30 de novembro de 2011

A relíquia do Vitor Gaspar


Acordei cedo. Dormi mal. Levantei-me de um salto e desci as escadas com a ideia fixa de procurar esta garrafa. Procurei pouco, coisa inaudita. Achei! Lá estava ela. Feia, mal estimada, mas com a preciosa dedicatória que lá depositaste, naquele ano de loucura de 1996 - 15 anos, já?
Diz:
“É difícil, trabalhar com esta malta jovem, mas como sempre, nunca deixam ficar mal um grande amigo vosso!”
Não pude suster a gargalhada. As historias que esta garrafa conta. Lembro-me de entrares no clube, feliz, porque, pela primeira vez iriam as Festas ter um vinho próprio. Eh! Eh! Lembro-me do esgar que todos fizemos da primeira vez que o provamos. Aquilo fazia as zurrapas parecerem vinho. Pobre amigo, todos temos direito ao nossos  momentos menos felizes.
A memória olfactiva faz-me recuar ainda mais para trás no tempo. Recordei-me do caminho para a explicação, daquele cheiro a musgo e a orvalho que a calçada entre as casas velhas deixavam crescer no inverno. Do cheiro da Beca espalhado no andar de baixo. Do cheiro a madeira velha e a mofo do fabuloso edifício. O cheiro a borracha de apagar e a aparas de lápis. O cheiro de Mozart a tocar - para inspirar a matemática.
Gosto de pensar que, nessa fase, aprendi, contigo a equação do trabalho. Se multiplicamos o trabalho teremos um acréscimo proporcional de resultados.
Mais tarde, no tempo dessa garrafa, ensinaste-me, ainda antes de ler Tolkien, que vale sempre a pena ir a jogo, mesmo que este pareça perdido. Nunca sabemos quando as coisas mudam e o inesperado, que te recusaste a aceitar que tinha alguma coisa de divino, aconteça.
És uma mente fora da caixa. Ardiloso e desenrascado, ao mesmo tempo competente e tecnicista. Honesto, sério, alegre,…, um verdadeiro cromo. Daqueles difíceis de voltar a sair. É que sabes, poucos de nós têm coragem para as escolhas que fizeste, poucos de nós se empenham com tal afinco. Poucos de nós têm de facto poder para fazer acontecer.
Desta tua fase mais “mediática” não gostei, mas entendi-a. Roubou-te de nós, levou a tua gargalhada para outras mesas, para outros sofás. Levou o teu nariz para outros copos. A imortalidade, aquela que apelido de Kunderica (pois foi com Kundera que a aprendi) só se conquista com obra. Esta, por sua vez, não nasce do acaso. Nasce do empenho, nasce do trabalho, nasce, infelizmente, do sacrifício, muitas vezes pessoal. Entendi que foste à procura da tua e que essa procura te levou a locais diferentes desses onde nos encontrávamos.
Disseram-me que morreste. É mentira! Pobres tolos! Não sabem que os imortais não morrem?
Um dia destes abro a garrafa e bebo o que lá encontrar. Quero fazer uma libação de agradecimento. Às passagens em que tocaste na minha vida. Às influências positivas. Aos momentos de alegria. Aos de desilusão. Quero voltar a rir-me contigo.
A garrafa depois, como qualquer enófilo chato e saudosista que sou, guardo-a religiosamente no local para onde vão as relíquias e preciosidades vínicas que se coleccionam ao longo da vida. A caixinha das memórias.
Só tenho para te dizer obrigado. Só tenho para te oferecer esta música que tanta vez passou na velhinha "aparelhagem" da explicação e que me ensinaste a não ter vergonha de gostar.
Forte Abraço.





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