15 de junho de 2016

O sim ou sopas para "a minha" Bucelas


Mandar bocas é fácil. Afirmar uma crença, um caminho e uma direcção também não é impossível para quem observa e passa algum tempo a pensar nas coisas.

Pior é demonstra-lo.

Levámos 10 anos a coligir “dados”, a esperar pelo momento de por em prova a crença que temos sobre o que é de facto Bucelas e qual a melhor forma de a apreciar. Amanhã fechamos um ciclo (explico melhor no fim do dia) e iniciamos um roteiro em que estas  convicções vão ser postas à prova por bocas e cabeças de diferentes quadrantes.

10 anos de vinhos, 10 anos de estudo, 10 anos a remar contra a corrente, 10 anos de crenças que se confirmarão ou destruirão.

Se estou confiante? Sem dúvida!
Se estou nervoso?
Borradinho!


Desejem-nos sorte.


23 de maio de 2016

Bucelas no BPI Wine & Food - Lisboa 2016


Mastertasting – “Bucelas, toda uma nova região a conhecer”


Quando se "faz" e promove vinho ao tempo que o faço, perdemos a conta às oportunidades que temos para apresentações públicas. Independentemente da dimensão da plateia, o “esquema” é mais ou menos o mesmo: “apresentas novidades”, “apresentas o portefólio”, “apresentas uma harmonização em que o teu vinho fique a matar”… estão a ver a cena? 


Agora, a novidade veio há coisa de umas semanas quando o Fernando Melo me convidou para dividir com ele uma mastertasting dedicada a Bucelas. A intenção não foi só mostrar o que andamos a fazer, mas… evangelizar para a região! Sério? Entrámos nos "meus terrenos". Boa!

Confesso que o primeiro acto foi mesmo um torcer de nariz ao titulo. Nova região? ...Nova?
Mas é óbvio que o titulo tem uma grande carga de ironia e desafio. Cabe-nos contrariar, desmontar, remontar e tentar sacar novos embaixadores. 

"Muito bem oh Fernando, mete lá ai o meu nome"!

Escolhidos os vinhos, montou-se a coisa de forma a mostrar duas grandes virtudes: 1ª, a plasticidade do Arinto em Bucelas. 2ª, com recurso a uma mini vertical, mostra-se com clareza que em novo é um bom vinho, mas que a região precisa de tempo para aparecer. Vamos lá escandalizar as gentes afirmando que o Colheita da Quinta da Murta está na transição entre as colheitas de 2012 e 2013? Mas é mesmo assim? Não me enganei? Não! È mesmo assim!


O evento em questão, BPI Wine & Food - Lisboa 2016, na sua primeira edição, parece-me ter pernas para caminhar para novas edições. Ambiente cool, um espaço amplo para a malta fazer o que mais gosta neste tipo de certames. Comer, beber e conversar. Se juntamos o brilhantismo da organização das mastertastings e dos showcooking temos reunidos todos os elementos para um sucesso garantido.


A “aula” em si, consistiu na prova e conversa à volta de um espumante de 2012, três vinhos “colheita” que intentam expressar apenas a trilogia região-casta-ano de colheita sob a matriz do produtor (posso explicar isto com detalhe a quem mostrar curiosidade) e dois vinhos realizados com recurso às madeiras.


Não sou quem pode afirmar se resultou ou não, se estive à altura de representar a região, mas posso garantir que gostei muito de o ter feito. Senti o peso da responsabilidade, lembrei-me dos monstros que o fizeram antes de mim, tremi… tremi mesmo e ainda senti alguma náusea antes que o sorriso do Fernando me impelisse ao desbloqueio.



1 de abril de 2016

Tejo e Lisboa, duas promessas (ainda) por cumprir.


Não é segredo para ninguém que tenho um carinho especial pela região do Tejo e que desejo ai fazer "pinga" (embora ainda deixe muita gente de boca aberta por isso). Também não espanta que trabalhando há tanto tempo na Lisboa do vinho, a tenha, igualmente no coração.
Estas duas regiões partilham há muito um fado semelhante. Sendo terras produtivas, sempre se cultivou aqui o negocio da quantidade, mas recentemente também o das modas… das cópias, do muito a bom preço!

Há uns tempos, ambas começaram a dar ao país vinhos com maior destaque. Vinhos que sobressaem dos outros ali produzidos. Um olhar mais atento leva-me no entanto a concluir que parte deles é feito com recurso a castas internacionais, mais umas dioptrias e percebo que são castas internacionais trabalhadas ao jeito “POP”, ou seja… modas.
Falando com os meus colegas apercebo-me que está a haver um abandono progressivo das castas portuguesas. Por exemplo, tenho uma dificuldade incrível em encontrar um 100% Fernão Pires no Tejo.
Estas duas regiões, nunca perderam muito tempo a desenvolver uma identidade própria como outras regiões fizeram/fazem. Se isto faz parte do DNA produtor local? Não sei!
Um dos factos recorrentemente mencionado é o carácter menos intenso dos vinhos feitos com as castas tradicionais em detrimento daqueloutros feitos com as rainhas das castas internacionais. Deixei-me embalar por isso, confesso, até ganhar a percepção de que, sempre que uma casta da moda é introduzida, sempre que se procura com ela fazer “o grande vinho”, procura-se a melhor terra para a colocar e trabalha-se com produções equilibradas. Ficando o volume alimentado pelas outras, as menos nobres, as que já não merecem atenção, trabalho ou investimento. Muito menos esforço. Passaram a ser verbo de encher de entrada de gama, uma base onde assentará a maquilhagem. Parece-me injusto que não se criem oportunidades de as trabalhar à luz dos conhecimentos actuais.

Volta e meia sou brindado com alguns vinhos antigos que contraria todas as crenças entretendo difundidas por esse rebanho de gente que não sabe esperar, que tem do vinho apenas a visão industrial (que não está errada, mas é apenas uma das possíveis) e cujos egos não podem deixar de ser massajados constantemente. Não haja duvida que uma mão de castas estrangeiras sobremaduras, barradas com madeira nova a potes ainda arranca algumas distinções e palmadinhas nas costas. Pergunto-me se não valeria a pena o esforço de compreender e testar as castas nacionais. Não numa perspectiva de as conduzir pela cerca apertada da normalização mas deixando que se expressem, cabendo apenas ao enólogo o papel de interprete e auxiliar da sua natural propensão.

Que fique claro (e infelizmente é sempre necessário esclarecer este ponto) que não defendo mudanças radicais e absolutas, mas entre o tudo e o nada há tanto que pode ser trabalhado. Uns ensaios de campo hoje, uma microvinificação amanhã, um lote engarrafado no dia seguinte. Educação de críticos e consumidores noutro dia.
Tenho de ser justo e referir que ainda assim, é na Lisboa que encontro mais casos de tentativa de ruptura, de procura, de estudo, de teste, de desafio, mas são poucos. Não chegam ainda sequer para acreditar num movimento de mudança.

Gosto de pensar que a geração actual é uma fiel depositária da herança deixada pela anterior, com o ónus de adicionar valor e preparar o caminho para a que se segue. Julgo que não se tem feito muito neste sentido, apesar de andarem ambas em êxtase pela quantidade de medalhinhas sacadas nos infinitos concursozinhos espalhados pelo mundo. Só tem servido para legitimar mediocridade!

Basta olhar para o longo prazo para imediatamente se perceberem que já “ali à frente” isto vai tudo para o cano. As modas mudam muito e rapidamente. Se optarmos por, aos poucos e em paralelo criar uma identidade com recurso ao que é local, talvez os nossos netos possam viver de vender identidade, em quantidade que sustente as suas casas. 
Sonho com um futuro em que produtores e enólogos tenham orgulho no que é seu e exclusivo do seu chão. Em que tenham finalmente aprendido a fazer vinhos com as suas castas e que encharquem o mercado com vinhos cheios de carácter e alma. Até porque, acredito, que a sobrevivência do sector em Portugal passará por este tipo de vinhos num futuro não muito longínquo.

4 de fevereiro de 2016

José Rodrigues dos Santos e o conceito de MELHOR!

Ontem li por aí que José Rodrigues dos Santos (JRS) teria sido eleito o melhor escritor Português (da actualidade presumo). A fonte é muito vaga sobre quem são os 28 000 avalistas e o que lhes foi perguntado, mas vou acreditar que é uma amostra aleatória, representativa e bem inquirida da sociedade Portuguesa. 

Não li nunca JRS, não faz parte dos meus planos lê-lo, mas não rejeito a hipótese. Pelo que já vi nalgumas contracapas... este não é o momento. Julgo tratar-se de um autor que se enquadra na literatura de transição, algo entre a Literatura propriamente dita e a literatura light, a da outra senhora que manda toda a gente para o dito cesto do castigo no mais alto maltro do navio. Pode um autor de transição ser o melhor? (é para pensar!)

O que me aborrece é mesmo esta mania que temos de procurar o "melhor de...", muitas vezes fazendo confundir a pergunta com "o meu preferido" como se uma e outra tivessem leituras iguais. Não têm. A qualidade e o gosto não são uma e a mesma coisa!
Fica a sensação de que há sempre necessidade de alguém escolher pelos outros. Que eu, que tu não somos capazes de definir os nosso próprios critérios de gosto e consumir em conformidade com isso! Não dá jeito que isso aconteça, é um facto. Mas bolas...

No vinho é por aqui também. Elegem-se os melhores de tudo e de todo o lado. Alardeiam-se vinhos com a melhor relação qualidade/preço (isso é efectivamente o quê?) e é vê-los correr aos supermercados, às promoções convencidos que estão a levar para casa o melhor dos melhores, os únicos, os absolutos, mas ao preço dos maus. Que espertos que somos por conseguir ver o que mais nenhum ser vê. È o auge da manipulação (ou da estupidificação?).

Perguntem a esses 28 000 qual é o melhor prato e talvez vos saia um hambúrguer com o McDonald a ganhar para o melhor restaurante Português.
Mau, mau será mesmo que uma boa fracção da população passará a acreditar nisso!

Para quem não entendeu ainda, não tenho nada em desfavor do autor ou a sua obra mas sim contra esta mania de  se confundir gosto com qualidade numa primeira fase e depois impor essa "qualidade" aos outros como absoluta e indiscutível. 
Só isso!






1 de fevereiro de 2016

Myrtus Reserva - Uma abordagem emocional

Alguém que não recordo diz que somos animais emocionais e não racionais como temos alvitrado até aqui. Sou levado a concordar. A argumentação deste principio, aplicado à apreciação de vinho, daria um livro e mesmo assim não convenceria metade dos que hoje disso duvidam. Por agora não tenho tempo para tão baixas taxas de conversão. Adio essa demanda para a minha reforma.

Deixo contudo um presente a todos os que como eu, acreditam que é possível escreverem-se coisas interessantes à volta da degustação de um vinho, que este pode ser um mote para viagens e deambulações de espírito. Um brinde a todos os que entendem que nem tudo tem de ser notas de prova e relativas avaliações absolutas.

O texto que se segue é da autoria do meu mui amigo Vieira Jardim e reza assim:




Myrtus
  

Uma das coisas de que me lembro bem do meu falecido pai é de o ver beber copos de vinho branco de penálti. E o mais curioso é que o meu pai fazia vinho, pois era ele o feitor da casa agrícola de um conhecido e notabilíssimo médico e lavrador de Almeirim, uma espécie de Madre Teresa de Calcutá local, agraciado e recordado com saudade naquela cidade pela sua indiscutível sensibilidade e descomprometida solidariedade para com os mais pobres, não lhes cobrando as consultas e dando-lhes, ainda, esmolas generosas. Pena que a sua sensibilidade, altruísmo e solidariedade não se tenham manifestado para com o seu mais leal funcionário e braço direito quando abandonou o negócio do vinho e vendeu todas as suas propriedades, deixando o meu pai sem trabalho, sem perspectivas e mergulhado de cabeça no período mais negro e incerto da sua vida. Para Madres Teresa de Calcutá destas, eu faço um toma! à Rafael Bordalo Pinheiro.
Ora, sendo o meu pai alguém que fazia vinho, seguindo, claro, as prescrições que lhe haviam sido dadas por quem de direito, era suposto que fosse um apreciador, que o degustasse com o devido cuidado, sabedoria e requinte, mas não, o meu pai era, essencialmente, um sorvedor de álcool, para não dizer outra coisa. Em novo, até que foi um sorvedor de álcool com pinta, de calças justas, botins de cabedal, a boina de lado, tapando um sobrolho, e uma fúria estampada no olhar que sempre me fascinou. Todavia, com a idade, a mão que segurava o copo começou a tremer, sem, com isso, entornar uma única gota, e, mais tarde, os diabetes proibiram-no de continuar a beber vinho branco e a optar, moderadamente, pelo tinto. Homem violento e garboso na flor da idade, morreu caquéctico e só, numa cama de um lar de idosos, e de nada lhe valeu a fúria no olhar. No entanto, lembro-me sempre do momento em que ele terminava um copo de penálti e dava um estalo com a língua, fazendo «aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhh!!!» com a boca muito aberta e dizendo, no final:
– Até sabe a rebuçados!
Eu retribuía-lhe o sorriso, divertido e embevecido com aquele ídolo da minha infância, que, logo a seguir e se fosse preciso, era capaz de se levantar dali para ir dar uma tareia na minha mãe, mas isso são outras histórias, ou estórias. Para agora, vem a do vinho e das diferenças de substância entre o meu pai e eu, entre o vinho que ele bebia e o que eu bebo. Muito sinceramente, não acredito que alguma vez, nos seus intensos oitenta e quatros de vida, o meu pai tivesse bebido um vinho tão bom como este Myrtus branco, reserva de 2008, um Arinto da Quinta da Murta, Bucelas, e, mesmo que isso tivesse acontecido, tê-lo-ia feito de penálti e não o teria cheirado, respirado e apreciado com o requinte e o cerimonial que se lhe exigem, não teria tido a noção. O meu pai viveu o seu mundo e a sua própria história de vida e o Arinto e todos os Arintos deste mundo, seus primos e parentes afastados, foram o lado para o qual ele dormiu melhor. Mas eu não sou o meu pai e gosto do vinho pelo seu todo, pela experiência que me proporciona, pelo aprendizado, pelo prazer e exaltação dos sentidos, pelas pinceladas impressionistas deixadas na tela da minha imaginação e da minha memória.
 Estamos, portanto, a falar de uma casta, o Arinto, com predominância e origem comprovada na região de Bucelas, concelho de Loures (com Lisboa ali tão perto), cujo microclima lhe é particularmente favorável, não deixando, no entanto, de vingar noutras regiões do país, até no rigoroso norte, onde é, curiosamente, denominada de Pedernã. Sendo uma casta com uma acidez tão peculiar, consegue produzir vinhos com grande capacidade de evolução e que, mais tarde, após estágio em barricas de carvalho, se aguentam muito bem em garrafa. É o caso deste “Myrtus”, nome deliciosamente inspirado na denominação científica da planta que dá nome à casa que o produz, a Quinta da Murta, e onde o meu grande amigo Hugo Mendes foi membro honorário da equipa que o idealizou e produziu. E digo que foi membro honorário porque só o estou a ver a ele a ter o pioneirismo, a rebeldia e o atrevimento em insistir e assumir a responsabilidade de produzir um vinho com estas características, tão atípicas e avessas ao habitual carneirismo do mercado. Há um bocado aquela premissa de que o vinho branco não possui a estrutura nem a nobreza que lhe permitam um bom envelhecimento, mas isso é falso e ditado pelas necessidades e leis de mercado, onde, normalmente, é tudo para ontem e em que a rentabilização do investimento não permite reservá-lo para amanhã. Ora, o Myrtus é a prova cabal do contrário, para além de se perfilar, ele próprio, como mais um potencial e privilegiado nicho do mesmo, um vinho branco telúrico e mui nobre, com a densidade certa, nem leve nem pesado, que estagiou durante três meses com “Batonage” em barricas novas de carvalho francês, um vinho que, ao contrário do que é usual pensar em relação aos brancos, ganhará bastante se decantado numa degustação tribal ou, a solo, tal como eu fiz, reservando-o no frigorífico durante os dias que forem necessários, em qualquer um deles sempre melhor que no anterior, e acompanhando os mais diversos pratos. No copo, apresenta aquela belíssima cor amarelo-esverdeado, típica da casta, e no aroma e na boca, vêm, de imediato, a madeira e as incontornáveis e previsíveis notas cítricas, mas, depois, sobressaem, gradualmente, o caramelo e a fruta desidratada (tâmaras, sultanas, figos) e é um festim de sensações e emoções até cair, com elegância, dentro de um sempre expectante estômago, pobre coitado, sempre o último a saber.
Tenho a sorte de ter amigos assim e foi assim que, pelo Natal, me chegou esta garrafa às mãos. Tem harmonizado com os pratos mais diversos, desde carne, peixe a saladas. Começou com um vulgar esparguete à Carbonara, o qual, assim de repente, até pode parecer coisa de pouca monta e deslustrosa para com tão nobre vinho, mas há esparguete à Carbonara e esparguete à Carbonara, e o meu esparguete à Carbonara não é um esparguete à Carbonara qualquer, para além, claro, de ser, muito provavelmente, o prato favorito da minha filha (caramba, tem catorze anos, esperavam o quê, trufa e caviar?). No dia seguinte, acompanhou uma alegre e colorida salada quente de massas (búzios) e legumes (brócolos, cenoura e curgete) salteados em azeite, louro e alho, e foi a combinação perfeita. Seguiu-se uma fabulosa jardineira de rojões de porco e chouriço, o mais conseguido e saboroso dos pratos que tiveram a sua companhia (era ver os meus filhos a repetir e a mergulhar o pão naquele molho pecaminoso), mas, aqui, talvez se impusesse um tinto e a harmonia, apesar de existente, acabou por não ser a melhor. Anteontem, foi a despedida perfeita com um delicioso arroz de feijão e uns simples rissóis de camarão (para mim), e uns douradinhos de pescada (para os petizes). Foi, sem sombra de dúvida, a melhor harmonização a seguir à salada quente, o que vem provar que este é um vinho mineral, amante das coisas do mar, é um facto, mas com raízes profundas na terra. No entanto, a perfeição aconteceu, inesperadamente, num dia em que eu fazia uma sopa para o jantar e o tive por amena companhia e quase cavaqueira, juntamente com umas nozes e o último álbum de David Bowie, “Blackstar”. Não sei se foi da simplicidade e quietude do momento, se da combinação elegante do vinho com as nozes, se da música de Bowie, se de tudo um pouco e nada em particular, a verdade é que este foi o momento em que o Myrtus se aguentou muito bem sozinho e elevou à condição de coisa olímpica e inacessível ao comum dos mortais. Fez-me sentir especial. Único. Abençoado. E para terminar este rol de elogios, sugiro que se deixe um pouco deste vinho no fundo do copo para a sobremesa e sugiro uma simples e saborosa laranja para essa mesma sobremesa e sugiro saborear esse último resquício de vinho com a boca ainda impregnada da suculência da laranja e sentirão, nesse momento, algo muito, muito, muito próximo de um orgasmo e sugiro que o façam em casa, claro, a não ser que tragam sempre convosco uma muda de roupa interior.
Mas, regressando ao meu pai, que foi quem iniciou esta já longa e soporífica conversa, anteontem, no fim de beber o último gole deste precioso néctar, dei um estalo com a língua, fazendo um «aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh!!!...» com a boca muito aberta e dizendo, no final:
– Até sabe a rebuçados!
O meu filho riu-se, olhando-me, divertido e embevecido, impregnado desse amor juvenil e incondicional que só os seus olhos amendoados sabem transmitir. Pergunto-me se alguma vez o meu pai o terá notado em mim.
À nossa!


Cortiçóis, 20 de Janeiro de 2016


15 de janeiro de 2016

Janeiro a meio



Diz quem não sabe que nestes dias há pouco o que fazer na adegas. Diz quem não sabe porque quem sabe diz que existe sempre trabalho.
Até numa produção maioritariamente de vinhos tintos se pode utilizar esta altura para enchimentos, inventários, actualizações burocráticas, revisão de planos, rescaldo de vindima, acompanhamento das equipas de vendas (muito importante para tomar pulso ao mercado). 

Vivo com três realidades diferentes, três formas distintas de estar no mercado e isso estimula-me de uma forma que honestamente nunca pensei possível.

Nas Carrafouchas o tempo é realmente de sossega. Os vinhos descansam e crescem, tanto o tinto como o branco espera que os frios lhes tragam equilíbrio, que lhe quebrem o nervo e o excesso de jovialidade. O Tinto é feito numa espécie de  "field blend" pelo que não há grande dispersão de decisões a tomar por agora. Nestes dias, de mim, pede-se acompanhamento e vigilância. Só!

Já em Vale das Areias o tempo é de enchimentos. A adega está em plena actividade. Os brancos e rosés desta casa são vinhos que se pretendem frescos e prontos para acompanhar o primavera e o verão que ai vêm. Estou muito expectante face a estes vinhos. Depois de uma vindima difícil (a minha primeira aqui), muito cirúrgica e a necessitar que as decisões fossem tomadas quase ao dia, saíram vinhos muito vibrantes e frescos.

Os Quinta da Murta dormem o seu sono de beleza. O tinto foi loteado após as fermentações maloláticas e repousa agora nas barricas. Os brancos estão em duas fazes. Nas cubas, descansa-se com batonagem, nas barricas arrisca-se um final de fermentação, lento, mas constante. Não se assustem. Foi uva vindimada um pouco mais tarde e como não se inoculam leveduras por aqui, às vezes temos fermentações a entrar pelo novo ano (a colheita de 2012 esteve a fermentar até Maio). Obriga a um controlo mais apertado e a estar preparado para intervir ao menor sinal de problema.
Para além disso, é hora de mandar os espumantes para as garrafas. Aproveitar o frio natural de Janeiro para que a fermentação ocorra lenta e eficazmente de forma a dar-nos a delicadeza e primor de bolha que perseguimos.

E pronto, por estes dias, tirando isto, umas análises e um ror de papeis que precisam ser vistos, revistos e actualizados, não há nada para fazer na adega.




13 de janeiro de 2016

Qual é o problema do calor?


Anda tudo contente e admirado com as temperaturas que fazem por estes dias. Um Natal em mangas de camisa, uma passagem do ano em tronco nu (exagero? Ok!).

Ora bem, eu gosto! Dá para passear com a família, sem grandes preocupações com a roupa dos putos. Para correr é do melhor, também não gosto de minimizar o peso. Para o interior da adega - que é onde está o trabalho por estes dias - é um pouco menos mau também. 
Então onde está o problema? Porque raio não posso estar 100% feliz como toda a gente? Porque motivo tenho sempre de arranjar um mas...? 
Não me suporto! 
Ninguém me suporta!

O motivo, de tão complexo torna-se simples. 

A vinha precisa de um período de frio, designou-se uma semana a temperaturas médias inferiores ou iguais a 10ºC. Quando isto não acontece, pode não se dar a correcta quebra de dormência do gomo e o abrolhamento fica condenado ou demasiado irregular. Por outras palavras, o numero de gomos (olhos) que rebentam pode ser insuficiente para o sucesso na hora da colheita e quem sabe até no futuro próximo da planta.

Contudo, não quis publicar isto sem uma opinião experiente.  Consultei o Manuel Botelho - um dos nomes maiores do futuro da viticultura em Portugal - e em boa hora o fiz. Diz ele que a videira, ainda assim tem baixas necessidades de frio e que o nosso clima fornece de sobra a quantidade necessária para que o processo se desenrole com naturalidade. Mesmo com o inverno que estamos a ter.

Fico por isso agradecido ao esclarecimento técnico do Manuel. Fico também mais descansado e fica ainda a confirmação da minha insuportabilidade.
Vêm como é bom perguntar a que sabe?

Adeus e passar bem!

19 de dezembro de 2015

10 anos de Bucelas - 10 anos de Quinta da Murta


Se tivesse Facebook nessa altura, hoje esta rede social informar-me-ias que passam 10 anos que trabalho na Quinta da Murta em Bucelas. 10 anos que estas portas se abriram para mim.

Neste tempo tanta coisa mudou e tanta ficou intacta. Mudaram as pessoas que partilharam esse dia comigo. Casei, tive dois filhos, viajei, li....li,.... experimentei, acertei, falhei, tive sucessos, tive insucessos. Aprendi. Perdi pessoas que amava e ganhei outras novas para amar! 
Intacta ficou a paixão pela enologia e a procura do vinho perfeito. Intacta está a vontade de ter um papel na região que me viu nascer e crescer. Intactos continuam os sonhos ainda não concretizados. Intacto permanece a sensação de deslumbramento com todo o que diz respeito a esta maravilhosa forma de estar na vida. 

A grande diferença entre a pessoa que era há 10 anos e a que sou hoje é apenas uma (para além das óbvias). Nessa altura ambicionava ser enólogo, hoje sinto-me um. È mais uma prova, a somar às que a vida já me deu que, querendo muito e fazendo o trabalho certo (mesmo que aos olhos de outros pareça errado) conseguimos. Dedicação e paixão. Só não vencem a morte!

Estou pronto para mais 10 anos...20....30....100 anos de enologia!
"Bora" lá fazer!




1 de novembro de 2015

Mudanças e variâncias



Queridos amigos,

È necessário sair fora da moldura se queremos contemplar o quadro todo.  È um exercício que gosto de fazer. O distanciamento ajuda a perceber melhor qual a minha posição na pintura bem como o meu papel na cena.

Os últimos meses serviram precisamente este intento. Durante a paragem, apercebi-me de muitas coisas que já não me apetecia fazer, pelo menos não da forma como o fazia até aqui. Cedi também, finalmente, à tentação que já há muito me assolava o espírito. Tornar este espaço um pouco mais pessoal. Falar de tudo o que me apeteça, não necessária e exclusivamente vinho. Afinal, um tagarela como eu, decerto tem mais assuntos sobre os quais julga ter opinião. Com a passagem da componente “partilha formativa” para o formato vídeo (TwaTV), cria-se a oportunidade para generalizar um pouco mais os temas que me apeteçam aqui desenvolver.

Fica o aviso e a nota a quem, ao longo destes anos tem feito o favor de seguir o que aqui é publicado. Devo-vos isso!


Um forte abraço e até já.

13 de agosto de 2015

Twatv - #006 - A arte de cuspir vinho!

Essa coisa que a malta tem de aparecer a cuspir vinho. Afinal é um mal necessário ou uma mania parva?



28 de julho de 2015

Twatv - #005 - Serviço de vinhos na restauração!

Um video dedicado a todos os que, como eu, não se importam de pagar 3 ou 4 vezes o preço de um vinho, desde que o serviço exista e acompanhe essa inflação.



23 de julho de 2015

Leveduras indígenas ou leveduras seleccionadas. Quais as melhores?

Todos os produtores e enólogos têm os seus 5 cêntimos para dar para esta apaixonante discussão, que tem todos os elementos para ir bastas vezes até aos limites da racionalidade. Escolhem-se e defendem-se posições como se fosse o nosso clube do coração.
Afinal, quais são as melhores leveduras para o meu vinho, as que vêm da natureza ou as que são criteriosamente seleccionadas para nos proporcionar as melhores características pretendidas?
Segue a resposta. 
Divirtam-se!


14 de julho de 2015

Existem leveduras de terroir?


Muito se apregoa sobre a especificidade do terroir e suas leveduras. Muito se especula à volta de estirpes especiais seleccionadas a partir de um local míticos. Afinal, estamos no domínio dos factos ou da ilusão?
Veja o video e encontre a resposta! 







Sal grosso no Joli





Como falar do escrito de outro gajo sem que isto pareça um post parasita? 
Não consigo,não é? Por isso, cagarei nisso!

O post roubado reúne em si três factos que me são caros e que me obrigam a esta  vil acção. A saber:

1) Já é tempo de me afirmar fã deste Jorge Nunes. O homem escreve sobre experiências eno gastronómicas como poucos o fazem. Pelo menos para o meu gosto pessoal.

2) Relata de forma concisa e assertiva o que é a prova dos 7. Explica o que interessa explicar. O que ela significa para cada um de nós é... de cada um!

3) Last but not least... Joe Best! Joe Best...Joe Best? Foda-se! Não morram sem lá ir, pelo menos uma vez! A sério!

Aqui fica o post directamente desviado do bolg do Jorge. Joli.



___
A foto foi gamada ao Nuno Monteiro, o elemento da prova dos 7 que leva máquina fotográfica e que só por acaso comemorava o seu aniversário naquele dia. Grande festa....

8 de julho de 2015

TwaTv - #002 - Porque é que as uvas são doces?


Já alguma vez se perguntou se existe alguma razão lógica para que as uvas sejam doces? 
Veja a resposta no video:




30 de maio de 2015

#winecult - O Arranque

Querido diário:

Estou há horas a tentar encontrar as palavras certas para em ti escrever. Queria dizer-te o que este projecto representa para mim. Queria explicar-te porque estou tão feliz por finalmente nos termos decidido a engarrafar este nosso primeiro vinho. Queria contar-te o que se passou ontem na adega, que expectativas levava, que conversas tivemos e com que resoluções de lá saímos.

Não consigo ouviste? Não consigo!

Mas depois o Elias Macovela, grande amigo e companheiro das lides pingadas, um dos padrinhos desta aventura, pediu para nos sacar um video. 
E não é que está lá tudo!
Ora vê lá!



25 de maio de 2015

Dia de atestos



Querido diário:

Eu sei! Tenho andado desaparecido. Não mereces isso!
È uma verdade. Que tenhas a bondade de me desculpar.

Hoje atestaram-se barricas na Murta. Especialmente as que contêm o vinho tinto de 2014.
Sabes que há duas grandes correntes no que toca ao acompanhamento de barricas. Grosso modo, uma defende que, com a frequência que se puder, as barricas devem ser atestadas* e corrigidas de sulfuroso, a outra, que se deve tocar o menos possível e fazer o mínimo de “barulho” ao vinho a descansar, mesmo que isso signifique deixa-lo em vazio** por mais tempo.

Os argumentos são imensos, ambas têm uns que me atraem e outros que não. Por exemplo: È certo que com atestos frequentes corremos menos riscos de vinhos estragados por contaminações microbiológicas e preservamos melhor a cor violeta dos primeiros dias. Não deixo contudo de teorizar que, em barricas "experientes", a maior fonte de incorporação de oxigénio é o orifício do batoque (aquele sítio por onde entra e sai o vinho) precisamente de cada vez que se tira o vedante. 

Normalmente, para vinhos que conheça muito bem, num produtor que quer estágio mais longo e com um parque de barricas conhecido, não tenho muitas dúvidas em apostar numa sulfitação mais defensiva antes de mandar o vinho para estágio e depois fazer atestos e correcções com frequências menores (3 a 6 meses de intervalo).
Este é um assunto apaixonante que sozinho teria informação suficiente para escrever um tratado. Fica-te portanto com um Lá Mi Ré dos pontos que me levam a escolher um trabalho ou outro.

Na Murta, aposta-se em estágios mais longos, com períodos de sossego maiores, e hoje foi dia de as “desempoleirar” e atestar. Felizmente não foi preciso corrigir.


Os vinhos tintos de 2014 na região de Lisboa continuam a deixar-me duvidas que o tempo confirmará ou dissipará. O ano foi duro, com muitas chuvas a fazer parar a maturação e a adiantarem as colheitas para fugir à podridão. Acabei por ter sorte nos produtores que acompanho. Um apanhou no pino do tempo quente e o outro, este, elaborou o vinho com uvas muito bem escolhidas e apanhadas à mão.

Mas é ainda muito cedo para cantar vitória. Por hoje, devo ficar feliz pelo facto do vinho estar com bons parâmetros químicos e com uma evolução favorável.
Amanhã logo se verá como ele vai crescer!

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* As barricas vão perdendo parte do líquido por evaporação e/ou principalmente por absorção pela madeira, pelo que, de quando em vez devem ser cheias, ou na gíria... atestadas.
**Quando um recipiente fechado não está atestado de vinho, dizemos que o vinho que lá se encontra está em vazio porque a cuba tem, precisamente uma parte do seu volume vazia de vinho.

19 de abril de 2015

Coisas que me aborrecem - (VI)




Não há produtor que me deixe meter as mãos nas suas uvas sem que antes tenha de esmiuçar  o meu CV, fazer perguntas aos meus amigos, à minha família e às minhas cunhas. Remexer na minha vida para perceber se em algum momento eu cometi heresias suficientes para me rejeitar. Mesmo depois, se tudo está bem e conforme, se não apresento dividas ás finanças nem à segurança social, fico à experiência um tempo. Não vá fazer merda.
Concordo em absoluto!

Por outro lado. Não há idiota que se apresente como crítico* (porque ninguém quer ser líder de opinião) que tenha de mostrar ao mesmo produtor os seus certificados, demonstrar experiência ou competência de prova. Provar capacidade de análise e enquadramento. 

Qual é a lógica de exigir um génio para fazer um vinho para depois o ter enquadrado por um analfabeto? 

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*Não sejam idiotas de generalizar. 

12 de abril de 2015

Os "Supertejanos"


Como é que um gajo faz para assumir que talvez não tenha julgado bem, que foi vitima do seu próprio preconceito? Que não há factor externo que justifique a adopção por uma visão unívoca para algo que, possivelmente, não é o problema mas que pode, muito bem ser parte da solução?

Tenho uma predilecção pelo trabalho com as castas nativas, pelo estudo de técnicas que as respeitem e façam florescer. Gosto dos "Slow Wines", aqueles que não se apressam para entrar no mercado nem para sair da garrafa. Não é segredo para ninguém.
Este gosto, não me cega para a realidade nem me molda a acção. Mas tem-me levado a interpretar esta coisa das castas exógenas (porque já meto no rol aquelas que sendo nacionais provêm de outros destinos) e práticas novo-mundistas como um caminho a evitar se queremos expressar verdadeiramente a identidade de um local.

Fica o reparo de que, quando defendo isto, em momento nenhum entendo que o negócio em si deva ser alicerçado nestes vinhos. Pelo menos não nos próximos 50-100 anos se o trabalho for bem feito. Falo especificamente dos vinhos bandeira para a região! Ou seja, falo de marketing e de comunicação, não de vendas ou "cash flow". Isso é outra guerra!

A região do Tejo não foi/é famosa por ter vinhos distintos, de qualidade elevada, produzidos para um padrão de elevada exigência. Sempre esteve associada à produção de volume a baixo preço, onde o critério de qualidade deriva muitas vezes de factores físicos-químicos, mais do que organolépticos.

Ora, isso mudou. Não parece, mas mudou (e será interessante relacionar essa mudança com a conversão da designação Ribatejo para Tejo). Eu diria que se vive um período de transição. Inicialmente foi preciso adaptar vinhas e adegas. Esse trabalho está feito ou vai adiantado. No vinho, também por isso fomos assistindo nos últimos 15-20 ano a uma estrondosa mudança. Começam a aparecer, finalmente, os esboços dos grandes vinhos, os tais "vinhões" que se procuravam há 10 anos quando comecei a trabalhar no meio. 

Estes vinhos são feitos, na sua maioria à custa do virar das costas às castras tradicionais. E isso, era algo que até aqui não conseguia assimilar e deglutir com facilidade. Confesso que sempre defendi que o caminho seria pegar nas castas tradicionais e começar a trabalha-las bem. Com conhecimento e inteligência. 
É difícil encontrar muitos vinhos feitos com 100% de castas da região, mesmo a aromática Fernão Pires está em desuso nos vinhos extremes. Já ninguém quer aquilo, dizem-me!
E eu andava triste e um pouco ressentido.

Mas até os tolos teimosos têm as suas epifanias. A minha chegou-me à força de ver alguns desses vinhos, finalmente a ombrear com os melhores nas escolhas de quem nos diz se o vinho é bom ou não presta.
A verdade é que os vinhos do Tejo nunca tiveram tanta popularidade como têm hoje, seja em que patamar de qualidade for.
Vou ser claro. Sempre achei que isso era possível, foi isso que me fez ser enólogo, mas nunca acreditei que fosse com recurso ao abandono parcial ou absoluto das castas tradicionais.

De repente, levei uma lambada nas fuças e percebi que afinal o que mais temia não aconteceu. A região conseguiu fazer vinhos que se impõem no mercado e estão a conseguiram criar uma identidade.
Essa história não é  nova. Tudo isto se sobrepõe, de forma quase perfeita ao surgimento dos Supertoscanos, os vinhos que as entidades certificadoras se viram forçadas a reconhecer pelo facto da sua fama se ter sobreposto ao da própria região, mandando-os para o bolo dos vinhos mais reconhecidos de Itália no plano internacional.
No caso do Tejo, não é preciso brigar. As autorizações foram feitas antecipadamente.

Toda esta conversa não é ainda uma declaração. Muito menos uma posição definitiva. È uma assumpção de um novo olhar para uma possível nova visão.

Estaremos a assistir ao nascimento dos Supertejanos?

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Post Scriptum:
Para tentar perceber melhor o que se está a passar, pretendo em breve juntar um numero de vinhos suficientes para fazer uma prova comparativa cujos resultados me possam dar novas luzes sobre este assunto. Vou dando notícias.