26 de agosto de 2011

C.E.E.– Sessão 001

Alguns de nós estão na posse de um conhecimento ancestral, guardado por sucessivas ordens secretas cuja função foi somente afastar do público este segredo da natureza! Hoje porem, vou partilha-lo com todos!

O Vinho pode ser feito de uva!

Já está! Quem sabia disto? Muito poucos aposto!

Ora, e o que é a uva?

É um fruto originário de uma planta à qual chamamos videira. Para vinho, utilizam-se plantas da espécie vitis vinífera (façam uma pesquisa na net e saibam quais são as outras). Há na história do vinho, uns episódios castiços sobre esta planta. Por exemplo, conta-se que a poda foi inventada pelos burros. Não por burros, mas pela constatação de que as plantas a que estes animais comiam as varas do ano, apresentavam na colheita seguinte melhor qualidade. Deve ter sido mais ou menos uma coisa assim:

Mestre Jonas (nada a ver com o da baleia, ok?) dava o seu passeio matinal pela vinha e deparou-se com o animal a comezainar as plantinhas tendo já tragado metade da cultura. “Ai, que o diabo do bicho já me comeu o sustento”, gritou aflito enquanto afastava o animal dali.
Passou o resto do inverno em prantos, sabia que no ano seguinte não teria fruta suficiente para vender e assim pagar a propina da faculdade do filho (a estória é minha, faço com ela o que quiser!). Logo agora que lhe tinham cortado a bolsa, somente porque o desgraçado não teve como provar que era pobre.
Veio o calor e com ele a época da apanha. De facto não se enganou, apanhou muito menos fruta, mas teve uma agradável surpresa quando provou o vinho. Nunca, na sua longa vida tinha bebido um néctar tão agradável. Apressou-se a engarrafa-lo e a vende-lo a um preço astronómico. Descobrira a poda! E o prazer de nadar em dinheiro!
Nunca mais ligou ao burro e comprou um cavalo! Os homens são assim, esquecem-se rapidamente dos burros que lhes fazem bem!

Importa referir que, segundo a literatura especializada, a poda pode (brilhante este jogo de palavras) assumir formas diferenciadas dependendo dos factores ecológicos e do trabalho humano que nela se realiza (1).
Antes de prosseguir no estudo da uva, propriamente dito, considero importante a observação do esquema seguinte que nos dá uma legenda dos diferentes constituintes da planta, para não haver dúvidas em referências futuras.
Figura 1- Esquema da videira com os seus constituintes essenciais. Separação das 3 componentes essenciais: subterrânea, aérea permanente e aérea variavel.

A raiz suporta e permite a absorção de nutrientes e água. Pode assumir formas e estruturas diferentes consoantes o tipo de solo e a viticultura praticada. Aquilo a que vulgarmente chamamos cepa mais não é do que a madeira permanente da componente aérea da planta (em oposição à subterrânea que se encontra debaixo dos torrões, literalmente!), juntamente com a raiz. Constituída pelo tronco e braços, a componente aerea permanente, suporta e sustenta a componente variável (inventei esta expressão agora, mas parece-me apropriada). Convém dizer que, mediante critérios de viticultura, os braços podem ter aspectos, tamanhos e disposições diferentes. Daqui saem os talões ou varas de vinho (dependem do tamanho e do numero de olhos!), que normalmente são madeira de 2º ano, pois resultam do aproveitamento da madeira nova do ano transacto. No inverno, no final da poda, é com isto que contamos.
Na primavera, com o abrolhamento nascem dos olhos os novos rebentos, chamados pâmpanos ou sarmentos. Daqui vão sair todas as folhas, cachos e as gavinhas. As folhas são autênticas fábricas. É aqui, que ocorre essencialmente a fotossíntese e as trocas gasosas, é daqui que vão os açucares, ácidos e moléculas de cor para as uvas durante a maturação do bago. Até que a planta precise, toda a produção é canalizada para o crescimento. As uvas não são mais do que a maneira de assegurar a sobrevivência da espécie. A grainha, guarda a informação necessária para originar novo ser. Tem uma reserva de nutrientes suficiente para permitir a germinação e, pensa-se que a polpa que tanto prazer nos dá, serve somente para atrair os vectores de propagação, ou sejam, aves e restantes animais que, pelo fruto comem a semente e depois a expelem (sim, juntamente com a massa fecal) em local diferente daquele onde foi ingerido. Finalmente a gavinha (cf. foto), que é uma espécie de garra, é comum a todas as trepadeiras e serve para suportar o peso da planta quando esta cresce no plano ascendente. Lembro que este tipo de plantas se propaga na horizontal até encontrar suporte para passar à verticalidade. Estará certamente relacionado com a procura de luz.
Que não se fique com a ideia de que a “legenda” da videira fica completa com as noções básicas aqui referidas. Muito longe disso!

Vamos lá então parar e discutir esta parte.

Na proxima sessão falaremos de uva e do seu desenvolvimento durante a maturação.




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