15 de dezembro de 2011

Que vinho para as Pringles?


Durante demasiado tempo, vivi com a forte convicção de que o pendão gastronómico do vinho era, por si, um elemento valorizador do produto. De uma forma muito empírica, pouco reflectida, achava que para apresentar um vinho, uma boa maneira era casa-lo com pratos elegantes, sofisticados, glamurosos… enfim, já perceberam o filme.
Convidar um chefe da moda e pô-lo a cozinhar aquelas peculiaridades gastronómicas para harmonizar assim e assado cada elemento descritor do nectar é, confesso, um exercício que adoro. Mas valoriza assim tanto o vinho? Fá-lo tornar mais apetecível? Dá-lhe uma imagem democrática? Sejamos honestos, na esmagadora maioria do vinho disponível para consumo, nem por sombras! Estou convencido de que apresentar um vinho com um prato desse nível de sofisticação enviará ao consumidor o falso sinal de que só tirará o devido partido do consumo se replicar a fórmula. Não tentem rebater, a teoria da culpa, no marketing, não é minha, apenas a utilizo aqui.
Ok! OK! Maço-vos com este parágrafo para salvaguardar alguns (quantos, 5%?) que se encontram fora da abrangência deste post. As excepções. As honrosas excepções. Sempre as excepções… E ainda… (lembram-se do concurso 1, 2, 3?) aqueles vinhos que têm a versatilidade de se adequar aos dois tipos de consumo. Satisfeitos? Prossigamos então!
Por outro lado, se o grosso do consumo se prende nos vinhos de gama média e baixa, porque não fazer harmonizações sim, mas com pratos do dia-a-dia. Mesmo comida congelada ou take away do supermercado. Porque não? Quantos de vós cozinham todos os dias? Quantos de vós não consomem comida rápida? Quantos de vós já viram sugerido um vinho para a pizza congelada ou para o bacalhau com natas do pingo doce (publicidade viram)? Quantos de vocês já viram alguma vez uma tentativa de harmonizar vinho com pringles (novamente, é só empochar.)? Amendoim salgado? Pevides? Tremoço? Tosta mista? Caracóis?...
Então, porque não valorizar estes momentos através do vinho? Sem culpa de estar a abrir uma boa garrafa para acompanhar uma comida menos capaz. Lembram-se do amigo Miles no filme Sideways, de como ele decidiu beber “Aquela garrafa”? Aposto em como comemos mais vezes disso que foie gras, perdiz confitada, cogumelos recheados com pó de ostra caramelizada, rabinhos de beterraba com alcachofra reduzida em banho maria com molho de aipo cortado pelos lombos,… e mais essas coisas de difícil pronuncia.
È o momento que pede o vinho ou é o vinho que transforma o momento?
Pensem nisso!

P.S.: e que bem que, nalguns casos, este tipo de harmonização casa com o conceito do vinho a copo.





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