quando, convém lembrar e dar-lhe nova roupagem. Este vem ainda como uma dica de poupança! 

Sabe que o vinho desprotegido e em contacto com o ar vira vinagre. Certo?
Então? Porque não pega neste conhecimento e fazuns vinagres porreiros para animar as saladas e oferecer aos amigos. Ao mesmo tempo, aproveita os restos de vinho que ficam por beber e aos quais não lhe apetece voltar.

O principio é simples. Basta seguir este fluxo:

Passo 1: Pegue numa garrafa, da qual foi retirado, pelo menos um terço do conteúdo a fim de providenciar uma boa caixa de ar. Invista apenas num molho (è assim que se diz?) de algodão e proteja o gargalo com um bocado (para permitir a troca de ar ao mesmo tempo que impossibilita a entrada de mosquitos).

Passo 2: "Esqueça-se" da garrafa num local arejado, escuro e sujeito à temperatura ambiente. Se quiser complicar um bocado, pode repetir o processo para outras garrafas, de preferência de diferentes tipos de vinhos e em diferentes condições de armazenamento, a fim de mais tarde possa seleccionar o melhor!

Passo 3: Quando a prova indicar que é vinagre feito (precisa de uns meses), filtre o liquido (com os filtros do café, por exemplo) e reserve no recipiente que lhe estiver destinado! Se complicou no passo 2, pode agora provar todos os vinagres e descobrir qual deles tem o melhor sabor, o mais límpido e o mais adequado para servir de inoculo para os próximos! (normalmente aquele que, para além dos tons acético, souber menos a pão, farinha ou massa crua).

A partir daqui, o limite é apenas no tamanho da sua imaginação. Pode fazer vinagres específicos, a partir de tipos específicos de vinho (Branco, branco com madeira, tinto, espumante, colheita tardia,...). Pode fazer infusões com ervas, pode fazer lotes, pode, pode....

De certeza que se viciará e quererá continuar com a brincadeira. Aconselho a usar o inóculo que escolheu no passo 3 e verá que obterá vinagres muito mais rapidamente.


Vá lá, divirta-se e depois conte aqui os resultados!



17 de Outubro de 2014

Enólogo. Procura-se.



Estou há 10 minutos em frente do computador a tentar arranjar uma forma irónica de dizer o que tenho para dizer. Não consigo, pois quanto mais tempo passo de volta desta ideia, mais depressivo fico e mais argumentos encontro para que este seja mais um daqueles casos óptimos que descrevem a forma como os empresários Portugueses pensam. 

Vi um anuncio de emprego em que uma empresa não especificada pedia um enólogo. Não vou descrever o anuncio, pois está na rede, é uma questão de pesquisarem. Perplexo fiquei quando vejo que o empregador, não querendo levar ninguém ao engano, afirma estar disposto a pagar 500€ mais pozinhos ao técnico superior que está à procura. Fiquei curioso, será que está à procura de um consultor? Um olhar mais atento dissipou-me a duvida. Não "tempo inteiro"! 
Melhora quando temos em conta que pede experiência!

Sério?

Antes que comecem a fazer alardo das papagueadas que os "politicoides" do "economês" gostam de propagandear para justificar a incompetência generalizada da gestão portuguesa, peço que, pelo menos, leiam e pensem nos meus argumentos! Prometo que pensarei nos vossos!

Ponto 1: È imoral o facto de andarmos todos a pagar impostos que também vão para a formação de técnicos superiores e depois esperar que estes sejam remunerados como trabalhadores não qualificados, mas realizando tarefas qualificadas.

Ponto 2: Que tipo de enólogo espera um produtor encontrar por este valor. Alguém com capacidades para adicionar real valor ao seu projecto, ou apenas um licenciado em enologia desesperado por pão?

Ponto 3: È para isto que andam preocupados em fazer legislação que defina o estatuto do enólogo?

Ponto 4: Quantos produtores conseguem viver com o dobro dos salários que propõem? Quantos destes estarão cá daqui a 10 anos?

Sei que isto é norma cá no Burgo e transversal a todas as qualificações. Duas conclusões óbvias me saem daqui. 

1ª País nenhum se consegue desenvolver quando tratamos assim os nossos técnicos qualificados. Quando demonstramos claramente que não queremos os melhores, apenas uns. Quando não fazemos bitola no mérito nem nas qualidades. Enquanto andarmos na briga do barato!

2ª Este produtor não procura um enólogo, mas sim um adegueiro... em inicio de carreira!

16 de Outubro de 2014

Diário - "Já acabaste as Vindimas"?



Querido diário:

Por estes dias, muita gente me pergunta se já acabei a vindima.
Confesso que fico  sem saber o que dizes, já que, é um facto que as uvas já foram todas apanhadas. Se "as vindimas" são isso, então sim. Já acabou. Por outro lado, ainda tenho os brancos a fermentar (um branco, pelo processo que uso leva cerca de 3 semanas a fermentar se não mais) e os tintos estão a fazer a fermentação malolática. Então não. Na adega ainda continuamos em Vindima.

È estranho, pois até alguns produtores acham que, "em tendo" as uvas na adega o trabalho acaba. Nada mais errado.

Balizo então, para memória futura, o que entendo ser, o tempo de vindima. Começam quando iniciamos o controlo de maturação (coincide com a tomada de decisões para quem prepara a vindima antecipadamente) e termina quando o ultimo vinho é "fechado". 
O fechar de um vinho, corresponde à sua sulfitação, depois de todas as operações de transformação terem terminadas e antes que se inicie o período de descanso.

È também aí que começo a pensar em gastar mais uns dias de férias!

Logo, agora, ainda estou em "Vindimas". A minha atenção ainda deveria ser dedicada em exclusivo à produção do vinho. 
Dá para entender?

P.S. Uma curiosidade que poucos saberão. O termo vindima, refere-se à uva, depois de apanhada e antes de ser transformada. Logo... a minha teoria sai enfraquecida. Mas não quero saber!

14 de Outubro de 2014

Qual é a bebida nacional?


Aqueles, de entre vós, que gostam de ser os primeiros a responder, chegam-se à frente e gritam com toda a pujança verbal que só a certeza tem: 


VINHO! VINHO! VINHO!

Errado. Muito errado!

Parte de nós, os cidadãos que nascem sem qualquer ligação familiar ao mundo do vinho, levamos muitos anos até provar algo que se assemelhe a isso. Muitos de nós morrerão na ilusão de o ter provado sem que, alguma vez se tenham deliciado com o verdadeiro nectar de Osíris (não sei porque nunca se fala neste, é tudo para o Baco e para o Dionísio).

Eu, pecador me confesso.Tinha perto de 30 anos quando finalmente percebi que gosto de Porto, por exemplo. Que aquilo afinal não é só a emulsão de borras em aguardente que eu me limitei a conhecer a vida toda. Esta discrepância entre o que o comum dos Portugueses conhece e o que existe é válida para todo o tipo de vinhos. È também triste e merece uma reflexão séria e profunda!*

Então agora que já conhecem os argumentos, querem tentar novamente adivinhar qual é a bebida nacional?

Zurrapa?
Errado. A zurrapa foi destronada há 10 ou 15 anos pela actual detentora do titulo.

Senhoras e senhores....

Apresento-vos a XAROPADA. Eis a bebida nacional!

O mais engraçado é que, ao contrário da Zurrapa ou dos Portos maus, esta é uma bebida democrática, pois tanto existe no formato "não é de graça por vergonha" até ao "deixe aqui o couro e o cabelo". Tanto agrada o consumidor mais simples como o mais entendido profissional. Existe desde o simples granel até à mais engalanada garrafa!

Viva  a democracia!
Viva a Xaropada!



*Para quem tem dificuldades em entender a ironia e a interpretar texto, esta é a frase central do texto. O resto é fogo de artifício. ;)

13 de Outubro de 2014

Diário - De volta à Escola.


Este ano, ao fim de 9 ciclos parado, reuniram-se condições para que pudesse voltar à Universidade. A vontade confesso, surgiu de um dia para o outro. Motivada por uma maior necessidade de aprender viticultura (à séria!) e organizar os conhecimentos de enologia.

Procurei formação nessa área e, eis que no site do I.S.A. encontro uma Pós graduação/Curso de especialização em Enologia e Viticultura, com a duração de 2 anos, ministrado em harmonia com a Universidade do Porto. Perfeito!
O plano curricular agradou-me, os formadores também. O preço pareceu-me muito ajustado e a cadência das aulas, o ideal.

Apenas um factor sem importância. Ao dia em que decidi, procurei e encontrei,correspondia também o facto de ser o ultimo para enviar candidatura. Fi-la, e nem reparei para onde me mandava o link.

Tudo certo. Respirei de alivio e esperei pelo resultado. 
Este saiu, e eu não estava lá. Tinha ficado na "lista de espera". Afinal, a inscrição no ultimo dia não tinha ajudado! Bolas... e eu que queria tanto!
Mas, sério, dentro de mim algo me dizia que esta história não acabaria ali. Pensei até pedir que me deixassem ao menos frequentar as aulas de viticultura. Mas... veio a vindima e passou-me.
Quando já nada fazia esperar, recebi um mail a perguntar se ainda estava interessado. Respondi que sim, claro!
Esperei mais umas semanas. Mandei mails a perguntar se sim ou sopas, que queria muito aquilo,.. sei lá o quê mais! ... até que recebi a esperada resposta!
Aceitaram-me no curso. Só tinha de confirmar que me mantinha interessado e a inscrição seria feita por eles. 
Nem pensei. Respondi logo que sim! Quero... e muito!



No dia seguinte recebi a inscrição e, já mais a frio, olhei bem para aquilo... 
Universidade do Porto? 
Tremi! Mas não. Eu fiz aquilo pelo site do I.S.A. Fui confirmar.
Lá estava, em letras pequenas, mas bem legível, a indicação de que as aulas teriam lugar no Porto.
Porra... no Porto?

Olha... que se lixe! São só dois anos e as aulas são de 15 em 15 dias! Há coisas piores!
Agora... bem, agora é uma questão de capitalizar isto! Talvez assim já possa aceitar algumas consultorias "pelo caminho". Afinal, quem se pode gabar de poder receber o enólogo de 15 em 15 dias? 

Mas nada disto retira importância ao facto de eu ser um troll no que diz respeito a back office!


12 de Outubro de 2014

Retomando o diário



Bom, agora que os vinhos foram todos prensados e apenas tenho uns brancos em fim de fermentação, é hora de voltar aqui. Relatar o que pode ser relatado (nada de ilegalidades, apenas o sigilo que devo aos produtores). Lá mais para a frente, farei o meu resumo do ano, tanto ao nível das maturações como das fermentações dos vinhos.

Por agora, quero apenas relatar que, para além dos vinhos da Quinta da Murta, do Quinta das Carrafouchas, de uma possível reedição do Vale das Areias Espumante, avancei para a realização de alguns vinhos meus. Pouca quantidade, mas toda a liberdade criativa que só a sanidade das uvas e as limitações de equipamento estão autorizadas a limitar.

Não quero deixar aqui mais do que a nota, pois criaremos uma estrutura de comunicação onde, daremos conta de tudo o que envolverá os nossos vinhos.
Falei no plural? Sim. Estou nisto com o meu amigo Ricardo Ramos que, desde a primeira hora se mostrou empenhado em fazer parte desta aventura. Chamamos-lhe Wine Cult e por agora, até à colocação no ar do nosso blog ou site, poderão seguir-nos no facebook, através da Hash Tag #winecult.

Por agora estou muito entusiasmando com os resultados (darei conta deles um a um). Pena as chuvas que, tenho certeza, não tivessem vindo tão cedo, tinham permitido o melhor ano para  Lisboa... desde que que trabalho na região(2005)!

11 de Outubro de 2014

Podridão Nobre?



No Portugal do vinho, tudo é impoluto, claro e imaculado. Cultiva-se uma postura de elegância em que tudo obedece às "Bobónicas" regras de boas maneiras. Não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode denunciar, reclamar, discordar, inverter, reinventar ou mesmo questionar.
Parece mal! Não fica bem! È escusado! È de quem não tem nada para fazer e tem mau "fundo"!
Somos tão perfeitos e imaculados que nem do cu a merda nos sai!

Se por um lado amaldiçoou os meus pais por não me terem ensinado a hipocrisia social, por outro, rigozijo-me de poder viver no meio de tanta assépsia... podre. 

Ou, diria melhor... 
.. no meio de tanta... Podridão Nobre?

7 de Outubro de 2014

O Vinho, o Crespo, a Sónia e eu (II)

Aparentemente a malta gostou e pediu mais!
Nós, como gostamos da paródia, acedemos.
A Sónia levou o pão e o queijo e nós o vinho!
O que precisam saber mais?

Está aqui o registo audio! para ouvir e pedir por mais (pois, que isto é viciante e eu quero ir lá outra vez!)

Espero que gostem.

Clicar na imagem para ouvir

25 de Setembro de 2014

A Sabedoria do Mendes (V)

Foto usada a partir daqui.


O Vinho, é dos produtos que mais sofre com o MAIOR erro, jamais cometido no que diz respeito os controlo do processamento e acondicionamento dos alimentos. 

Trata-se do facto de fazer corresponder o termo Qualidade a um produto que cumpre as regras de Segurança Alimentar.
È a mais básica das mentiras!

25 de Agosto de 2014

Nem os Monty Python....

Querido diário:

Nota prévia:
Todos os anos, quando começo a fazer análises à uva, tenho por hábito guardar os mostos brancos, que depois deixo fermentar. A desculpa é a de que gosto de ter uma ideia prévia sobre possíveis problemas fermentativos. A verdade é que estas fermentações libertam no laboratório, os aromas do Setembro da minha meninice, ligeiramente diferente dos aromas mais limpos das fermentações à séria. Amenizam o saudosismo hedonístico e criam ambiente para a época que se inicia.



Imagina agora isto:
Chego à adega de manhã e o produtor já cá está. Espera um grupo de eno turistas que marcaram visita para as 9:30. Encetamos conversa enquanto começo a preparar o trabalho do dia. Reparo, que as garrafas com o mosto da semana passada ficaram tapadas e iniciaram fermentação. Estão ambas tombadas (são garrafas de água de 1,5L) e gordas como o mais roliço dos glutões após uma feijoada à transmontana.
A partir daqui tudo se passa muito rapidamente.
Eu dirijo-me às garrafas para lhe libertar o gás, mas sem dar devida importância ao assunto. Ao rodar a primeira rolha, uma explosão faz o meu patrão proteger-se como se estivesse numa zona de guerra. Eu perplexo, tento contornar o esguicho. Sou, por momentos, um vencedor de um grande prémio de formula um. Aquilo molha tudo ao seu redor e, aparentemente, eu estou ileso.


Eis se não quando, reparo na chegada de um grande autocarro. De lá sai uma turma de 37 crianças mais monitores. È precisamente nessa altura que sou informado que esse grupo é para mim... Boa! Mesmo a calhar!
Ao olhar-me de alto, reparo no cenário da foto. Porra! Vão mesmo acreditar que foi sumo de uva.




Não aguento mais... disparo numa gargalhada que não consigo controlar e é assim que recebo a "canalha". "Fica tudo" espantado. Com ar de quem pergunta sobre o tipo de palhaço que estou a tentar ser.

No fim, correu tudo bem. Acreditaram que eu me tinha distraído com a brincadeira e fui tarde à casa de banho e ainda saíram daqui muito contentes com a possibilidade de hoje à noite, poderem desafiar os pais a deixar um pouco de vinho na garrafa para fazer vinagre.

Lembrei-me da frase do meu amigo Jorge Nunes, repetida à exaustão uma destas noites: 

"Desta, nem os Monty Python se lembravam!"




13 de Agosto de 2014

Porque sou enólogo?



26 de Julho, marca uma data importante. Para além de algumas questões pessoais, corresponde ao inicio da minha aventura "conjugal" com o vinho. Foi em 2004, pelo que fez 10 anos.

Já era um apaixonado pelo vinho quando entrei para a universidade. Contudo, nunca ponderei a  hipótese de pagar as contas desta maneira. O meu caminho era outro. Queria ser investigador e descobrir a cura para o cancro. Não ambicionava menos que um prémio Nobel como recompensa.

Não adianta esmiuçar os motivos pelos quais o mundo da investigação me desiludiu, mesmo antes de começar. Adianta explicar que a dada altura comecei a olhar para este fabuloso mundo como uma possibilidade, e muito empolgante. Soma-se o facto de, desde sempre, me ter seduzido mais uma casa em ruínas que necessita ser recuperada do que uma moradia novinha em folha. Muito mais trabalho, mas com resultados mais saborosos.
Ora, sendo eu um Ribatejano, nascido e criado no coração da região, conhecia bem a realidade do sector ali. Estava (e ainda está, embora reconheça a evolução dos últimos 10 anos) a precisar de muito trabalho de reconversão, remodelação, reorganização, "rementalização", ..., acima de tudo, alguma reorientação!
Logo, havia muito trabalho a fazer e eu, desde sempre que me senti seduzido pelo cheiro da terra. Assisti a muitas vindimas, brinquei à volta de muitos reboques de uva (curiosamente, mais branca que tinta), passei horas, dias, enfiado em adegas, levado pela mão do meu avô (que ia lá para beber e conversar). Pensei... PORQUE NÃO?

E assim foi. Tinha pouco tempo para decidir. Estavamos nas férias entre o 4º  e o 5º ano do curso (Engenharia Biotecnológica). Teria de, muito em breve escolher estágio e queria fazer algo que fosse útil para o futuro. Com a ajuda de dois amigos, visitei algumas adegas e, das possíveis, escolhi a Alorna para experimentar. Foi lá que fiz o meu primeiro e único estágio de vindima. 
Deu inicio, precisamente no dia 26 de Julho.

Não vale a pena afirmar que foi uma experiência do outro mundo (um dia destes conto porquê) e que por isso decidi que ela mesmo isto que queria fazer, pois não?

Quando finalmente tive de escolher o estágio curricular, já sabia o que queria, queria uma experiência com a industria da cerveja, pela sua abordagem de topo. Achei que, sendo industrias com a mesma base, poderia ter muito a levar para o vinho, já que a minha mais valia seria (e penso que será sempre) esta de vir de outra área e poder olhar os mesmos problemas, mas de outras perspectivas.

Nisto tudo, a maior ironia foi mesmo o facto de até hoje nunca ter trabalhado no Tejo. A oportunidade (e as posteriores) que me surgiu foi em Bucelas (e Lisboa) e por aqui tenho estado. 
Mas... a procissão ainda vai no adro! 
Um dia destes... volto a "casa".


30 de Julho de 2014

Contrapeso na medida


Querido diário:

Hoje assisti a um episódio, no mínimo insólito, que me leva a pensar que, ou estou cada vez mais estúpido, e por isso não entendo o óbvio, ou então, somos cada vez mais um povo miserável, dirigido por canalhas miseráveis e ladrões.

Foi mais um daqueles dias em que ando a visitar clientes. Desta vez, visitávamos restaurantes “de topo” da região de Lisboa. Num deles, passou-se este filme de loucos:

Enquanto esperávamos que chegasse quem nos ia “ouvir”, entra um outro senhor com uma trolley e uma caixa de madeira. Pensei que ia vender microscópios ou enciclopédias de cozinha. Mas não. Dirigiu-se ao balcão e anunciou que vinha aferir a balança.
Todos, atrás do balcão, fizeram um ar de espanto e um deles perguntou se ele vinha afinar a balança.
Com toda a calma que só um fiscal municipal consegue ter, identificou-se (tinha um crachá como os da policia e tudo) ao serviço da CML e que vinha aferir a balança e não afinar.
Todos ficámos parvos com aquilo, afinal, é um restaurante, que não serve comida para fora e se o fizesse, penso que jamais seria “ao peso”. A balança é, claramente para uso “interno”.
O tipo lá se desmanchou em normas, normativas e demais merdas que esta gente consegue dizer sem rir e no fim, ainda o ouvi dizer que, se não estivesse o.k., seguiria informação para a ASAE. Não sei para fazer o quê, mas, como todos reconhecem a gravidade da situação, o mais certo era fecharem o restaurante e afirmarem que se tratava de um crime de saúde publica!

Confesso que fiquei doido com aquilo e à saída, não deixei de meter a minha farpa, afirmando que aquilo era mesmo importante, não fossem eles enganar-se na medida da farinha ou na quantidade de carne a servir aos clientes.

Fica o aviso. Os corvos da CML andam à solta. 
Comigo (e avisado), se visse entrar uma ave destas num restaurante meu, despachava-o logo dizendo que não tinha balança nenhuma, que ali era tudo a olho e medidas de inox. Quem me obriga a ter uma balança num restaurante?

País que não vai a lado nenhum e continua a rasteirar-se a si próprio… tantas vezes só para ver cair e extorquir a quem se tenta levantar.

28 de Julho de 2014

Vinhos de Altitude



A convite da Câmara Municipal de Gouveia e da Revista de Vinhos, tive a oportunidade de assistir ao Workshop sobre Vinhos de Altitude, realizado no passado dia 18 de Julho em Vila Nova de Tazem.

O programa:
  • João Paulo Gouveia - Viticultura de altitude na região do Dão
  • Rui Madeira - O planalto da Beira Interior
  • Rui Reguinga – Serra de Portalegre, um Alentejo diferente
  • Celso Pereira – O planalto de Alijó
  • Álvaro Castro – As encostas da Estrela
  • Dirk Niepoort – Frescura dos Altos: Douro, Dão e mais além
  • Debate mediado por Luís Ramos Lopes
Muito bem, feitas as apresentações, que tenho eu para vos contar?


Começo com a apresentação do João Paulo Gouveia (JPG). Foi, naturalmente (e perdoem-me a franqueza), a que achei mais útil (do ponto de vista de quem está no lado da produção). Percebe-se que o JPG é um formador, pois soube escolher os assuntos relevantes e apresentar argumentos que suportam as suas afirmações. Não terá sido à toa que foi o interveniente mais solicitado a dar respostas no momento do debate aberto.
Do seu discurso, gostaria de salientar dois pontos. (1) Vinho de Altitude é um conceito diferente de Vinho de Montanha. (2) Portugal, não pode falar verdadeiramente de vinhos de Altitude, pelo facto de, no contexto universal, as nossas cotas serem francamente baixas face a outros locais onde se plantam vinhedos. Contudo, podemos considerar como de altitude, vinhos que, pelo facto de se encontrarem em cotas relativas mais altas que o "normal", apresentem variações notórias e imputáveis a essa condição.


Não quero particularizar nenhuma das restantes intervenções. Todas elas foram bastante interessantes, apaixonadas e pedagógicas. Os intervenientes souberam escolher os vinhos (descritos neste post do Enófilo Militante) que melhor expressavam as suas ideias do local de onde provinham. 

Talvez dada a minha veia experimentalista, senti falta apenas de um ligeiro, mas importante, pormenor.
Uma vez que todos os oradores apresentaram vinhos feitos a partir de uvas trabalhadas em locais com alguma altitude, mas bem delimitados, seria muito interessante a comparação com vinhos similares, feitos em cotas imediatamente abaixo. Sei que isto seria uma tarefa hercúlea ou mesmo impossível (é?), mas penso, que, a componente pedagógica teria saído muito mais favorecida.
Fica a ideia e o desafio para workshops futuros. Não vejo nenhum motivo para que a experiência não se repita, com este ou com novas temáticas. Em Gouveia ou noutro local qualquer.

Da visita a este núcleo do Dão, fica ainda na memória o jantar com que fomos recebidos, com o staff político e alguns dos produtores da "área". Muita conversa, um abraço de parabéns ao amigo Paulo Nunes e uma quantidade de vinhos provados.


Confesso que gosto cada vez mais desta região. Do espírito, das dificuldades naturais, da riqueza de variáveis,..., enfim, de tudo o que traga dificuldade e com isso, propostas de unicidade. 

Cresce em mim a vontade de fazer vinho aqui!

23 de Julho de 2014

Porquê TWA?

Foto usada a partir daqui.


Não sou muito prendado na arte de criar nomes. Este blog é uma das provas disso mesmo. The Wizard Apprentice (TWA para os amigos) é difícil de escrever e dizer. È grande, como não devem ser as marcas, e origina um acrónimo partilhado por uma companhia de aviação e pela publicação do mais influente critico do mundo (em todas as áreas) que só por acaso também actua no vinho. Podia ser pior?
Penso que não!

Contudo, há uma razão de ser.
Nos meus primeiros anos de profissão, trabalhei com um consultor de renome (Nuno Cancela de Abreu) e fui o 2º enólogo da casa. Naquela altura, tal como agora, era frequente receber visitas de "estrangeiros".
Sempre gostei das coisas no sítio, mas nunca gostei de termos como enólogo residente, 2º enólogo... "o outro", e por isso, quando me perguntavam se eu era o enólogo, eu respondia que não! Era o "the wizard apprentice"!

Acho a expressão feliz porque resume muito de mim, da minha forma de estar e dos meus gostos. Senão reparem:

1º: Sou, desde sempre fã de literatura fantástica, com predominância para aqueles que tentam criar ou recriar a inexistente mitologia das ilhas britânicas (Lendas Arturianas, Tolkien,...).

2º Tenho um fascínio pela "alquimia" das coisas, o seu funcionamento... o seu fundo. A forma como interagem os elementos para chegar ao resultado (há até colegas que me classificam como químico na abordagem ao conhecimento enológico. Eu penso que sou mais bioquímico!).

3º Entendo que a aquisição do conhecimento é contínua e infinita, fazendo de nós eternos aprendizes.

4º Era de facto um aprendiz de enólogo, pois não tinha uma única hora de formação dedicada ao vinho especificamente.

Por tudo isto, na hora de criar um blog que funcionasse como diário de bordo, caderno de campo e "pensatório", não me ocorreu que se chamasse outra coisa senão TWA.

O que acham?

21 de Julho de 2014

O Vinho, o Crespo, a Sónia e eu.

Acedi a um convite do meu bom amigo Crespo. A tarefa não era complicada. Ir à Rádio Pernes para falar de vinho, com vinho, no programa, A "Sónia Convida". 
Amendoins!

Tenho a afirmar que foi uma experiência fantástica e que só não a repito se não me deixarem! Agora fiquei viciado e quero mais!

Um muito obrigado à Sónia Lobato, mentora da ideia e claro, ao Crespo por se ter lembrado de me incluir! Parece pouco, mas, é preciso  uma enorme generosidade para dividir um espaço, que à partida pode ser usado de forma auto promocional (não digo que o seja, apenas pode!) com alguém que, em igualdade de circunstâncias, pode competir pelas mesmas oportunidades. Só as pessoas grandes são capazes de dividir assim! 
Ès grande [Crespo] pá!

Espero que gostem e que lá no fundo, esta nossa conversa possa ter alguma utilidade!
Seja como for, não deixem de comentar!


(clicar sobre a imagem para ouvir)



20 de Julho de 2014

Revisitando posts - Enólogos Consultores


Talvez pouca gente saiba, ou se recorde que, quando comecei a escrever aqui, fi-lo de forma anónima. Já não me lembro bem porque assim foi. Talvez um fundo daquele medo disforme que, constantemente, nos cala a todos!
Assinava  como Wizarap, resultante da abreviatura do nome do blog, pois a minha imaginação não dava, não dá, para muito mais que isso, no que à criação de nomes diz respeito!

Assim foi até escrever um post que intitulei Enólogos Consultores. Achei que seria uma cobardia não o assinar e que, a sua leitura perderia força e sentido reflexivo. Desta forma, não só passei a assinar todos os posts como ainda cometi a heresia de mandar o texto para a Revista de Vinhos (RV) que, para meu espanto, o quis publicar na secção "Correio do Leitor" (pp 20 e 21 da edição nº232 de Março de 2009). Ganhei, inclusivamente uma garrafa que fiz questão de partilhar com outros enólogos.

Porque escrevi eu aquilo?
Naquela altura, o João Paulo Martins tinha um espaço de opinião na RV e numa das crónicas falou sobre, precisamente, os enólogos consultores.
Fiquei um pouco revoltado com o sentido que ele deu ao texto e achei que deveria colocar o dedo na ferida. Foi o que fiz!

Os resultados foram muito giros para alguém que tinha começado há pouco tempo a trabalhar na área (2 anos) e era, completa e absolutamente anónimo e inócuo (ainda sou, com a graça de Deus).
De salientar que o impacto se deu com a publicação da "carta" na revista. Recebi telefonemas, mais de apoio do que de oposição (inclusivamente do consultor da casa onde trabalhava!). Era apresentado como "o gajo que escreveu a carta da RV" nos simpósios que as marcas de produtos enológicos fazem para enólogos. Senti que muito enólogo se viu representado no protesto, mas, para além de umas palmadinhas nas costas, não surgiu mais nada. Não surgiu resposta dos visados, não surgiu apoio dos "revoltosos". Nada, apenas o silêncio normal e cobarde que reina neste sector. Ninguém quer perder posições, ninguém quer arriscar dar um passo atrás. Confesso que tive ilusões. 

Confesso que me desiludi!

Ainda não estou certo se foi um acto de coragem ou da mais profunda imprudência. Tenho duvidas se foi benéfico ou prejudicial para a minha carreira profissional. Que a afectou, tenho certeza!

O post em si, dividi-o em duas partes. Uma caracterização que, quando analisada aos dias de hoje, acho que pecou por ligeira e branda. O post era dirigido à super classe de enólogos consultores, aqueles que assumem muito mais do que podem cumprir, acabei por dar um sentido demasiado generalista que colocou toda a gente no mesmo saco. Hoje apontaria sem dúvida mais pecados e, de forma mais violenta. Mas talvez separasse ainda mais as águas. Na segunda parte do post, tentei fazer um pouco de futurologia. Penso que ainda é cedo para afirmar que errei, mas o caminho não nos está a levar no sentido das minhas previsões.
Pretendo, num próximo post, rever esta parte!

Em suma, foi, talvez, o post mais importante que escrevi, principalmente pelo confronto interior que provocou. Pelos dilemas, pelo risco, pela exposição, pela gestão do medo a que obrigou, pela vitória dos valores face à prudência. Pela forma como permitiu ter chegado até aqui!




30 de Junho de 2014

Inspira Portugal - Vinhos Brancos Crescidos - (Agradecimentos)


Antes de entrar em conclusões mais profundas sobre os vinhos provados nas master class (falarei apenas desses e noutro post). Não posso deixar de, nesta fase fazer o devido agradecimento a todos os que se envolveram nesta aventura. 

Começo por todos os enófilos que aderiram - devo dizer com muito orgulho- desde a primeira hora. De inicio temi que provar vinhos crescidos fosse um risco que muitos não estaria dispostos a correr. A verdade é que as 25 vagas ficaram preenchidas em menos de 9 horas. Prova que existe, ou começa a existir curiosidade (isto para manter as expectativas baixas) por vinhos que não se esgotem nos 12 meses imediatamente após a colheita. Só por isso já valeu a pena.

Tenho ainda um dívida de gratidão para com o Prof. Virgílio Loureiro que prontamente acedeu a comandar a prova. Foi sem dúvida decisivo para que tudo corresse com o sucesso que obtivemos. A sua cultura vínica, a sua eloquência e o seu discurso apaixonada cativaram, sem dúvida, uma boa mão de indecisos que até aqui desconfiariam destes vinhos.

Aos produtores, enólogos e amigos que acederam "assaltar" o espólio das suas adegas de forma a que pudéssemos ter material sobre o qual trabalhar, o meu muito obrigado (serão alvo de um post à parte).

Agradeço ainda à Quinta das Carrafouchas, na  sua alma vínica, António Maria que, não só cedeu e preparou os dois espaços que utilizámos como ainda coordenou toda a logística inerente ao bom desenrolar do evento. O carisma crescente que vêm granjeando junto dos enófilos que vos rodeiam, só se justifica, nesse vossa profunda paixão por receber todos como se amigos da casa se tratassem, bastando a quem entra, referir que ama o vinho. São, deveras inspiradores.

Não menos importante, o apoio de quem nos forneceu o repasto. Solar dos Pintor, na pessoa do Sr Luís e às mãos mágicas da Dona Áurea.

Um especial obrigado ao meu amigo Joaquim Delgado, eterno voluntário para ajudar nos eventos, mesmo não fazendo ideia do que é e como se serve vinho, mesmo sabendo que os seus temas de discussão não passam pelos pormenores idiossincráticos do vinho. Mesmo sabendo que as suas bebidas de eleição são o Gim e a Cerveja, está lá e supera o que lhe é pedido. 
Obrigado pá!

23 de Junho de 2014

Vale da Capucha 2010


Mais um produtor se aliou à master class de dia 28. Dando a palavra ao produtor, pode ler-se:


"Vale da Capucha é uma pequena vinha reconvertida pela minha família nos finais da década passada. Nascidos na lógica da enorme produtividade destinada ao mercado do vinho “a barril” da grande Lisboa, decidimos outro caminho e renascer para a viticultura. Em vez do tinto, virámo-nos para o branco, o que confundiu um poucos os nossos pares da denominação de origem, habituadíssimos a trabalhar tintos. Nos nossos 13 ha plantámos as castas brancas portuguesas que melhor pudessem exprimir o local (9 km do mar, argilo-calcario fossilizado) e iniciamos a produção dos vinhos, sob os princípios da viticultura biológica, para garantir a máxima expressão da vinha e a sustentabilidade do solo e sua biodiversidade.

O vinho que vos proponho é um dos poucos Alvarinhos fora da tradicional zona granítica, de Monção/Melgaço/Rías Baixas, da colheita de 2010, a nossa segunda, vinificado sem mostos rapados, sem leveduras adicionadas, a 18º, sem “fermaid”, sem nada (a não ser o “ainda” necessário anidrido sulfuroso…). Repousou em borra fina e foi engarrafado mais tarde, na primavera de 2012, já relativamente estável e límpido. Não sei se é às cegas a nossa master-class, portanto reservo-me nas notas de prova!

Até sábado.

Pedro Marques"

Relembro que as vagas para a master class se encontram esgotadas, ainda existem algumas para o programa a partir do almoço... mas poucas!