27 de dezembro de 2012

Espírito nos Natais passados

Foto usada a partir daqui

Passou o Natal e, agora me lembro, não enviei uma mensagem ou telefonema. Limitei-me a receber. Não quis saber de nada nem de ninguém. Estou com pouca ou nenhuma paciência para estas épocas, cada vez mais fingidas, frívolas e superficiais. Cada dia mais forçadas. 

Hoje fui trabalhar enjoado. Pergunto-me para que temos necessidade de comer tanto nestes dias. Não sei se também por isso, mas estou com o espírito a condizer com o meu estômago. Aziado, amargo,…. Blhac! Blhac! E…. Blhac! A “boca sabe-me” a papel de música (que como toda a gente sabe é um descritor para a oxidação)!

Sinto-me um verdadeiro Grinch. Não suporto olhar para as decorações. Não suporto o relembrar das tradições. Não suporto a memória dos Natais da minha inocência.
Sem muito esforço, sinto o cheiro das azevias e coscurões, feitos no primeiro dia de férias escolares. O deliciosamente mau arroz branco da avó Isabel. A negação constante da avó Elisa. Os sonhos. O bacalhau. O aquecedor a gás. Os vinhos que o meu avô Joaquim comprava a granel (em garrafões) para depois envasilhar, meticulosamente, em garrafas de 5 estrelas (as melhores, segundo ele!). Eram nestes dias bebidos em copos sem peneiras. Também não havia esforço e moderava-se na contenção.  Tudo numa complexa simplicidade de sabores, aromas e sensações que ainda sinto cravados na memória olfactiva.
O momento perfeito das 23 horas com abertura dos presentes. As crianças (eu, portanto!) sabiam que o pai natal não existia e sabiam também que aquele embrulho vinha da mercearia da esquina. Local onde se comprava tudo, desde o avio do mês aos presentes de aniversário e Natal. 
Depois, saltava para a mesa a frigideira de tordos que o avô fazia questão de fritar. Eram caça sua ( foi o maior caçador que conheci!) e recordo que ele, juntamente com o meu pai, me tentavam ensinar como se comiam, à homem, estes  pequenos pássaros. Entre rizos diziam: “Então tu não vês que isto é para comer tudo? Ossos e tudo!” Mas eu não era capaz (ainda hoje não sou!). O cheiro da fritura misturava-se com o sabor especiado da carne e um leve travo de chumbo que sentia pouco antes de descobrir na boca a esfera que matara o bicho. Ainda hoje sou capaz de jurar que era real, embora tenha a certeza de que não passava de sugestão.

Fiquei com a toalha de mesa dos Natal na casa da minha avó, mas perdi parte as pessoas que se sentavam à sua roda. Uma troca parva e injusta.

Foi um ano difícil.
Sim!
Talvez seja disso! 


7 comentários:

Diogo Rodrigues disse...

2012 foi de facto um ano complicado. Abraços e força.

Ricardo freire disse...

Caro Hugo Mendes

ao fim de muitos posts lidos, este hoje tocou-me mais um pouco e resolvi comentar.

Como eu me identifico com as tuas palavras...

O Natal hoje em dia a mim não me diz nada. Prendas? Decorações? árvore de natal? beijar o menino na missa?...Esqueçam, isso ficou tudo para trás.

Será a idade, aquela velha doença?
Será da tão falada CRISE?
Serão saudades do tempo de criança?

se calhar é tudo isto e muito mais.
se calhar não é nada disto, é só um dia mau.

Deixa lá, bebamos um espumante, pode ser que passe esta azia...

um abraço de um adegueiro do Ribatejo

Hugo Mendes disse...

Meu caro Diogo. Olhamos sempre para a frente. Há uma vida inteira à nossa espera.Abraço e força também para ti!

Hugo Mendes disse...

Caro Ricardo,
Deixa-me muito feliz saber que acompanha o blog e que gostou do que leu.

Concordo consigo: "se calhar é tudo isto e muito mais".

Mas é como diz, bebemos um espumante e afogamos esta azia no vinho.
Você saberá bem que, na pior das hipóteses, na nossa profissão, vai-nos valendo isso! eh! eh!
Um forte abraço
Hugo Mendes

Pingus Vinicus disse...

Estimado amigo, o Natal desde há 10 anos que é uma época complicada, que desejo que passe depressa.
Um forte abraço
Rui

Hugo Mendes disse...

Para ti também Rui!

Anónimo disse...

Não me importo que me possam criticar sobre aquilo que escrevo. Não tenho vergonha de assumir que este blogg é neste momento o meu escape. Tenho consciência que muitas vezes o que exprimo nada tem haver com o que lá diz, mas hoje peguei nesta memórias perdidas e fez-me parar na palavra |perda|. Apesar de não se notar choro por dentro uma perda. O meu fiel companheiro de há 10 anos ( o meu chichuaua). Perguntarão o que raio deste comentário tem haver com o vinho. è simples ( o autor deste blogg como toda a gente já sabe que é extraordinário), permite a pessoas como eu possa expandir-me no pensamento por que ele criou a liberdade de falar. Diriam-vai a um psiquiatra. Até poderia e até trabalho com alguns muito bons, mas...quando se tem profissões em que constantemente arriscamos a vida, ou temos a cabeça a prémio geralmente não criamos laços. Já sei que vão dizer´..é uma solteirona. Sim. Daí a minha profunda ligação a um cão. talvez esteja errada por ter amado um cachorro desta forma. Se a nossa familia não compreende o nosso trabalho, como eu poderia esperar que uma pessoa de fora o fizesse. lamechiches. Talvez. Mas hoje a alma pessa. E o no meo coração existe um buraco enorme...