30 de janeiro de 2013

E você? Percebe de vinho?


Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, não gosto de ser identificado como enólogo sempre que estou numa mesa de convivas ou numa mostra popular de vinhos.
A razão é simples. Quando esta questão é abordada, perde-se o à vontade na apreciação da bebida. Perde-se a espontaneidade e todos se sentem algo envergonhados por não conseguirem identificar a  "relva cortada ainda com o orvalho da manhã", ou "um claro Bordéus de 1982, proveniente da margem esquerda, de uma zona alta". E depois?  Eu também não e ando aqui!
Acabo por ouvir sempre a mesma frase. Confesso que me dá urticaria quando me dizem:


"Eu não percebo nada de vinho!"

Respondo a isso brincando, encetando um diálogo do género:
Hugo: Gosta de beber vinho?
Consumidor pseudo desinformado (CPD): Sim, muito!
Hugo: Quando bebe, há vinhos de que não gosta?
CPD: Sim, sim! Há alguns que não gosto. Olhe por exemplo: Este, aquele, o outro aqueloutro,...
Hugo: Compra o vinho que consome?
CPD: Sim, como esperava que fosse?
Hugo: Dentro do que pode, compra o que gosta mais??
CPD: Pois é claro!
Hugo: Então, sabe tudo o que precisa saber sobre vinho!

O ambiente costuma desanuviar e as festas prossegue. A verdade é que no final do 3º ou 4º copo já ninguém quer saber da apreciação para nada.

Mas será que é mesmo assim? Será que temos de confiar apenas na experiência do nosso palato, sem mais o quê?

Deixo-vos uma nota bibliográfica, escrita por um dos mais importantes wine writer dos nossos tempos, Hugh Johnson. No pequeno, mas delicioso livrinho, "Como apreciar vinhos" podemos ler, logo no arranque. Cito:

"Não olhe para o rótulo. Por momentos, esqueça o preço. Deixe-se levar por uma coisa apenas: gosta muito ou pouco do que tem no copo? Esta é a primeira regra para apreciar um vinho, embora seja mais fácil enunciá-la do que pô-la em prática. Como sabe se gosta muito ou pouco? Está longe de ser uma pergunta desnecessária."

Este é o mote que o autor dá para justificar a leitura e assimilação de conteúdos da obra. Mas não deixa de fazer sentido num plano geral.
Facilito-vos a vida. Ok, tendo em conta que os grandes vinhos representam até 5% do total produzido (este numero é da minha cabeça!). Vamos partir do principio que nestes, a "correcta" apreciação está dependente de um conhecimento mais aprofundado.
Mas e dos outros, dos mundanos 95%. Para os apreciarmos precisamos mesmo saber distingui-los, classifica-los, hierarquiza-los, ou.... por outro lado, basta mesmo só abrir a goela e lá vai disto?
ESCUTO!

7 comentários:

momenta disse...

Não comentei na altura este post, mas a reflexão que provocou acabou por se integrar parcialmente num post meu:

http://momenta.blogs.sapo.pt/78360.html

Ricardo Cruz

Hugo Mendes disse...

Muito obrigado pela menção ao meu tasco! : )
Fico feliz por ter provocado essa reflexão!
hm

Rui Oliveira disse...

Hugo é interessante a maneira como apreciamos um vinho e como diversos factores nos influenciam numa prova. Tambem penso que por vezes o nosso palato vai-se moldando com o que lemos e provamos desde o inicio. Por exemplo iniciei-me a pensar que um Syrah,merlot ou cabernet seriam os melhores vinhos e grosso modo acabou por ser uma escolha inicial na compra de artigos. Neste momento acredito em regiões e pessoas do que propriamente castas...e compro vinho baseado nessa reflexão. E já provei vinhos do Hugo :)

Hugo Mendes disse...

Caro Rui,
Lembro-me de uma conversa que tivemos no forum da Revista de vinhos sobre os "meus" vinhos. Muito obrigado.
Sinceramente, acho que quanto mais soubermos mais prazer conseguimos retirar, mas, até isso acaba por ser relativo!

Anónimo disse...

Já é um habitué nos poucos momentos de descontracção dar uma olhadela a este site. Vou correndo os titulos e de acordo com o meu estado espirito gosto de ler um assunto( claro que isto não é a biblia). Hoje o meu temperamento está no grau de fogo, ou seja daquele género de encostar alguém á parede e dar um sopapos. O que me chamou a atenção deste texto é uma verdade bem dita, gosto de beber, não sou um expert mas sei apreciar o que me vai pela goela abaixo se é bom ou não. Hoje apetece me algo bravo, vamos lá ver se consigo encontar algo bom para o meu palato e para o meu estado de espirito...Alda

Hugo Mendes disse...

cara Alda.
Isso é fácil, Um vinho fortificado ajuda. Tem uma boa dose de açúcar e muito álcool para acalmar o espírito.
è só escolher entre as belíssimas ofertas que temos no nosso país! ; )

Anónimo disse...

Olá.Estou numa moleza de tirar o chapéu, embora já esteja a começar a semana de trabalho. Bem foi um fim de semana espectacular, dormir até ao meio-dia, mandar a limpeza da casa para as urtigas ver filmes, ler revistas de fofocas, montar a cavalo e andar perdida pelos montes de bucelas, ou seja esquecer o mundo. Sim foi bom. Hoje recebi amigos do norte. Eu sou da zona de guimarães, ali duma terra perdida cheias de quintas. Foi uma almolçarada mas o essencial foi provar um verde da zona de barcelos de amigos meus que possuem para ali umas quintas. Puxa já não estou habituada a eles. ultimamente tenho fujido para os alentejanos uma paixão que já vem de algum tempo. Qunato à tentativa de comprar vinho na sexta-feira ( não ocorreu ), para além de não ter tempo ( sou daquelas que sabe que horas sai para o emprego mas nunca sabe quando regressa ou se regressa) mas conpensou. Perdi me nos verdes e na nos churrascos, nas gargalhadas, enfim a boa disposição reina hoje para começar mais uma semana. Alda