19 de setembro de 2011

Ode aos Enólogos e Adegueiros

Desculpem-me a lamechice, mas, há dias em que sabe bem gritar para o alto.

Outro dia, encontrei na rua um amigo que há muito não via. Depois dos habituais abraços de reencontro, lá chegou aquela pergunta costumeira.”E então pá? O que fazes?”. Seguiu-se o diálogo:
-Sou enólogo, e tu?
- Sou desempregado, trabalhei numa empresa que fechou por causa da crise.
-É pá, sinto muito! Mas infelizmente não estás sozinho!
-Pois não! Isto está uma merda!
-Pois é!
Ficamos cabisbaixos e fizemos o devido nojo à situação. Depois de uns 5 segundos, ele ergueu de novo o sorriso e continuou:
-Eh Pá! Mas isso deve ser muita giro! Isso de ser enólogo!
Como estava cansado da Vindima, não demonstrei a alegria necessária e respondi com um simples:
-Sim! É giro!
Ele, não tende outra alternativa senão acompanhar a descida de humor disse:
- Pois, mas também deve ser f… nestes dias de vindima!
- É, é um bocado! – Respondi! Não estava com muito vontade de falar nisso!
- Não ter horas para nada…
- Pois, mas nem é tanto isso! Disse, como que a pensar!
- Andar molhado metade do dia…
- Sim, mas não é bem…
- Trabalhar 12 a 16 horas– interrompeu na esperança de, nesta vez ter acertado! - Testar os limites corporais e mentais! – Continuou depois da minha expressão não se ter alterado.
- Eh pá, sim, mas nem é isso que custa mais!
-Já sei! Arriscar a morte nos tonéis!
-Também!
Espantado, e decerto farto de toda aquela conversa, lá perguntou:
-Então, o que é que te custa mais!
Esperei um pouco, durante uns segundos hesitei se valeria a pena expor assim o que sentia, mas… não sei por que impulso, respondi!
-O que me custa é chegar a casa com toda a gente já a dormir, levantar-me e sair de casa sem os ver de olhos abertos! È conversar com a minha mulher pelo telefone! É receber dela um telefonema a meio da manhã a dizer que o nosso filho vai a chorar para o colégio e a chamar por mim!
-É pá! D facto isso deve ser f… - disse sem mostrar verdadeira comoção.
-Pois é!
-Pronto pá, tenho de ir, foi um prazer ver-te! Felicidades!
-O prazer foi meu! Fica bem!

Esta história é ficcionada, mas pergunto-me quantos enólogos e adegueiros anónimos andarão aí a superar limites, a arriscar a vida em nome de um vinho, da fama (alheia?), de dinheiro (?). Quantos recebem estes telefonemas e ficam sem pinga de sangue? Quantos passam o resto do dia a pensar se tudo aquilo valerá a pena. Quantas famílias sofrem a ausência e o risco durante estes dias.

A eles, que, perdoem-me os outros, os considero uns heróis, a minha mais profunda vénia!

Boas Vindimas

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