25 de julho de 2013

Os cristais do enxoval


Cresci no seio de uma família tradicional do interior - Santarém ainda hoje é uma cidade provinciana, isso vê-se na mentalidade das suas gentes, na oferta cultural e nas infraestruturas de lazer, por exemplo! 

Era corrente, na minha "juventude" as nubentes levarem para a sua nova casa, toda uma parafernália de utilitários. Desde as roupas da cama, às toalhas de mesa, passando pelos pequenos electrodomésticos de cozinha sem esquecer as louças de servir. Tudo o que possam imaginar fazer falta à nova família, se exceptuarmos os moveis, as paredes, os frigoríficos... e um macho!

A minha irmã foi carregada de "tralha". A minha mãe - passados 30 anos - queixava-se de ainda ter panos, toalhas e lençóis  por estrear. A minha mulher relatava que tinha ataques de fúria nos seus aniversários, pelo facto da mãe e da avó reservarem todos os seus presentes monetários para a compra do enxoval. Não havia direita a gastanças que depois vinha o casório e seria um" ai Jesus" para comprar as peças em falta. 
Digam lá, quem é que, morando no raio de Lisboa, não tem um faqueiro ou um trem de cozinha comprado no  Brás & Brás da Baixa?
Só para o meu casamento, andámos dois dias em mudanças de miudezas. Lembro de como os pequenos electrodomésticos já eram Vintage quando foram estreados (rapidamente reformados pela chegada da Bimby) e de como algumas toalhas novas apresentavam o amarelo do tempo sem que alguma vez tenham sido usadas numa mesa.
Mas, de todos os constituintes deste dote, há um  que é considerado especial. Algo que tem um importância capital. Um item que não pode faltar.  Algo que chega a ser considerado património.
È isso mesmo! 
O serviço de cristais!

Para além de ser o item dourado, é também aquele que dá mais dores de cabeça a pessoas como eu. Se não reparem. Não me incomoda que o prato seja um "cozinha velha" da Vista Alegre ou um "Dinera" do IKEA. Não quero saber se o faqueiro é de prata, ouro ou latão. Não faço birra pelo material dos guardanapos (por acaso isso não é bem verdade!), mas, não sirvo vinho nos cristais do enxoval! Ponto.
Primeiro porque estão desenhados segundo princípios vetustos de etiqueta, em que os tamanhos obedecem a uma hierarquia diferente da usada na minha mesa. E olhem que eu gosto de um copo grande para a água, mas acho ridículos os tamanhos destinados ao vinho, principalmente aos brancos (nem para servir licoroso os quero!). Depois há todo um "embelezamento" que nos turva a visão. Ideal, porventura, para muitos vinhos de colegas meus, mas nunca para os que faço e bebo! Eu gosto da filtração.
O design remete-me para a onda rock psicadélica da década de 60. Chego a ter vontade de usar LSD para equalizador a vista com as nuances de luz que aquela porra irradia!
Sei que há uma infinidade de modelos, mas há 20 ou 30 anos atrás, a moda era o lapidado e a forma túlipa (com a boca mais estreita que o corpo), se existia era de forma clandestina.

À parte disso,nunca me irei esquecer deles, pois foram o motivo da minha primeira desavença conjugal.
 Recebemos amigos para jantar e não é que a Sara (para quem não sabe, é o nome da santa que me atura!) queria servir o vinho naqueles cepos  lapidados? 
Eu opus-me terminantemente, aquilo lá era maneira de servir o vinho que tinha escolhido para o jantar?
Foi o caos.
Transpirei muito para a fazer ver que o lugar indicado daqueles copos era num compartimento do aparador da sala. Ela, não convencida, lá acabou por ceder e os ditos, lá permanecem. Penso que foi o peso profissional que pus na argumentação, junto ao facto dos amigos que nos visitavam serem todos enólogos.
Foi a minha primeira vitória conjugal.... e agora que penso nisso... coincide com o facto de ter sido a única! 
Trocava bem aquilo por vinho....
Assim ela deixasse!

4 comentários:

Ricardo disse...

Eu fiz logo uma operação em paralelo, comprei um serviço de copos o mais completo e caro possível, dessa maneira consigo fazer concorrência aos outros e ganho sempre. Não me livro é dos comentários da minha sogra a perguntar pelos copos que ela comprou...

Anónimo disse...

Nem te vale a pena discutir com as mulheres. Nos levamos sempre a nossa avnnte. Alda

Hugo Mendes disse...

Ricardo, eu não fiz isso, mas também não mudaria nada!
A minha sogra, por acaso não pergunta,.... mas também, eu devo ter desculpa! ;)

Hugo Mendes disse...

Alda...
Desta vez ganhei! : )