13 de Junho de 2012

O Blogueta


Convém começar por dar uma breve explicação sobre como chegar a essa formidável posição social,o blogger.  Acreditem ou não, ainda há pessoas convencidas de que para isto é necessário saber alguma coisa sobre o assunto do qual  se fala. Talvez pela analogia ao passado e à opinião impressa que pressupunha, mas não garantia, algum aviso sobre os temas abordados.
A criação de um blog, esteticamente brilhante, pressupõe apenas 3 factores: 1º: um computador com ligação à Internet; 2º: um bom punhado de fotografias (ou capacidade de pesquisa para encontrar boas fotos de outros); 3º: algum bom gosto na escolha e costomização dos layouts que os alojadores de blogs oferecem (mas alguém escolheria fundos pretos com letras laranja?).
Está tudo pré feito, apenas temos de escolher de entre os modelos disponíveis, colocar fotos, dar um nome bacano e puf, temos um blog com um aspecto profissional. Simples não é? E tudo isto nos custa nada. Zero. Apenas o empate de um par de horas. Para os mais vaidosos, nos quais me incluo, podem sempre pormenorizar comprando o domínio. Assim, algo como www.wizardapprentice.blogspot.com poderá passar para www.thewizardapprentice.com (também sou dono deste domínio!), dando um ar ainda mais profissional à coisa. Custa aproximadamente 10€ por ano e consegue-se fazendo meia dúzia de clics no sítio certo e um pagamento com cartão de crédito. A cereja no topo do bolo é o facto de nos dar a possibilidade de criar mails corporativos (tal como o hugo.mendes@twawine.com). PROFISSIONALÍSSIMO!
Agora já entendem certo? Já perceberam que qualquer um que tenha como, sem necessidade de ter porquê, pode criar um blog. Seja lá do que for!
Para quem gosta de beber umas pingas, um blog representa uma forte atração, porquê? Ora vejamos. Primeiro, todos gostamos de reconhecimento, seja porque fazemos bem o nosso trabalho seja porque os nossos amigos nos acham a sumidade lá da rua na questão vínica. Depois, porque um blog é, para muitos uma forma de manter registo do que se vai provando, seja para memória futura ou apenas para não ter de guardar em casa aquela quantidade de garrafas vazia, auxiliares de memória para as recordações que sobram depois da degustação daquele e daqueloutro vinho. Não menos frequente, é também a esperança, lícita, mas bastas vezes envergonhada, de um futuro dedicado exclusivamente à prova de vinhos, à inundação de escaparates com guias de prova, aos convites para eventos faustosos em que o vinho apenas é desculpa para o exibicionismo dos proponentes. O mundo é o limite na capacidade de sonho de um blogger, afinal, Parker não tem sucessor, Gary V deixou as lides da avaliação e não se conhece  nenhum delfim a João Paulo Martins.
Os produtores vão considerando, cada vez mais, o papel destes agentes divulgadores de baixo custo. Muitos ainda não perceberam o que são e como deve utilizar-se dos blogs, mas estou certo que com tempo a coisa dá-se. Por isso, chovem amostras na caixa do correio, eventos mais ou menos dirigidos, convites vip e convites de imprensa, tudo isto sem um devido trabalho de acompanhamento e triagem. Mas não importa, em tempo de vacas magras há muito espaço para encher a barriga dos bloggers. Ao contrário da crítica que já não aparece por um simples menu degustação harmonizado com os nossos vinhos (e que custa uma fortuna) os bloggers ainda vêm por umas febras grelhadas, servida em louça de barro, ambiente de tasca e nada e de formalidades. Se houver mini bus e oferta de uma ou duas garrafas no fim… ui. È o céu!

No meio de tanta coisa, é natural que muita gente, ao ler os reports nos blogs dos seus amigos ou conhecidos se pergunte: Eh pá, o tipo passa uns fins-de-semana tão porreiros e ainda ganha vinho dos produtores, se calhar fazia um blog também. Muitos acabam por fazer-los. Muitos até são eloquentes. Muitos até conseguem um número de visitas interessante (isso dava um outro post). No fim, fazem um trabalho completamente insipido, escrevem para si, provam para si, muitas vezes, na certeza de que quem o lê quer é ser igual, quer é chegar a esse elevadíssimo patamar de prova. Não está minimamente interessado em conhecer os seus leitores, em perceber os seus gostos, em adaptar-se às suas necessidades. Não pode ser, isso seria desvirtuar o trabalho profundíssimo do artista. Não assumem compromissos com ninguém, seja consumidor, seja produtor (embora se tenha de fazer alguma ginástica para não quebrar o fluxo de amostras). Vão mais longe, não fazem qualquer ideia, nem precisam, de quais as necessidades do produtor, do porquê do envio de vinho ou do convite à viagem de autocarro. Não têm prazos, não sentem pressão. Existem sozinhos no seu mundo que é como quem diz aquela zona esférica com um raio de metro e meio e centro no umbigo (sim, ainda dá um diâmetro de 3 metros, mas há que contemplar espaço para a mesa, os copos e a cuspideira). Dizer que constroem conteúdos é um exagero para a meia dúzia de descritores que tiram do baralho e atiram para cima da mesa. Classificam o vinho como forma de selar o seu profundo conhecimento da pinga. Provam sem valorizar história, histórico ou especifidade. Defendem a prova cega como a única forma pura e imaculada de distinguir um vinho de outro, de lhes conferir hierarquia.  
Adivinharam. Esses tipos são os bloguetas e não obstante o tempo de existência, o numero de post, o numero de visitas, o numero de convites, o numero de amostras, os números de telefone que têm na agenda, não servem o sector, não servem o produtor nem servem o consumidor em, ABSOLUTAMENTE NADA! E andam misturados com os bloggers o que lhes dá o disfarce perfeito! 




7 comentários:

Anónimo disse...

Já que primas pela frontalidade porque não nomeias estes bloguetas é o mínimo que podes fazer, vai se haver provavelmente todos eles convivem contigo e alguns deles até pensam que os respeitas ou não passarás tu de um ENOLOGUETA à procura do protagonismo que não consegues enquanto enólogo Vá lá assobia para o lado.

Hugo Mendes disse...

Bom, começar pelo conteúdo do teu (parece que nos conhecemos) comentário (que aproveito para agradecer), tenho de apontar a ironia de me pedires para nomear o que quer que seja, quando tu não és capaz de dizer simplesmente o teu nome.
Depois, não se trata de frontalidade, trata-se da definição daquilo a que chamo blogeta (que foi uma palavra que eu próprio inventei). É apenas um exercício reflexivo.
Sabes o que isso é?

Hugo Mendes disse...

Segue uma discussão em paralelo em:
http://www.facebook.com/groups/thewizardapprentice/

Mário Negreiros disse...

Belo texto, comentário raivoso, resposta impecável.

Anónimo disse...

O termo blogueta não é da tua autoria, surge pela primeira vez da mão de um anónimo no fórum da Revista de Vinhos.

Anónimo disse...

Conversa sem proveito, sem nexo, que não leva a nada nenhum, meus amigos vão fazer ou beber vinho, se o blogueta prejudica alguém ? Não bebe vinho, não compra vinho ? vão atormentar os que lutam contra o vinho e o que bebem água.

Hugo Mendes disse...

Sinceramente, estou quase tentado a chamar-te pelo nome. Mas afinal o que te incomoda?