30 de janeiro de 2012

Produtores para o século XXI - Parte II


Continuação de Produtores para o século XXI - Parte I

Dirão alguns: “Mas a minha empresa já exporta. Já somos globais”. Tretas! A globalização não é ter o vinho em muitos países, mas sim comunicar o nosso vinho em muitos países. Percebem a diferença? É estar em todo o lado. Procurar a omnipresença divina. Adicionar constantemente motivos de compra.
Agregação e cooperação parecem-me fundamentais para criar estruturas competitivas e com forte capacidade negocial. Com peso. Esqueçam para aqui o conceito de cooperativa. A individualidade continua mas com regras diferentes.
Agregação é a capacidade dos produtores para participarem em espaços cuja finalidade seja o encontro, discussão e partilha de experiências para o claro beneficio de todos. A cooperação passa por partilhar soluções e recursos.
Bom, hei-de explicar mais aprofundadamente estas questões até porque estou a desenvolver um plano de negócio que vai de encontro a estas necessidades, mas fiquem com o exemplo que se segue como forma de ilustração.
Presentemente os produtores estão a braços com dois problemas. O peso financeiro das estruturas e a estanquicidade do mercado.
Ao peso da estrutura, associo uma má relação preço/qualidade dos recursos, que se traduz maioritariamente na incapacidade que a empresa tem para contratar os melhores técnicos em todas as áreas, embora tenha custos com pessoal que ultrapassam as suas possibilidades financeiras actuais. Então como é que a agregação e a cooperação podem ajudar? Simples. Se eu tenho o melhor adegueiro da região, é de esperar que este tenha um salário condicente com as suas capacidades. Contudo, não consigo rentabiliza-lo a 100% pois a adega não é assim tão grande. Por outro lado, tenho uma avença com um enólogo que não é dos melhores, mas que tem um preço que me permite ir cumprindo com as obrigações. Mas o meu vizinho, está numa situação contrária. Tem um enólogo bom que, por ser bom é também bem pago só que se vê obrigado a fazer o trabalho de adegueiro pois o patrão não tem dinheiro para contratar mais ninguém. Então? Não será melhor acertar agulhas e partilhar os melhores recursos que temos? Eu cedo o meu adegueiro e o meu vizinho cede-me o enólogo. Feitas as contas poupamos ambos dinheiro ao mesmo tempo que damos um impulso gigantesco na qualidade do produto.
Quando transponho esta ideia para as restantes fontes de custo: equipamentos, administrativas, comunicação de marca, presença em eventos nacionais e internacionais, fico louco com a rentabilização de recursos, sejam financeiros, sejam humanos que se conseguem.
Ai mas e tal, os portugueses não conseguem ultrapassar a barreira da desconfiança e, porque não dize-lo, do EGOISMO.
Conseguem sim. Há já alguns bons exemplos disso (aqui, e aqui, ...).

Para mais, vão ter de o fazer. Não têm escolha.

9 comentários:

Bodhisattva disse...

Caro Hugo

O conceito em si é aliciante como além do mais referes...talvez inevitável. Porém os projectos que indicas funcionam ao nível comercial e promocional! OU seja fora de portas. A grande barreira, ou a maior barreira é teres um agente cooperante que também risca lá em casa, "na tua" produção. Concordo com esse tipo de oferta mas com a generalização penso que não, para já pelo menos. Senão vejamos em muitos casos há muitos técnicos que não têm a sua oportunidade porque ainda estão sobre a chancela de outros. A generalização deste tipo de serviço cooperante e agregador vai servir uma lógica de contenção e optimização de custos e teoricamente melhor cost/benefit ratio. Mas no fundo o que tu queres é que o teu adegueiro se desenvolva e que o teu enólogo cresça e que acrescente valor a tua produção? Ao forneceres esse resultado não se incentiva a estaganação demuitos recursos humanos que existem por ai fora? A boa Gestão tem de começar internamente primeiro.

Hugo Mendes disse...

Boas David,
Eu sei, mas são os exemplos que temos.
Não vejo as coisas com essa rigidez. Penso que uma capacidade que temos de desenvolver é um pensamento orgânico. Estamos presos a uma necessidade de normas e regras, como se fossem chaves dicotómicas que servissem para decidir por nós. Sou a favor de que a decisão parta de uma análise com a concomitante aplicação e adaptação dos meios que temos disponíveis. Tudo isto para dizer o quê? Cada caso é um caso e não podemos aplicar regras decisórias. Temos de ver o tamanho da empresa, as suas necessidades, mas fundamentalmente (e é aqui que grande parte dos gestores falham) temos de ter perfeitamente identificados os potenciais no nosso capital humano. Enquanto gestores não deveremos ter de fazer mais nada do que proporcionar-lhes condições para fazer o melhor que podem pela nossa empresa. Mesmo que muitas vezes, á sua própria maneira.
Achas então que um enólogo que se vê forçado a ser também o adegueiro consegue desenvolver-se, e consigo a casa onde está, mais assim do que se fosse um recurso partilhado por duas ou três casas. O mesmo se passa com um adegueiro, um analista (porque não um analista, um laboratório),…..
Quanto á uniformização do produto, penso que tudo vai do técnico e da sua forma de trabalhar. Posso garantir-te que faço dois tintos, na mesma adega, produtores diferentes, que são radicalmente distintos entre si. Resultam de filosofias diferentes, estudos diferentes, vontades diferentes e têm por isso trabalhos diferentes.

Valter Costa disse...

A troca entre parceiros económicos pode estar de volta neste momento económico. Mas a mentalidade continua fechada para muitos empresários. "Então gastei montes de dinheiro numa adega destas e agora vou emprestar ao meu vizinho?" Claro que assim não se vai a lado nenhum!

Bodhisattva disse...

Hugo

Efectivamente é difícil encontrar um ponto de equilíbrio. E claro casa casa tem as suas especificidades, nomeadamente neste meio agro-industrial onde as variáveis se desdobram de forma ininterrupta. Porém eu não me opponho em nada a que um enólogo também faça funções de adegueiro. Aliás, se calhar e já discutimos isto a nossa mentalidade vai cada vez mais ao encontro de multdisciplinariedade e maos prontas para trabalhar. è certo Porém que um técnico se ocupado com todas as tarefas existentes na sua área, não se liberta para poder embarcar noutros voos e limita a sua capacidade de crescimento e de valorização da propria empresa. Já me sucedeu não só uma vez. È portanto diiícil também sabermos onde o nosso voluntarismo deve terminar sob pena de a médio prazo ser mais prejudicial do que útil. Mas agora repare-se se na grande maioria dos casos a Gestão não consegue optimizaros recursos de que dispoe internamente ...porque raio o fará com recursos externos? Só se...porque por cá também temos essa mentalidade tivermos uma gestão alheada e permeável a "solidez" aparente da consultoria. Quem tem a obrigação de conhecer melhor a sua realidade e desenvolver as melhores soluções para o seu projecto são os agentes internos. Mas claro, este também têm de poder ver o mundo lá fora para trazer know-how para dentro.

Bodhisattva disse...

Logo em Primeira instância há muitos equipamentos e adegas que não estão optimizados! Talvez as prestações de serviços pudessem ser ainda mais alavancadas nessa base. Há espaço no armazém? Alugue-se. A linha de engarrafamento funciona 3 meses/ano? Alugue-se. Assim rentabilizam-se os recursos internos que naturalmente "crescem". É que não é facilmente mensurável qual a diferença do ponto de vista económico entre recrutar por metado do preço (por hipótese) um técnico externo do que ter um técnico em full-time na nossa casa. O enólogo trabalha intensivamente 2 meses por ano (vindima). No resto do tempo se não se oucpar com outras actividades sobrará algum tempo para apoiar outras áreas onde o seu papel é cada vez mais fundamental, nomeadamente na área comercial. Se o enólog deve apoiar a comercialização? Não tenho a mais pequena dúvida que sim! e de forma o mais activa possível! Senão tivermos um representante fiel do nosso produto como explicar a nossa diferenciação? A não ser que o enólogo seja um mero executante..Mas nesse caso interno ou externo não estamos a tirar partido dele..

Hugo Mendes disse...

Valter. É isso! ou mudamos, ou fechamos!

Hugo Mendes disse...

David,
A multidisciplinaridade não pode ser utilizada para colocares um técnico, por exemplo um enólogo a fazer as funções de todos menos a sua. Isso não tem nada a ver com optimização de recursos. Para mim o fundamental é entenderes as características específicas de cada recurso humano e puxares para lhe dar o máximo de condições para que desenvolva o máximo de rendimento. Lembra-te da bola, se um treinador meter na cabeça que o Fábio Coentrão tem de ficar prezo às definições da sua posição, ele nunca passará de um jogador mediano. Tens contudo de ter cabeça para construir uma equipa onde haja complementaridade. Onde todos explorem ao máximo as suas capacidades e isso beneficie a equipa.
A multidisciplinaridade não te obriga a ser bom em tudo!
Mas se quiseres, pensa numa feira internacional. SE estudares bem a feira e o mercado, rapidamente entenderás que tens uma, quem sabe duas referências que se adequam aquele evento. Sabes que apenas um vinho ou dois chama a atenção, para quê levar 5 ou 6. Se escolhes 2, podes casa-los com outros 2 do teu vizinho e outros 2 do outro vizinho. Mandas apenas uma pessoa (bem preparada e instruída em representação dos 6 vinhos (aqui começa a desconfiança) e tens apenas 1/3 dos custos adjuvado pelo facto de provocares 1/3 da dispersão.
Meu caro. Sobre a gestão sou, assumo, bastante primário na decisão. Se o gestor é mau deve ser afastado do cargo e substituído por alguém melhor. Se esse afastamento for impossível pelo facto de o gestor ser também o dono recomendo apenas uma das duas opções: que se venda ou que se encerre a adega.

Hugo Mendes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio Madeira disse...

Outro exemplo : Baga's friends