7 de dezembro de 2008

Enólogos Consultores




Começam-se aos poucos a ouvir ecos de crítica sobre o papel dos enólogos consultores na vitivinicultura moderna. Aqui e ali pontilham comentários de produtores descontentes e jornalistas desconhecedores da realidade e com péssimo trabalho de casa no que ao tema diz respeito. Acabam por desperdiçar as linhas e o tempo dos seus leitores, passando ao lado do que realmente interessa discutir, tendo sempre o cuidado de salvaguardar dois ou três dos mitos dos que ajudaram a criar, pois convém não cair em contradição.
A consultadoria surgiu num período em que a pátria acordou para o mundo e percebeu que não fazia vinho, mas sim algo, vagamente, parecida com isso. O bum da necessidade originou uma corrida a pessoal qualificado, que, á falta de o haver criou para uma classe a oportunidade de se dividir por vários agentes, dando assistência ao maior número possível deles. Como diria um economista adepto do capitalismo, foi o mercado a trabalhar, de uma necessidade criou-se uma oportunidade que se regulou por si própria. O trabalho realizado foi muito importante e decerto duríssimo, pois acima das dificuldades que deve ser transformar adegas e vinhas decrépitas com métodos absurdos em casos de sucesso, teve, certamente, como maior obstáculo a mudança de mentalidades, senão repare-se: A reconversão de uma vinha, considerando o replante (o que aconteceu a grande parte delas!) demora não menos de 3 a 5 anos a mostrar alguns resultados. A somar a isto junte-se mais 2 anos (partindo do principio que se acerta à primeira!) para o vinho estar pronto a entrar no mercado e depois mais 1 ou 2 (isto em perspectiva optimista!) para que o consumidor o perceba e reconheça a mais-valia de consumir apenas uma garrafa de 0,75L em detrimento a um garrafão de 5 litros pelo mesmo preço. Facilmente chegamos aos 10 anos de trabalho e esforço para convencer produtores e colaboradores de que o investimento terá, um dia, francas mais-valias. Por tudo isto, só posso ter a maior consideração pelos Primeiros Enólogos destes pais. Foram eles quem correu os maiores riscos e estiveram sujeitos às maiores pressões (deixando de lado as questões económicas, claro está!).
Com a ajuda dos meios de comunicação especializados, colocamo-los num pedestal entre deuses e demais criaturas e é por isso licito que muitos deles se sintam impelidos a fazer-se pagar demasiado bem por essa posição. Contudo, a tremenda profusão de técnicos que inundou o mercado nos últimos tempos juntamente com o excesso de confiança e talvez com o exemplo do Sr. Roland, fez com que muitos deles, sabendo-se seguros começassem a despender menos tempo nas consultadoria que tinham para aceitar novas casas e engrossar a sua contribuição para com o estado Português. Talvez tenha sido esse o maior erro, ainda que do ponto de vista humano o compreenda. Começou-se a cortar na inovação e experimentação e a utilizar-se receitas, alteradas aqui e ali pelas sugestões milagrosas das empresas de produtos enológicos e a testar a experiência da experiência de alguém. O caso começa a ser percebido pelos produtores (cada vez mais interessados e informados!) e por alguns jornalistas e começa a levantar-se um fumo de uma fogueira que, se não se controlar, possa dentro de algum tempo estar transformada numa caça às bruxas queimando indiscriminadamente e sem salvaguardas!
Pessoalmente, acho que o futuro das consultadorias pode ser um de dois ou mesmo o blend de ambos:
1º: As actuais figuras dos enólogos consultor e residente fundir-se-ão num só. Cada casa terá o seu enólogo com a vantagem deste ter maior disponibilidade e meios para fazer mais ensaios e testar novas técnicas.
2º: Criar-se-ão novas regras para as consultadorias. O consultor, ver-se-á obrigado a ter menos avença e a dedicar mais tempo a cada uma delas. Não será pago a peso de ouro (e nunca mais do que ao residente, como hoje, escandalosamente, acontece!). Terá um papel mais activo na vida da empresa, não só na direcção técnica como essencialmente participação na promoção e comercialização do produto.
Acredito que a primeira predominará mas a segunda existirá, na medida em que traz equilíbrio e não provoca cortes radicais, amplifica as virtudes e atenua os defeitos. Acima de tudo, o mercado exigirá maior participação e equidade no papel desempenhado pelos técnicos consultores nas diferentes casas onde actuam.
A conjuntura actual vai certamente acelerar esta mudança, pois as empresas do sector, terão para sobreviver, de se adaptar a modelos de gestão mais profissional baseados na maior rentabilização não só dos seus activos económicos como também dos humanos. Tanto nas empresas como nas consultadorias, quem não se souber adaptar, desaparecerá!
De uma forma ou de outra, o mercado regular-se-á!

1 comentário:

Anónimo disse...

Concordo com mt do que é dito neste post.
Só espero é pelas mudanças, porque até lá, vivemos em condições precárias e com rendimentos miseráveis porque os "turbo-enólogos" levam a massa que divia ser nossa!