27 de novembro de 2011

Sobre os Espumantes Portugueses – Parte I

Informação prévia.

Segundo José Carvalhais, em documentação entregue durante o curso prático de vinhos espumantes organizado pela Vinideas em 25.02.2011:
A primeira experiencia de espumantes registada em Portugal, ocorreu em 1860, na casa Forrester no Douro.
Actualmente a produção está disseminada por todo o país vitivinícola. No entanto, 80% ainda se encontra nas regiões de Bairrada e Tavora-Varosa.
Ainda segundo o mesmo autor, a produção mundial está entre os 2000 e os 2200 milhões de garrafas sendo que Portugal ocupava em 2003 o 18º lugar no ranking com umas honrosas 10-12 milhões de botelhas.


Tenho com os espumantes uma ligação especial. Não os consigo beber, mas se pudesse não fazia outra coisa.
Por um lado, tenho um estômago pouco tolerante a bebidas carbónicas. Provo e bebo um “gole”, mas não passo daí. Por outro lado, sendo, talvez, a forma de vinho mais humana (reparem como afastei o termo tecnológica), exerce sobre mim uma influência quase sobrenatural. São infinitas as possibilidades de criar variabilidade num espumante.
Também por isso, resolvi aprofundar um pouco mais a questão comercial e cooperativa que existe ou possa existir à volta das marcas Portuguesas.
Como saio pouco, sou um rato de adega vivo enclausurado, qual Cartuxo contemplativo, recorri à opinião de pessoas que sabem desta vida do vinho muito mais que eu.  Escusado será dizer que recorri a alguns dos melhores, a alguns dos mais sábios e experientes e por isso, não quero continuar sem deixar antes, o meu profundo agradecimento a Celso Pereira, Frederico Vilar Gomes, Hélder Cunha, Luís Pato, Rui Falcão e Paulo Amorim.  Muito Obrigado.
Começo por perguntar se existem, por cá [Portugal] espumantes de nível Internacional. A opinião é quase unânime e pode resumir-se à existência de alguns produtores com muito bom nível, mas em quantidade muito reduzida para representar um país. Concordo em absoluto. Luís Pato vai um pouco mais longe e afirma que, qualitativamente podemos ombrear com cavas e restantes espumantes originários de climas quentes. A julgar pela grande parte dos Cava e Espumantes Brasileiros que já tive o privilégio de provar, concordo com ele. Por outro lado Celso Pereira toca num outro ponto, não menos importante, a aparente falta de esforço para que a bebida seja reconhecida. Percebo o que ele diz, pois, a julgar pela promoção que vejo, fico muita vez com a impressão que em Portugal só se faz, com qualidade, vinho tinto (para alem dos fortificados, claro).
Tenho ainda a ideia (que admito poder ser errada!) de que, para o grosso dos produtores, esta bebida representou, durante muito tempo um subproduto, nascendo da necessidade de reciclar ou optimizar e não tanto da vontade de produzir excelência. Ora, considero que, mais do que os outros tipos de vinho, os espumantes devem ser muito bem pensados e planeados antes de executados (explicarei melhor esta questão numa sessão futura do C.E.E.).
Põe-se nova questão. Vale a pena apostar na produção de espumantes em Portugal? Aqui as respostas foram mais interessantes, todos acham que sim, desde que nas zonas especificas. No entanto, Paulo Amorim e Rui Falcão separam a sua opinião entre mercado interno e externo, para consumo interno sim vale a pena, para exportar, há uma dificuldade muito grande em consegui-lo. As razões são várias, mas Rui Falcão escreve algo que considero, infelizmente, um dos motivos de peso para que os nossos espumantes ainda não sejam um produto verdadeiramente a considerar. Diz ele: “(…) os bons vinhos espumantes precisam de tempo e dinheiro, condições que não abundam em Portugal, onde saber esperar nunca foi considerado uma virtude.”
E não é?
Muita gente me pergunta se uma adega para espumantes tem condicionantes. Bem, à boa maneira Portuguesa podemos sempre desenrascar a coisa e, onde não há um agitador, podemos sempre colocar uma bomba em circuito fechado. A pergunta foi só feita aos enólogos. Quais as condicionantes de uma adega de/para espumantes. A resposta de Luís Pato foi peremptória, o custo dos equipamentos. Celso Pereira entende que a preocupação maior deve ser com a matéria-prima. Frederico Vilar entende que é a questão do espaço pelo acumular de colheitas. Hélder Cunha refere a dificuldade em evitar que as uvas não sofram maceração. Eu tenho aqui o papel mais fácil, pois sou o único que li as respostas todas. Fui também quem mais tempo teve para pensar no assunto. Penso que, cada uma das condições/condicionantes supracitadas é importante, contudo, uma adega equipada para brancos é fundamental. Boas cubas de inox, um bom sistema de frio e volumes pequenos - para os vinhos base. É fundamental ainda possuir um local fresco onde a temperatura, seja de forma natural ou induzida, oscile pouco e se mantenha baixa, para uma tomada de mousse eficaz. Vou ainda um pouco mais longe e afirmo que, sem medo, mas com experiência, muitas vezes uma boa equipa de trabalho é mais importante do que excelentes recursos materiais.
Se há vinho que acredito ter tudo a ganhar com uma bela dose de paixão é o espumante.


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