15 de janeiro de 2015

Diário - Um branco especial



Querido Diário:

Então? Tinhas saudades minhas? Pensaste que te tinha abandonado?
Nada disso!
A farra tem sido muita e a vontade de vir aqui escrevinhar pouca. Mas não fiques triste, não é nada pessoal!

Antes de mais, espero que 2015 te traga entradas fantásticas. Desejo usar as tuas linhas só para descrever bons momentos e fantásticos acontecimentos. Tudo farei para que tal assim seja.

Ainda há por aí muita gente com a ideia de que o trabalho do Enólogo se resume à vindima e depois a uns engarrafamentozitos. Nada anda mais longe da verdade e, já o disse anteriormente, muito menos quando falamos de adegas de brancos. Talvez seja por isso que ainda muito boa gente (e é mesmo assim, isto nada revela do carácter de quem assim age) aceite/defenda que o enólogo visite a adega apenas duas vezes num ano.



Ontem, por exemplo, foi um dia importante. Ao fim de muitos meses (mais de um ano), o vinho destinado a ser o próximo Clássico da Quinta da Murta saiu finalmente das barricas. Este é um vinho muito peculiar, já que resulta da junção de diferentes abordagens enológicas.
Como sabes, usamos apenas a casta Arinto para fazer os "Quinta" e torna-se por isso difícil encontrar naturalmente o mesmo grau de complexidade que um lote de castas consegue atingir. O que faço é simplesmente pegar na casta e fermentar pequenas porções em diferentes condições de maturação, volume, vasilhame, temperaturas,... Depois, na sala de prova, logo se verá quais delas combinam melhor entre si e nos dão um vinho mais harmonioso.

Neste caso, o lote foi previamente escolhido, gosto mais assim. Desta forma, quando o vinho sai das barricas, já sei o que vai para onde e torna a acção logística mais facilitada. Agora, é colar, filtrar e engarrafar. O mais rápido possível para que o estágio em garrafa seja o máximo possível antes do mercado nos exigir a sua libertação. Gosto que seja no mínimo um ano, principalmente porque a experiência me diz que, nesta referência, 12 meses, é o tempo mínimo que a madeira leva a casar com o vinho. 
Não gosto de nada "descasado". Seja a madeira, o gás dos espumantes ou a aguardente dos fortificados.
Por isso... é esperar, pacientemente para que quando figurar na prateleira nos possa continuar a dar as alegrias dos seus irmão mais velhos.
Até amanhã.





2 comentários:

Virgílio Loureiro disse...

Imagino que o "clássico" da quinta seja, no seu ponto de vista, o Bucelas clássico. Gostava de entender o seu conceito de Bucelas clássico, pois o meu parece-me ser ligeiramente diferente. Abraço.

Hugo Mendes disse...

Caro Virgílio,

Quinta da Murta Clássico é a designação do vinho. Meramente comercial. Antes chamava-se Reserva, mas em 2006 o nosso distribuidor de então aconselhou-nos a mudar o nome para Clássico e a administração de então decidiu aceitar.
Nunca pensei muito nisso, para ser franco.

Para mim, na minha ignorância, o Bucelas Clássico, andará mais perto da ideia do garrafeira e feito com recurso ao lote com as outras duas castas. Mas confesso que não tenho conhecimentos para suportar ou contrariar esta ideia.

Fiquei curioso. Diga lá como faço um Bucelas Clássico! :)

Abraço e obrigado pelo contributo!