18 de janeiro de 2012

EVS 2011

Sei que é um pouco tarde para fazer balanços deste evento organizado pela Revista de Vinhos. Contudo, o motivo que me leva a escrever estas linhas prende-se apenas com a referência e interpretação de algumas evidências. A constatação de que aprendi alguma coisa durante os quatro dias que o evento durou.

Os três primeiros dias foram dedicados ao público em geral e o quarto a profissionais. Muito bem. O que aconteceu?
Nos dias do público generalizado todas os stands tinham gente. Não dei volta que não encontrasse os visitantes mais ou menos distribuídos.
No último dia, posso garantir sem exagero, que parte dos produtores não teve uma visita durante os primeiros 2/3 do tempo. Reparei contudo, que a romaria aos famosos era estonteante. Vi filas e acotovelanços civilizados em boa parte destes stands, mas os outros que nos dias precedentes tinham sempre alguém, estavam às moscas.
 A primeira ideia que me ocorre, a perversa, é a de que essa gente da distribuição, das garrafeiras e da restauração só quer os vinhos fáceis de vender. Só querem os anos mais recentes para não ter de aprender a explicar os vinhos. Procuram apenas aqueles em que é o produtor que assume a fatia de leão no risco da construção de mercado. Porra! Raios partam esta gente que só quer dinheiro fácil.
Uma segunda volta no pensamento. Mas…. E os produtores, o que fazem os produtores para merecerem tal sorte? Aqui é que a porca torce o rabo. Há que dar importância ao marketing de qualidade. Não comecem a falar de dinheiro. Marketing de qualidade, no mercado português (porque é diminuto) tem mais a ver com presença, acompanhamento, relação, tratamento adequado e amizade com o consumidor/cliente do que propriamente no gasto de avultadas somas em publicidade e moças “perdidas” em stands que são um achado para as vistas. É a porra da lábia. Muitas vezes necessária numa escala bem maior que a própria excelência do produto.
Bem, não se conclui nada, ou conclui? Por um lado temos gente, vamos ser honestos, pouco ou nada informada sobre vinho que procura apenas valores seguros e lucro sem espinhas. Por outro temos produtores que deveriam passar mais tempo a visitar os seus clientes e a fortalecer laços comerciais. A saber posicionar os seus produtos e construir mensagens eficientes para os vender.
É bater punho. É bater punho, como diz o outro.

4 comentários:

Nuno disse...

Olá Hugo. Concordo com o que disseste. E será que os produtores abrem os olhos? Este ano, os produtores que acham o mesmo que tu achaste e eu, gastava o dinheiro que eles gastam na EVS em fazer provas na Quinta, bem divulgada, onde as pessoas iriam conhecer o produtor no seu centro de produção, e mesmo com o vinho, e uns biscoitos pelo meio a coisa ainda sobrava e tinham a casa cheia, ou divulgava uns quantos jantares por Lisboa e Porto, onde até é o cliente que paga o jantar na maioria das vezes. Chulos.

Hugo Mendes disse...

Nuno,
Obrigado pelo comentário.
Há produtores a trabalhar bem e há produtores que já entenderam que caminho tem a seguir e estão a faze-lo.
O que me refiro é mais uma vez ao facto de não ser, AINDA, o consumidor quem escolhe os vinhos que consome. O produtor não pode mais confiar os seus vinhos a um distribuidor esperar que este faça o resto. Seguramente não pode andar pela internet com a leviandade que a maior parte aqui anda. Não pode lavar as mãos ao tratamento que os seus vinhos têm depois de saírem da adega.
Há um novo papel para os produtores e se estes não entendem a mudança de necessidade, arranjem quem faça por eles. Ou se alicerçam em boas e inteligentes acções de marketing, que no estado em que estamos requerem mais criatividade do que dinheiro, ou mais vale fechar o portão.

Carla Reis disse...

Gostei e concordo convosco.Diria mesmo que o "bom trabalho" tem sido realizado, em grande medida, pelos pequenos e médio produtores e novos profissionais do sector...e que cada vez mais, este problema de "horizontes" fica invariavelmente preso à empresas cujo peso comercial está sedimentado no volume que produzem ou num percurso histórico longínquo(que utilizam como credibilização do seu produto em detrimento da qualidade).O resultado? Acredito que a longo prazo, e porque a tendência é para consumidores cada vez mais esclarecidos, estas empresas tendam a alterar sua postura ou diluirem-se com o tempo.
Vamos ser sinceros...a postura dos nossos pais é completamente diferente das dos "nossos" filhos e os jovens consumidores são mais independentes destas considerações estabilizadoras(ou assim espero).

Anónimo disse...

Gostei das palavras aqui proferidas pelos três.Principalmente as do Hugo com quem no fundo convivo mais assiduamente,como calculam parte do que ele disse já eu ouvi ao vivo.Como maçarico nestas andanças tdos os conselhos que dali vêem são bem processados.Mas uma coisa vos digo,quem quer bolota trepa,quem corre por gosto não cansa.Juntem estes dois conceitos e alguma coisa vai dar.Tudo demora o seu tempo.Uma grande verdade é a restauração e garrafeira,querem vender marcas em que o nome já esteja feito,só querem lucro, mais grave é quando nem sequer se preocupam com a própria região em que estão inseridos.Até agora só conheci dois restaurantes que trabalhassem uma marca nova com paixão por aquilo que estão a fazer.Bem hajam.Os produtores (medios e pequenos) também são culpados por tantos anos de inercia,embora actualmente se note outro tipo de comportamento.
Antonio Maria