20 de julho de 2008

A Prova de Vinhos

Muitos são os livros e artigos que falam sobre a prova e os seus diversos métodos. Aqui como em outros saberes, já ouvi e li de tudo. Há os que dizem que esta é reduto e privilégio de poucos, uma capacidade inata, passível de ser aprimorada mas impossível de ser adquirida. Outros afirmam exactamente o contrário, caracterizam a capacidade de prova como algo construído que depende apenas da vontade de cada um.
Eu tenho naturalmente uma queda para o pessimismo que, aliada ao facto de nunca me ter sentido um Jean-Baptiste Grenouille (personagem central do romance “O Perfume” de Patrick Süskind), contribuíram para que me sentisse um ser menor quando iniciei estas lides vínicas. Quando lemos as reportagens, as notas de prova e tudo o mais que os nossos “líderes de opinião” escrevem nas revistas da especialidade, apura-se a sensação que os seus narizes são organizados recorrendo a um código genético que não o nosso. Tentei, no que pude, ir aprendendo um pouco mais e tentei reconhecer aromas, sensações e nuances. Aos poucos foi-me apercebendo que os discursos da aptidão não passam de tentativas para afastar a concorrência e valorizar as capacidades adquiridas! Enfim…
De inicio treinei-me a identificar os defeitos, pois são esses que mais podem prejudicar o nosso trabalho. Com tempo e algum investimento, fui tendo oportunidade de construir a minha rede neuronal de aromas e hoje não sinto que esteja muito abaixo da média em relação á classe provante! Nada de transcendente ou sobrenatural, somente vontade e alguns euros. Também não activei nenhum gene apagado. A genética contradiz Lamarck, ou seja, para a grande maioria das nossas funções já nascemos com o DNA a trabalhar em pleno. Em bom Português, já nascemos com o espinho com que havemos de picar.
Tudo isto porque começo a ficar farto desses “entendidos” que pregam uma coisa e provam outra, que vaticinam uma mudança e depois não a percebem quando a provam, que fazem conjunturas sobre as mudanças necessárias a determinada região e depois desempenham o papel dos velhos do Restelo que as condenam mal as cheiram. Isto é válido tanto para jornalistas como para os júris de muitos concursos que, ano após ano, valorizam sempre mais do mesmo.
Conscientemente consigo dividir uma prova em duas categorias muito distintas: a prova técnica e a prova de consumo.
Entendo por técnica, a prova na qual se comparam as características individuais de cada um dos aspectos: visão; nariz e boca. Ao contrário do que se poderia pensar, analiso cada uma de forma separada e só no final comparo a harmonia. Para facilitar, se estou numa prova e avalio cada um dos aspectos individuais, jamais dou uma grande classificação a um vinho que tenha um aspecto agradável, uma boca correcta, mas que não tenha nariz. Um dos componentes essenciais está em falta e tecnicamente o conjunto está deficiente. Procuro obviamente defeitos e qualidades, mas nunca do ponto de vista do que mais me agrada e sim do que se pode esperar do vinho. Aqui, a meu ver reside o maior problema de muitos júris de concursos e da maioria dos jornalistas. Já a prova de consumo é, tal como o nome indica, dirigida ao consumo, mas o nosso, deve por isso ser pessoal e intransmissível. Desde que deixemos o nosso ego em casa, é possível separar as duas quando necessário.
Já não acho muita piada ver tipos de peito cheio, convencidos de que são cheiristas, a provar “tecnicamente” os vinhos com base no seu gosto. São, infelizmente a maioria instalada em revistas e júris de relevo e desvalorizam totalmente o trabalho dos produtores, enólogos e restantes equipas que se empenham, no mínimo durante um ano, a desenvolver os vinhos que esses senhores não estão, certamente, à altura de provar!

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