3 de junho de 2013

Produção de vinho. Do garrafão à garrafa.

Foto captada do livro Wine, de André Dominé - pag. 675


Este post, não passa de um exercício mental. Não recorri a nenhuma consulta bibliográfica e alimentei-o das minhas percepção, observações e interpretação dos factos. Posto isto fica o aviso. Isto não tem validade cientifica.

Factos ligados à produção de vinho em Portugal:
- Produz-se aqui vinho, pelo menos desde a época em que os Romanos, percursores da loucura Cavaquista, andavam pela península a construir estradas. 
- Somos dos países com maior numero de castas autóctones.
Temos a mais antiga região demarcada do mundo. 
Temos um clima perfeito para a produção de vinhos.

Seria de esperar, por isso, que Portugal tivesse uma longa história ligada à produção de vinho, com raízes e tradições passadas e melhoradas entre gerações. Seria de esperar que estivéssemos entre os lideres na investigação e desenvolvimento da coisa vínica. Seria de esperar que estivéssemos no topo do reconhecimento mundial.  Pois é, mas à excepção do Porto e Madeira (outros amiúde e em momentos marcados no tempo) essa realidade, não existe. Ou pelo menos eu não a conheço.

Permitam-me o desvario.
Nós, Portugueses, somos uma "raça do camandro". Não gostamos nada de esperar e entendemos ser mau negócio semear a colheita dos nossos netos (esses mancebos tratantes). Tudo tem de ser feito na hora e os resultados são para ontem. Malta de sangue quente. Latinos, pois então!

Centremo-nos na segunda metade do Séc  XX. 
Muito, muito, muito  resumidamente, o que andámos a fazer foi uma bebida alcoólica que não tínhamos dificuldade em vender, fosse ela boa ou má. Entre as tabernas e as colónias "mamava-se" tudo. E ainda pediam mais. Tempos bons onde meia dúzia de "pipos" davam para  sustentar a família, pagar o estudo aos filhos e ainda proporcionar umas bebedeiras com os amigos. 
No ultimo quartel veio a desgraça (do vinho, entenda-se). As colónias foram quase todas entregues aos seus donos e internamente o vinho foi diabolizado até à exaustão, encabeçando todos os demónios do alcoolismo e suas consequências sociais. De um dia para o outro, o mercado encolheu drasticamente. Com a procura de novos mercados, percebeu-se que os vinhos não estavam ao nível dos melhores do mundo como os pequenos "Hugo Mendes" cresceram a ouvir e acreditar. Eram tecnicamente pobres, com muitos problemas de concepção e claramente resultantes de uma viticultura muito atrasada.
Urgia uma reacção. Clamava-se por soluções. O que fazer?
Uns "putos" acabados de chegar de França (uns foram estudar enologia, outros foram apenas passear e comprar diplomas), trouxeram a promessa  da cura para os males da falta de aceitação dos vinhos no mercado "estrangeiro". 
Passava por acabar com o tradicional e "plantar"  francesismos.  Desde a adega à vinha, passando pelas castas, as técnicas e principalmente o tempo de espera, tudo refundado. Em alguns casos refundido. Bastas vezes refud... é melhor não continuar!
A entrada para a C.E.E. veio mesmo a tempo de injectar dinheiro à pazada,  a fundo perdido, nesta orgia báquica.
De todo o lado  apareceram  "terroirs" especiais que mereciam ser demarcados e separados dos demais. Organizou-se um complicado mapa de retalhos. Uma base de trabalho útil para o marketing do vinho Português. Foi? 
Os vinhos tiveram sucesso... cá dentro!
Os consumidores saídos da repressão politica andavam doidos com a Coca Cola, o Marlboro e as castas com nomes difíceis de pronunciar. Foi a loucura! 
E a exportação?
Não sei, parece-me que subiu, mas não para os níveis aconselhados. Nunca para os valores pretendidos.
È preciso entender que respeito  as opções tomadas (embora discorde de muitas delas) e consiga respeitar quem as tomou. Foram frutos da época. Delírios de um pais de pobres espíritos. Natural a quem passou mais de metade de um século com os olhos vendados sem ver a luz do mundo.
Quando olho para trás, e com a vantagem que o tempo me dá, não consigo deixar de reparar na ironia trocista de tudo isto.
Reparem, foi precisamente na altura em que mais denominações de origem se criaram que mais denominações de origem se destruíram.  Eu explico. Ao mesmo tempo que se reconheciam determinados locais como especiais, os produtores decidiam cortar radicalmente com o passado e plantar castas estrangeiras, adoptando praticas de viticultura e enologia que lhes permitissem "ombrear" com os vinhos da moda nos mercados onde queriam entrar (prometo que não falarei do estudo Porter). Infelizmente, para o grosso dos produtores PT, ombrear significava/significa copiar!
Resultaram  vinhos fotocópia que, independentemente da origem, faziam pensar que se tratava de um único lote, engarrafado com diferentes rótulos. Foi a loucura dos enólogos consultores, das receitas e da homogeneização. Foi tempo de queimar identidade. A origem parecia envergonhar. Se pudesse passar por um vinho Australiano, Neozelandês ou Sul Africano... tanto melhor. 
Percebem agora a ironia da coisa?
Agora, vendia-se vinho e a fórmula parecia estar a resultar. Virou moda ser produtor. 
Depois vieram os exageros. Típicos do processo de aprendizagem (neste caso, tanto da enologia como do consumo). Foram as monocastas, os vinhos seco que pareciam doces, as barricas engarrafadas, a extracção/concentração, e outros devaneios enológicos, também com o intuito de enganar o tempo.
No fim, parece que resulta, vão-se pagando as contas, vai-se satisfazendo o consumidor, vai-se permitindo financiar a próxima colheita, certo? 
Errado!
No fundo, esta politica empresarial, não constrói nada. Não desenvolve identidade, não cria valor ao negócio, não cria alicerces! È proxenetismo da terra. Apenas e só!

Entendo que Portugal é  um pais demasiado pequeno e especial para estar vocacionado para o volume ou cópia. Claro que necessitamos ter alguns produtores a actuar no volume, mas precisamos não fazer gala disso (com promoção). Se é para copiar, copiemos os nossos.
Entendo que o caminho passa por olhar para trás antes de olhar para a frente, analisar o que tínhamos de tão especial e nos permitiu criar esta infinidade de denominações. Procurar verdadeiramente a especificidade com as castas locais e aplicar-lhes os conhecimentos que temos hoje melhorando o produto final, e não, conduzi-lo a algo para o qual não está vocacionado.  
È um caminho longo e muito mais doloroso, mas com frutos mais suculentos. 
Por outro lado, entendo que, de uma vez por todas temos de promover os vinhos que melhor nos podem representar. Esses vinhos "diferentes", especiais, nativos, identitários, enraizados, únicos.  Promovendo esses, e só esses, poderemos depois levar os outros atrás, quando a marca Portugal for associada a estas promessas de compra.
Para isso só precisamos da coragem de quem faz promoção e de muito fair play de quem dela beneficia.
Na minha geração de produtores e enólogos vejo muito mais  paixão, mais apego ao que é da terra, vontade de procurar o elemento único e  de valorizar as nossas raízes, vontade de arriscar ... De construir terroir.
Não que esta seja uma geração de gente melhor. Estamos, isso sim, numa condição diferente. Os desafios são outros e começámos o trabalho a partir daquele desbravamento que, bem ou mal foi feito. A nossa missão passa muito por esta reaproximação à terra, mas também pela participação na "educação" vínica dos consumidores. Não precisamos destruir nem cortar com o passado. Precisamos de o redireccionar!  Não  precisamos pintar nem esconder o que foi feito, mas considera-lo património histórico. Cimento para a nossa credibilização. Ponto de partida. "Estrada"!
Dito de outra forma, temos condições para fazer um bom trabalho e deixar muitas condições para que, já na próxima geração, os vinhos Portugueses sejam uma referência internacional de real peso. 
Eu pelo menos, penso assim! E vocês? O que pensam disto tudo?




8 comentários:

Anónimo disse...

è mesmo isso que acredito e penso humildemente que precisamos de acreditar e fazer.

Manuel Cruz

Ricardo disse...

Parabéns pelo post, Hugo!
Poucos posts, mas quando saem, saem muito bons.

Texto bem construído, apelativo apesar de extenso (não me importo, atenção), em suma...GOSTEI.

Quanto à questão no final...
Eu penso que há lugar para todos: para os grandes volumes e para os volumes de "garagem". E a região de vinhos de Lisboa é um grande exemplo disso, certo?

Há muitos anos que também penso que o caminho é pela diferenciação, mas para isso é preciso paciência, especialmente de quem investe mas também de quem está no terreno (quando não são as mesmas pessoas).

Como diz o Manuel Cruz, é mesmo preciso acreditar e fazer.

Mas também pergunto: haverá mercado para tanta diferenciação que parece haver no nosso país? Não serão sonhos a mais, em muitos casos?

Hugo Mendes disse...

Manuel Cruz,
Se todos formos fazendo a nossa parte, com o exemplo e os resultados, penso que podemos galvanizar os outros.
Abraço e obrigado pelo comentário!

Hugo Mendes disse...

Muito obrigado pela apreciação Ricardo.
às vezes à coisas que, para se dizer como as pensamos tempos de colocar bastante palavreado! ; )

Dois reparos.
1º A definição de grande em Portugal é algo diferente da Austrália, Argentina, chile, e..., em breve.... China!
2º Eu não digo que não temos de fazer volume, mas podemos fazer esse volume com identidade e podemos/devemos promover apenas os grandes vinhos.
Nada de novo, é só entender a formula de sucesso dos Franceses. Promovem os grandes vinhos. Atrás desses vai tudo o resto pois o pais ficou associado à mais elevada qualidade. O que é uma mentira já que cerca de 90 a 95% da produção origina vinhos muito menores.
Ricardo, não faz hoje qualquer sentido pensar num projecto vinico, apenas de forma local. O mercado é o Mundo. Somos um pais produtor de nicho!

Anónimo disse...

Caro Hugo Mendes: não podia concordar mais consigo. País pequeno que somos, não podemos concorrer com França ou Espanha, América do Sul e/ou do Norte ou Austrália. A quantidade é para esquecer. É evidente, pelo menos para mim, que a quantidade numa pequena/média empresa vai pagar a qualidade que também queremos fazer. O melhor dos dois mundos. E há mercado para os dois. O que me custa ainda ver, é Portugal, país pequeno, mas rico, ter mais 300 castas diferentes e continuarmos a plantar castas estrangeiras. Qual será o sentido de fazer, por exemplo, um varietal de Syrah? Não irá ser quase igual ao Syrah da Austrália ou do Chile ou de Napa Valley, muito mais trabalhados a nível de marketing? Que mais valia vamos tirar daí? E o mundo não estará farto de beber Syrah ou Cabernet? Não ansiará por algo diferente? E quem lhe poderá dar essa diferença, senão aquele pequeno país com mais de 300 castas diferentes? Não ansiarão por beber algo diferente? Um varietal de Arinto? Ou de Baga? Para verem a diferença? Acho que a nossa diferenciação no mundo dos vinhos está na aposta na riqueza genética que nós temos. Saibamos agora, e isso é 1000 vezes mais difícil que as produzir, promovê-la e dá-la a conhecer ao mundo. País pequeno, mas rico como nós, só lá chegamos com um produto novo, genuíno e diferenciado. Porque técnica, qualidade e uma excelente geração de jovens enólogos, já nós temos...
Um abraço pelo excelente post.
Francisco

Antonio Madeira disse...

Bato palmas!

Hugo Mendes disse...

Caro Francisco,
Peço desculpa pelo atraso da resposta.
cada vez mais, em feiras internacionais, os visitantes nos pedem para mostrar o que temos de diferente. Penso que isso diz tudo.
No resto é fácil. Deixo a pergunta:
È mais fácil ser o melhor a trabalhar com aquilo que é originariamente nosso ou a fazer versões?
Depois, quanto aos comuns argumentos de venda... bem, imagino o inventor do Walkman que teve de criar mercado para uma necessidade que não existia. Se ele fosse PT ainda andávamos com "tijolos" às costas?

Hugo Mendes disse...

António Madeira,
Pudera, este argumento das denominações de origem está também nos argumentos da biodinâmica! ; )