18 de novembro de 2012

Tradução do nome das castas = actividade de alto risco!


Este tema é tão inócuo que muitos de vós acharão que não valeria a pena falar dele.
É possível que tenham razão!

Quando cheguei a Bucelas foi-me ensinado que os vinhos daqui, pelo menos os que quisessem apresentar D.O.C. (agora D.O.P.) no rótulo teria de ser feitos com uma % maioritária (85 a 100) de Arinto e o restante, recorrendo apenas a duas castas Rabo de Ovelha e Esgana Cão.
Fácil de entender. Certo?
Habituei-me à graçola (aprendida por osmose), comum aos produtores na região, de traduzir os nomes destas duas últimas para animação do publico internacional. A primeira ficaria Sheep Tail e a segunda Dog Strangler.
Ora, nunca liguei muito a isso, até porque a malta dizia estes impropérios, as visitas riam e seguíamos para a adega - em abono da verdade devo afirmar que sou adepto de que os nomes não se traduzem.

Mas esta mente não é capaz de um pouco de sossego, de permanecer com os assuntos arrumados e, aos poucos fui achando que estrangulador de cães não era, com certeza um nome para uma casta, até porque é sabido que que os portugueses são exímios a dar nomes, mas não de forma "leviana". Há sempre um elemento ou uma característica da uva ou do vinho que faz a ligação com a nomenclatura popular (que deveríamos cuidar como património cultural!).
Não temos na Quinta da Murta, encepamento de Esgana Cão, pelo que nunca provei um vinho extreme da casta. Sei que existiu aqui e que foi reenxertada por ser problemática e pouco abonatória na adega. Nada mais sabia. Na região, ninguém engarrafa (que eu saiba) a casta só por si e, não conheço quem a fermente em separado das outras.
A luz fez-se quando, certa manhã de inverno provava uma base espumante de Arinto com uma acidez fortíssima.  Ao primeiro "golo" saí a tossir, numa convulsão seca e irritante que me ruborizou a façolha e quase fez saltar os olhos das orbitas. Pensei: "quase pareço um cão com esgana".... - Alto!
O nome não seria Esgana Cão, mas sim Esgana de Cão, a doença canina que põe os animais no mais aflitivo desespero. Faz todo o sentido. O vinho é tão ácido que põe a malta a tossir, e pumba, o popular associa à doença e pronto "habemus nomen"!
Esta alusão não é 100% comprovada. Não encontro bibliografia que fale disso, embora as pessoas que vou consultando me confirmem isso mesmo que a alusão é mesmo ao cão a tossir devido à acidez e não um tipo a apertar o papo ao pobre animal.
Por isso mesmo, a tradução correcta deverá ser mesmo Distemper.
Reposta a verdade, dormirei mais tranquilo.

4 comentários:

Anónimo disse...

Só para lançar mais confusão, junto mais um nome de uma casta tinta bom para traduzir: "colhão de galo". Quem se lança no desafio? "Cock's ball"?

Hugo Mendes disse...

Nem me atreve! Felizmente ... eh eh!

Diogo Rodrigues disse...

Mas se não traduzimos os nomes das castas estrangeiras que vieram para Portugal porque devemos fazer o mesmo às nossas ainda por cima estando elas cá?

Perdemos logo parte do nosso encanto ao obrigar os estrangeiros a dizer palavras com "ão".

Hugo Mendes disse...

E já que estás num registo mais sério devo dizer-te que os jornalistas estrangeiros também não nos traduzem os nomes.
mas é uma graça....; )