6 de agosto de 2012

A mala do meu avô


Chego a casa  de mais um dia de vida adulta. Deixo a mala ao acaso no chão do escritório. Lado a lado com uma outra. A mala do meu avô.
Por qualquer motivo que desconheço, talvez pela letargia nostálgica de fim do dia, não sei, dou por mim a pensar no que as une e no que as separa.
A minha, moderna, de uma marca XPTO toda preparada para sismos e cataclismos. A do meu avô, simples, deformada, de pele velha e gasta, única herança que me deixou. 
Viajo no tempo.
Não cabem aqui e agora,  as peripécias que tive com ela. As recriminações que levei por ir lá bisbilhotar. Ali cabia o almoço mais os pertences laborais nos dias de semana e toda a minha imaginação nos dias de descanso. Foi mala de médico, de advogado, de empresário, de professor, ... Hoje guarda uma mão cheia de fotos, um xaile da minha avó e uma infinidade de recordações da minha infância.
Olho para ela e recordo os momentos em que o meu avô me levava para o campo, semanas antes de abrir a época de caça. Ia ver por onde paravam os bichos. Adorava ir montado na sua mota (tinha um capacete  e tudo!), sentir o vento na cara e parar aqui e ali para passear no meio de lavrados, estevas, mato,…. Tudo o que pudesse esconder as toca dos deliciosos coelhos que a minha avó cozinhava como ninguém, ou possíveis poisos para belíssimos tordos que ainda hoje me fazem salivar de saudade a cada ceia de Natal.
O meu avô gostava de ervas aromáticas e ensinou-me a identificar muitas delas. Confesso que nessa altura queria era brincar e "esparvoar" à rédea solta. Aqueles passeios campestres eram o pretexto ideal.
Na minha casa, o vinho sempre foi diabolizado, a minha mãe odeia-o e por isso, acho que foi na casa de meu avô que aprendi algum respeito pela coisa vínica. Senhor de uma garrafeira de madeira, construída, penso, por suas mãos, alojava algumas preciosidades (para ele claro) provindas de engarrafamento próprio de uma qualquer pinga comprada em bom ano e a bom preço a um  adegueiro ou proprietário de vinha. Adorava acompanha-lo às adegas  ao pé de casa onde  não ia só para comprar vinho, ia conversar e deixava-me por ali a explorar aquelas casas obscuras e fascinantes com as pipas velhas cobertas de sarro e  manchas de vinho que sangravam das fendas que a idade e o mau trato deixavam aparecer. Lembro-me do cheiro do cebo, do imenso aroma a flor (doença do vinho) que empestava as adegas e eu, confesso, achava delicioso.
Foi num alguidar de sua casa que pisei pela primeira vez. Tinha um pequena prensa e tudo. Um sumo palheto, provindo de uvas "adquiridas" ao rabisco, "fervia" num bidon de plástico para ser “aberto” no São Martinho. Nada de espalhafatoso, nada de pomposamente belo. Aqui a beleza era mesmo a simplicidade, o amor à terra e o prazer de fazer, de ver nascer.
Olho a mala do meu avô e apossa-se de mim uma emoção pateta, indigna de homem feito.  Tenho saudades daqueles passeios. Tenho saudades de me aborrecer com ele por não me levar a caçar. Tenho saudades de lhe fugir quando me tentava ensinar os nomes das coisas.Tenho saudades da leveza da vida infantil.Tenho saudades dele.




6 comentários:

Rita B. Maia disse...

Adorei, Hugo. Talvez tenham sido estas experiências, e as conversas que ouvias, que te levaram a cultivar as provas conversadas, as provas-debate que te distinguem de tanta gente no mundo do vinho.

Eu gosto muito de ir às lojas dos produtores, porque tenho sempre a esperança de comprar vinhos que tenham ora uma história ora um argumento que os diferencie. Infelizmente, muitas vezes não há cá conversas. As provas e as compras "querem-se" cegas, surdas e mudas.

Jorge Nunes disse...

Gosto mais da mala do avô.

Parabéns pelo texto, está muito giro.

Hugo Mendes disse...

Olá Rita, Obrigado pelo comentário.
Penso no vinho como algo pertencente ao nosso percurso cultural. tanto que só muito tarde decidi fazer disto vida.
Nós, como os vinhos somos um somatório de pequenos pormenores. sem duvida que estes são alguns dos meus!
Da minha parte... sempre disponível para explicar todo onde meto a mão! lol!

Hugo Mendes disse...

Obrigado Jorge!

francisco cunha disse...

Olá Hugo Mendes,
Muito apreciei esta sua crónica. Acho-a profundamente humana e sincera.
Embora este comentário seja a minha estreia, tenho vindo a acompanhar o seu trabalho. Está no caminho certo. Continue. Os enófilos, militantes ou não, agradecem.
F.Barão da Cunha
enófilo militante

Hugo Mendes disse...

Caro Francisco,
As suas palavras de apoio são importantes, acredite. Obrigado!
Assim farei!