12 de Dezembro de 2012

Bordéus - Post II


Visita a Produtores
Depois de uma pequena aventura para levantar um carro alugado - que a mim me parecia pouco maior que um porta chaves, mas que a senhora da Europcar garantia tratar-se de um parente dos Ferrari, tal o valor da caução cobrada - lá rumámos a norte, à procura da terra prometida.
Sara, a minha mulher, respeitando um acordo pré nupcial - no qual, sob pena de pesada coima, terá sempre "direito" ao volante desde que o trânsito a enfrentar obrigue a semáforos e filas de trânsito - conduziu o "bólide" até ao local combinado com o  João Pedro Araújo , nosso guia e um profundo conhecedor do Bordéus vinhateiro. Estudou lá, entende a região e isso nota-se na escolha dos caminhos e das paragens para nos mostrar uma vinha, um produtor especial por isto, outro por aquilo, aquele local de onde só se vê vinha para onde se olhe, dos tipos a podar,das máquinas a cortar,.... ufff! 

Primeira paragem: Cos D'Estournel (Deuxième Grand Cru)
Fomos recebidos por uma relações publicas que nos mostrou as instalações. Explicou o modus operandi  e toda a filosofia envolta naquele produtor. Esta senhora, para relações publicas pareceu-me saber mais do que muitos técnicos. O que vos consigo dizer é isto, tecnologia de ponta, se existir, eles têm. Tudo obedece aos mais criteriosos padrões estéticos e arquitectónicos.  Dizem também que qualitativos, mas, para ser franco, a qualidade não precisa de tanto (digo eu que sou obcecado pela optimização, pelo pormenor e pela assepcia). Uma adega que eliminou a utilização de bombas. Que tem elevadores para as cubas e uma belíssima estrutura que permite receber as visitas de forma principesca sem que estas interfiram no trabalho (que não vi. Não estava uma pessoa a trabalhar naquela monumental adega). A sala onde guardam as colheitas antigas é uma digna sala de museu e tivemos o privilégio de provar dois vinhos. Cos D'Estournel 2008 e Les Pagodes de Cos 2007. Não vou sequer tentar descreve-los. São ambos feitos de Cabernet e Merlot. Suaves, aveludados,  pouco encorpados mas com força e presença  que não consigo sentir na maior parte dos vinhos Portugueses. Sou cada vez mais fã deste tipo de vinhos (não necessariamente Franceses). Delicadeza é a palavra que mais facilmente me vem à cabeça para os definir.


Cos D'Estournel e Les Pagodes de Cos
A volta de carro pela região é algo fantástico e indescritível. Vinha por todo o lado, um solo que parece ter sido feito por mão humana. "Pedrinhas roladas" amontoadas em cima das outras. As vinhas entram pelos olhos em plantas frágeis e raquiticas.  Mas não se enganem, com uma condução exemplar. Ali, tive oportunidade de ter uma ou duas aulas de viticultura dadas pela Teresa, a mulher do João, que me explicou, entre outras coisas que, a viticultura francesa é tão desenvolvida e tem tanto tempo de selecção de clones que se deparam hoje com uma profunda erosão clonal. Quem teve formação em genética, mesmo a mais simples sabe que uma das premissas para a extinção de qualquer variedade genética é precisamente a falta de variabilidade. Mas isso são daquelas coisas que a nós nos vidram e que a vocês pouco interessa, certo? Calar-me-ei!


A poda nas vinhas do Medoc
Almoçámos num restaurante pequeno mas muito charmoso, chamado, Bontemps. Um bom sitio para parar, descansar e comer no Medoc. Tivemos aqui a oportunidade de provar um outro tipo de vinhos, os de apelação Cru Artisan. Gostei da experiência e mais ainda de perceber o porquê da criação desta designação que, não só organiza as coisas como demonstra algum respeito pela abordagem deste tipo de projectos mais pequenos, mais personalizados e mais... humanos. Não vou fingir, os perfis são muito mais rústicos, menos polidos, mas igualmente interessantes. Bons. Tive a sorte ainda de poder almoçar com o produtor desses vinhos,o simpático Christian Brun, amigo do João e nosso companheiro nessa jornada pelo mágico mundo das adegas e das produções bordalesas. Foram dois Châteux de Lauga, colheitas 2008 e 2009.
Numa das grandes coincidências da vida, conhecemos uma família Brasileira com um projector bem interessante, que vos desafio a conhecer e que mais à frente, depois de me encontrar com eles (faço questão de me encontrar com eles quando passarem por Portugal) falarei aqui!


Christian Brune os seus Châteux de Lauga
Próxima paragem: Chateau Dauzac (Cinquième Grand Cru)
Esta produção apresentou-se aos meus olhos como uma adega grande mas modesta, onde o equipamento existe para servir o vinho e nada mais. Não me pareceu que fosse uma adega feita para mostrar, mas  foi-nos explicada (sim, explicada é a palavra!) pelo próprio "directeur d'exploitation". Ao fim das primeiras explicações percebi que a minha primeira impressão estava apenas ofuscada pela grandiosidade de Cos D'Estournel. Esta adega é, diria, mais funcional, feita para fazer vinho. Mas com tudo o que precisa para o fazer bem. Ponto. Uma sala de barricas maior do que a adega propriamente dita e com gente a trabalhar. Pudemos meter o nariz dentro das barricas novas.... foi muito bom! Aquela sensação da madeira estreada com vinho novo. O desfasamento entre a frescura verde do vinho e o doce da queima acabada de molhar, mas a deixar antever uma harmonia futura. 
Nos vinhos, nota-se muito a diferença de classificação dos solos (eu só liguei de saber quais eram agora, enquanto escrevia o post). Estes mais pesados, mais densos, menos complexos que os provados em Cos D'Estournel. Ainda assim num patamar qualitativo bem elevado. Pediam quanto a mim, algum respeito e um pouco mais tempo de cama.

Labastide Dauzac 2007 e Chateau Dauzac 2008
Confesso que a partir daqui comecei a acusar cansaço. O dia estava a ser longo e a informação para processar imensa. Contudo, tenho de tirar o chapéu ao guia, soube guardar o melhor para o fim.
Chegámos a Château Gruaud Larose (Deuxième Grand Cru) e já era noite. Fomos recebidos por um simpático senhor de abordagem simples, indumentária de trabalho e uma descontracção apenas comparável ao seu genuíno sorriso. Tratava-se de Phillipe Carmagnac, o "Maitre de Chai" . Tratou-nos como se fossemos gente de casa.
Visitámos tudo. Tudo me maravilhou. Uma adega de balseiros, uma outra de cimentos (esta mais usual para os meus olhos), uma pitada de tecnologia, belas ideias (falarei de uma em especial num outro post) e tudo, muito bem regado com uma imensa e maravilhosa sala de barricas. Para ser franco eram 3. Indescritíveis.  Na segunda, onde estavam as barricas do ano, havia uma sala de prova como que se de uma varanda baixa se tratasse.


Château Gruaud Larose


Château Gruaud Larose
Acabámos não com uma, mas com duas cerejas no topo do doce. Uma prova de barricas de 4 das 5 castas da casa. Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e  Petit Verdot (a 5ª não provada é Malbec). Experiência interessante. Provar vinhos acabados de fermentar mas que já mostram um perfil tão bem delineado e uma subtileza tão interessante que me faz  balançar no facto de ser abertamente contra as provas em primeur.


Château Gruaud Larose - Phillipe Carmagnac e João Pedro Araujo (Casa de Cello)
Para fechar com chave de ouro, entrámos no cofre da casa e pudemos pegar em algumas das suas jóias  Uma honra impagável. Pude tocar em vinhos que foram feitos no ano em que nasci, mas confesso que a imperfeição das garrafas dos 1800 e troca o passo me impressionaram muito mais.


Château Gruaud Larose colheita 1815

E pronto, foi isto. Um dia que pareceu terem sido 3 ou 4, tal foi a informação que tive (e ainda estou) a processar!

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