6 de fevereiro de 2015

O vinho não pode ser um produto industrial. Porquê?



O que come o seu filho ao pequeno almoço?

Os meus, um bebe leite com chocolate e uma pêra e o outro come papa ou iogurte.
A pêra compro-a no supermercado. Acredito que seja filha de uma produção intensiva com recurso a todos os químicos autorizados. 
Na lista de ingredientes do leite com chocolate lê-se: leite, açúcar, cacau, estabilizador, carragenina, sal, aroma, pirofosfato férrico e vitaminas.
Na papa, encontro fruta, amido de farinha de arroz, leite desnatado... em pó, proteinas do leite, maltodextrina, gordura vegetal, sais minerais, emulsionante, vitaminas e AROMATIZANTE.
Por sua vez os iogurtes... não são diferentes. È pelo mix entre o leite o a papa.

Não sei dos vossos, mas os meus filhos estão "institucionalizados" durante o dia e, a sua dieta passa por alimentos que espero sejam muito, muito, mas muito saudáveis! "NOT!"
È claro que não são, pelo menos nunca o serão na origem dos ingredientes que jamais poderão ser... imaculados. Não esquecerei da primeira vez que dei, com profunda mágoa, salsichas ao meu filho mais velho e ele exclamou: "Salsichas pai? Adoro...!"

Em casa não é diferente. A falta de disponibilidade leva-nos a recorrer ao supermercado para compra de frescos e embalados. Se não sabem eu digo. Não acredito na pureza de nenhum produto que venha do supermercado, acredito pouco nos que vêm dos mercados (sobretudo frescos e fruta) e só confio... só confio... olha... já não sei, honestamente, em quem ou no quê confio.

Vale a pena continuar com esta descrição, ou já entenderam? 

È verdade. Somos mais cuidadosos com a alimentação dos nossos filhos do que com a nossa e, se para eles recorremos a tantos alimentos de produção industrial (e massiva), que têm, obrigatoriamente, de conter químicos que salvaguardem a vida do produto, o que dizer daquilo que nós próprios ingerimos.

Comemos merda e merda damos aos nossos filhos!
Logo... que sentido faz esse purismo desmedido com o vinho. Um produto tão controlado e regulado que é mais puro que o iogurte que dou ao meu filho?

Ainda mais numa realidade em que os consumidores não sabem (nem querem aprender), na sua maioria, distinguir um vinho que foi feito com todos os recursos da industria de um outro que nasce do risco e da quase ausência de manipulação química.

Há dias, como o de hoje, em que tudo isto me parece uma profunda hipocrisia. Um profundo disparate. Uma pesada mentira. Reparem. As quantidades que ingerimos de vinho, não são comparáveis com as doses de carne e o peixe alimentados a rações e antibióticos, a vegetais e frutos feitos crescer com hormona e químicos, a iogurtes esterilizados e carregados de aromas. Tudo isso nós ingerimos.

A hipocrisia é tanta que, nos vinhos, apesar do que se diz, os casos de maior sucesso (económico e nem só) são aqueles tem a abordagem industrial (fácil de definir. Para esses, o vinho é um produto, de cariz alimentar, feito para dar dinheiro e criar o menor numero possível de problemas, correndo o menor risco que se conseguir). Ou seja, exigimos purismo e compramos o oposto. Se no fim, se é o preço quem manda... para quê tanta conversa? Tanta repulsa? Tanto salamaleque?

Valerá a pena ser diferente das outras industrias? 
Porquê? 
Para quê?

QUEM PAGA ISSO?



4 comentários:

Anónimo disse...

Ainda mais numa realidade em que os consumidores não sabem (nem querem aprender), na sua maioria, distinguir um vinho que foi feito com todos os recursos da industria de um outro que nasce do risco e da quase ausência de manipulação química.

Esta é uma prova (cega?) que você devia organizar! Junto um painel de bloggers e faça um frente a frente, vários vinhos da mesma gama, uns de cariz industrializado e outros "artesanais" ou como lhes queira chamar. Seria giro avaliar os vários parâmetros dos resultados. Será que alguém vai conseguir realmente dizer quais uns e outros? Será que a prova organoléptica que o consumidor faz aquando do consumo consegue por em evidência essas características? É só uma pergunta, não uma ofensiva!
Cumprimentos!
Anónimo no anonimato!

Hugo Mendes disse...

Acho que é uma excelente ideia, de facto.
Penso que os perfiz mais industriais têm tendência a ganhar uma prova dessas. Temos os concursos a provar isso!
Mas seria muito interessante fazer algo dessa natureza, desde que se conseguisse um equilíbrio, digo eu, que permitisse enquadrar as diferenças e não procurar nenhuma conclusão absolutista!
Sou um céptico das virtudes da prova cega. protege-mo-nos muito do desconhecido, do menos óbvio, mas... era giro sim senhor!

Rodrigo disse...

Sendo um produto industrial, os rótulos dos vinhos deveriam declarar todas as substâncias que realmente foram adicionadas a ele durante a sua produção, em vez de listar apenas o padrão 'uvas viníferas e anidrido sulfuroso'.

Hugo Mendes disse...

Sinceramente não tenho opinião face à necessidade dessa declaração. Mas no fim, como controlaríamos o que vem lá? E o que lá se poria? Penso que esse assunto está em discussão no OIV. Eles normalmente saem com algumas conclusões lógicas.