20 de outubro de 2013

Vinho branco para o jantar.


Sexta feira. Chego a casa e apresentam-me o menu. Peixe cozido com bróculos. Mesmo a calhar, quero uma coisa simples para descomplicar o estômago, para desfazer estes nós que se foram formando ao longo da semana.
Penso. "Isto ia bem com uns tomates frescos, cortados e temperados. Ah, e que se lixe, uma garrafa de vinho! Preciso de álcool no sistema para amaciar as agruras e fazer um rest mental. E será um branco".

Espero um pouco.
Mando umas bocas no Facebook. 
Penso mais. "Presiso encher o peixe de ervas e pimenta. Quero ervas secas. Quero oregãos. Quero o danado de novo a nadar, mas em azeite".
Penso de novo. "Mas ainda quero um branco. Mas os puto novos  não aguentam um camadão de pimenta e, por esta semana tenho o palato cansado de jovialidade. Tenho o cérebro cheio de futilidade. Quero intelecto".

Num assomo de coragem, lanço mão de uma garrafa aberta há precisamente 5 dias. Importa apenas que a abri, retirei um copo e guardei o restante no frigorífico, à antiga, sem nenhuma daquelas tecnologias de foguetões, que permitem embalsamar uma garrafa meia de vinho no espaço de tempo de uma viagem a Marte. Foi mesmo com a rolha.

O vinho estava muito fresco, sem sinais de oxidação (pelo menos daquela que queima aromas e estraga o vinho). Desenvolvera um ligeiro caramelo, alguma gordura, tinha algo que me lembra aromas e sabores entre o mamão e a abóbora  e... a mineralidade iodada característica dos bons vinhos brancos, quando postos em espera. 
A madeira onde fermentou e estagiou, deu-lhe ainda mais graça (e o caramelo que já referi), estrutura sem fartar, sem marcar, sem mandar.
Grosso modo, adorei o vinho. E sim, foi feito por mim. Mas isso interessa pouco para o caso. É uma coincidência feliz!

Este é daqueles vinhos que quando se abrem não dão metade do que têm. Precisam mesmo muito do tempo da garrafa e depois da oxigenação do decantador para se encontrarem, para se mostrarem e para se desejarem, mas... é também daqueles que não têm a devida atenção nas pressas dos nossos dias. È  daqueles vinhos que precisa de se aliar ao tempo em todas as fases da sua existência. Que rejeita a pressa, principalmente no momento do consumo.

E é branco.
Porra!
Pensei nisto tudo e agarrei-me ao vinho. 

À mesa, já todos me olhavam de lado, como que a dizer, lá adormeceu este gajo, novamente a olhar para o copo. Fui acordado pela voz da Sara (a santa quem me atura), naquele tom firme com que "elas" nos ordenam voluntarismos:

"Olha que o peixe arrefece!"

E eu?
Comi! O que queriam que fizesse?

4 comentários:

melena disse...

fiquei curioso, qual é o vinho?

Hugo Mendes disse...

Uma coisa esquisita (pelos vistos) chamada Myrtus Reserva 2008! ; )

melena disse...

ohhh

esquisita não sei se é...

agora rara é. aqui nos açores nunca vi tal vinho

Hugo Mendes disse...

Pois, existe numa quantidade pequena e o mercado (quem compra para revender) só gosta de vinhos brancos muito novos a saber a frutos tropicais.
È pena, mas... se quiser muito, podemos mandar umas garrafas para aí. Ainda tenho umas caixas na adega! ; )