12 de junho de 2012

Quinta da Murta Clássico 2009 – Making of


Aqueles de vós que vão perdendo tempo a ler o que escrevinho, já se aperceberam que sou um pouco crítico em relação a Bucelas. Para mim, são os vinhos de tempo quem de facto expressa o terroir, o resto… é pedofilia vínica. No entanto agradável!
2009 esteve para ser marcado, na Quinta da Murta, como um ano em que não se faria Clássico. Tivemos problemas na distribuição dos vinhos (não nos vinhos!), que aliadas ao facto da colheita 2007 ter sido muito maior que as precedentes, levou a que a administração cancelasse a realização da referência.
Nessa altura, a colheita de 2007 já era o vinho mais premiado de sempre e o facto de estar engarrafado há mais de um ano começava a mostrar a madeira finalmente casada com o resto do vinho. inclusivamente eu, que não ia muito à bola com o 2007, começava a gostar dele.
Somando todos os argumentos em cima, pedi que me fosse concedida a compra de uma barrica de 400L e  permitido o uso das barricas compradas para a edição de 2008 do Myrtus Reserva. Concessão feita, a ideia foi aproveitar para fazer ensaios que permitissem estudo e evolução sem pressão. O vinho resultante seria, ou vendido a granel ou integrado numa outra referência de maior volume.
Até aí tínhamos usado barricas novas para a fermentação dos Clássicos, barricas essas que depois entravam no parque de tintos.
Há muito que sonhava com a construção de um parque de barricas específico para brancos (depois de ler que a casa Krug tem ou teve um parque de barricas com mais de 80 anos…. Fiquei fã). Esta era a grande chance de testar a coisa.
A maturação em 2009 foi excelente. Equilibrada, pouco alcolica. Uvas ricas do ponto de vista aromático e uma acidez interessante.
Normalmente inoculamos o vinho e só o passamos para as barricas quando a fermentação dá boas mostras de estar em pleno. Não foi excepção (penso que não será nunca!). Nas diferentes barricas, nos diferentes volumes nos diferentes tipos e numero de utilizações da madeira, fermentámos o vinho com controlo externo de temperatura.
Algo que queria testar também e, desta vez podia faze-lo, eram estágios longos em madeira. As colheitas de 2007 e 2008 tinha estagiado 3-5 meses e nunca tínhamos passado disso.
Desta vez testaria um ano. Nada de transcendente. Se o vinho deixasse, era a forma de dar estágio ao mesmo tempo que conservava as barricas para a colheita seguinte. Fez-se.
Na altura de fazer o lote, fiz segui o procedimento normal e já aqui relatado. Como sempre considerei todos os vinhos brancos da colheita de 2009 que tinha em adega. Inclusivamente a base espumante que acabou por não ser usada para o fim primeiro, mas que deu uma pitadinha de frescura ao lote final do  Clássico 2009.
Em Bucelas, na Quinta da Murta, é difícil, para não dizer impossível, trabalhar as referências “Quinta” com outra casta que não seja o Arinto. Mesmo em vinhos deste tipo, em que a intervenção do enólogo é mais marcada, conferir diferenciação é extremamente trabalhoso, mesmo quando andamos a “brincar” com volumes, temperaturas, tostas e tempos.
Fiquei por isso radiante quando percebi que a incorporação do ensaio frustrado de colheita tardia, dava ao conjunto uma harmonia, um equilíbrio e uma delicadeza mais complexa no buquet.
O risco de uma mudança radical no perfil dos clássicos fez-se sentir logo nas primeiras provas que dele se fez. Adorado por uns, preteridos por outros, animou desde o primeiro momento as conversas acerca daquilo que um vinho deste tipo deve ser. Acerca do cunho que eu, o 2º enólogo desta casa deixarei, na forma como ele se aproxima ou distância do primeiro.
È logico que por melhor que seja o vinho ele tem de se vender. Não tenho a veleidade de o comparar aos fantásticos vinhos que o Nuno Cancela de Abreu deixou nesta casa. Traz-me apenas um aprofundado prazer, saber que este marca o inicio do meu estilo, da minha responsabilidade.
Gosto de pensar que um dia, daqui a muitos anos se fará uma prova vertical dos Clássicos da Quinta da Murta e os provadores consigam, como eu consigo agora, perceber a evolução dos conceitos, dos perfiz, mas essencialmente, das zonas demarcadas também na leitura que os enólogos e gestores vão fazendo da missão e visão da empresa. Hoje, conseguimos muito bem distinguir a minha do meu antecessor, amanhã, espero que consigam ter mais variedade provinda dos meus sucessores.
No fundo… é assim que se constrói um ícone…. Ou não é?


O video de apresentação do vinho:



9 comentários:

Antonio Madeira disse...

Hugo,
Desculpa la que te diga isto, não me leves a mal, vê isto como uma critica contructiva.
Faz-me confusão ler inoculação e icone num texto sobre o mesmo vinho.
Para mim um grande vinho faz-se na vinha, caso se tenha condições de solo e clima para tal. Depois de essas condições reunidas, a arte do enologo é deixar isso tudo expressar-se no vinho.
Ora com inoculação de leveduras, deitas abaixo isso tudo.
Agora se o pretendido é fazer um vinho comercial, de venda rapida a consumidores pouco exigentes ou de volume, a conversa é outra do que a do icone. Tudo depende do pretendido.

Hugo Mendes disse...

António,
Não tens de pedir desculpa, todos temos a nossa opinião, juntamente com a obrigação de aceitar a dos outros.
Sem te querer demover, deixa que te diga que existe todo um mundo de leveduras selecionadas para o muito, para o pouco e para o quase nada.
Mas prefiro perguntar-te se achas lógico andarmos para aqui a diabolizar as leveduras e a afirmar que é da vinha que vem tudo e depois enchemo-la de tratamentos (necessários). Diz-me António, achas que os tratamentos que fazemos na vinha deixam a flora intacta?
(não leias isto como um comentário azedo e crispado, é uma proposta de discussão. Penso que há aqui base para uma conversa muito boa!)
Abraço!
HM

Antonio Madeira disse...

Na boa Hugo.
Não é diabolizar, como disse no primeiro comentario, não me faz confusão usar-se leveduras para vinhos sem prentensões.

Cada um é livre de fazer o que quer, desde que não faça passar gato por lebre.

Em relação aos tratamentos, claro que isso afecta a flora, tal como os ervicidas.
Em certos casos, os solos e os seus micro-organismos ja estão tão afectados que depois realmente para haver fermentação na adega tem de se usar as tais leveduras exogenas.
E evidente que nesses casos não se pode falar de caracter do vinho, de tipicidade ou de expressão do terroir, sem se estar a mentir...
Não achas?

Hugo Mendes disse...

Não inteiramente,
Uso leveduras que me garantam a expressão da casta, do terroir. Qualquer Quinta da Murta que proves de ano diferente, mesmo no Inox (aquele que tem a enologia mais simples) encontrarás todas as diferenças do ano e todo o varietal.
Por outro lado podes ter vinhos em que ano após ano não notas nada de diferente.
É tudo uma questão de equilíbrio e algum bom senso.
Por outro lado, hás-de reparar que esse tipo de abordagem mais naturalista (na adega, porque na vinha….) só é possível quando o produtor está muito chegado à enologia.
Para finalizar este argumento, conheço muitos casos em que a levedura indígena não adianta muita coisa ao vinho.
Mas é uma questão de escolher com coerência. Eu, nas condições em que trabalho (não sendo dono do dinheiro que é investido) não arrisco leveduras indígenas (já mandei 5000L para a destilaria há 2 anos por causa disso!), mas também não escolho leveduras que marquem o vinho ou que o conduzam para um determinado lugar.
Uso leveduras tendencialmente varietais ou neutras.
Agora se me arranjares um produtor que faça vinha biológica, ai já falamos de maneira diferente… mas não apanhei nenhum desses ainda! lol

Antonio Madeira disse...

Essa questão esta completamente ligada a viticultura.
Claro que se utilizas (como é o caso da quasi totalidade dos produtores em Portugal) herbicidas e fungicidas aos montes (em particular sistémicos), compreendo que tenhas de mandar litros e litros para a distelharia ao não inoculares.

Como disseste, no caso de uma viticultura biologica (ainda mais se for biodinamica) ai os solos e a sua flora ja estão cheios de vida e permitem assim o desenvolvimento das leveduras indigenas necessarias a fermentação completa.

Mais uma vez a expressão so terroir so pode passar por leveduras desse mesmo terroir. Leveduras exogenas, mesmo neutras ja não é expressão desse solo.

E como disseste, para se seguir este caminho, alem da parte da viticultura tem de se ter sabedoria a nivel de adega, de enologia. Não é por não se usar leveduras exogenas que não se é bom enologo, bem pelo contrario.

Tudo isto da imenso trabalho, mas é condição necessaria a excelência.

Para finalizar, compreendo que se use como garantia, como segurança para quem investiu tanto a nivel financeiro. Tudo bem a esse nivel. Compreendo.
Mas depois so peço que respeitem o consumidor, não o iludindo com discursos que não correspondem a realidade.

Antonio Madeira disse...

Gostava de ver um dia o reconhecimento de Bucelas e como gostas de experimentações, faço-te uma sugestão.
Tenta convencer o teu patrão de experimentarem viticultura biologica (se for biodinamica ainda melhor) numa parcela durante alguns anos, mantendo o resto em convencional. Fermenta a parte as uvas dessa parcela, sem inocular o quer que seja e depois constata os resultados. Teras provavelmente agradaveis surpresas.

Hugo Mendes disse...

António,
Mas eu sou o mais apologista de que o consumidor saiba tudo, bato-me por isso à anos! Nunca escondi que sou defensor de leveduras selecionadas para as condições gerais que temos em Portugal.
Penso que acima de tudo temos de integrar o pensamento no modelo seguido. Enquanto Portugal não se virar para as produções de nicho, é impossível pensar em fazer mais do que brincadeiras à volta de leveduras indígenas.
Mas atenção, não te esqueças que os riscos de usar indígenas são tantos que isso se repercute no preço de um vinho. normalmente não custará 5 nem 10€.
Não é possível fazer culturas biológicas ou biodinâmicas em parcelas próximas de outras que são químicas. Logo,….
Depois, dificilmente consegues garantir que, numa adega em que se utilizem selecionadas as leveduras que te vão fazer a fermentação ao meio são as nativas.
Mais ainda, mesmo sabendo dosear o SO2 suficientemente bem para promover a morte das leveduras piores, não tens garantia nenhuma de que as que tomam conta do meio são as que tu queres.
Ou seja, do ponto de vista da microbiologia, pura e dura, cada fermentação é uma lotaria. Aceito que se faça. Sinceramente não conheço resultados assim tão marcantes que me façam mudar para esse tipo de enologia… sem que antes se mude a viticultura!

Antonio Madeira disse...

Hugo, na borgonha encotram-se muitas vinhas bios ou lado de convencionais, e os resultados aparecem.

Claro q tudo isto e para um nicho, como sempre nô caso de um icône. So me limitei a tentar Responder a pergunta q deixaste nô fim do post...

Hugo Mendes disse...

Meu caro, mas as diferenças de ponto de vista são interessantes, a discussão deles são fundamentais para a nossa propria evolução. só te tenho a agradecer por teres exposto o teu ponto de vista.

Portugal não é Borgonha, simplesmente porque os Portugueses ainda não quiseram começar esse trabalho.
encontrarás poucos produtores (%) que estão disponíveis a enveredar por esse caminho.
é por isso que te digo que os enólogos terão de olhar para a realidade tal como ela é agora!