Os "Supertejanos"


Como é que um gajo faz para assumir que talvez não tenha julgado bem, que foi vitima do seu próprio preconceito? Que não há factor externo que justifique a adopção por uma visão unívoca para algo que, possivelmente, não é o problema mas que pode, muito bem ser parte da solução?

Tenho uma predilecção pelo trabalho com as castas nativas, pelo estudo de técnicas que as respeitem e façam florescer. Gosto dos "Slow Wines", aqueles que não se apressam para entrar no mercado nem para sair da garrafa. Não é segredo para ninguém.
Este gosto, não me cega para a realidade nem me molda a acção. Mas tem-me levado a interpretar esta coisa das castas exógenas (porque já meto no rol aquelas que sendo nacionais provêm de outros destinos) e práticas novo-mundistas como um caminho a evitar se queremos expressar verdadeiramente a identidade de um local.

Fica o reparo de que, quando defendo isto, em momento nenhum entendo que o negócio em si deva ser alicerçado nestes vinhos. Pelo menos não nos próximos 50-100 anos se o trabalho for bem feito. Falo especificamente dos vinhos bandeira para a região! Ou seja, falo de marketing e de comunicação, não de vendas ou "cash flow". Isso é outra guerra!

A região do Tejo não foi/é famosa por ter vinhos distintos, de qualidade elevada, produzidos para um padrão de elevada exigência. Sempre esteve associada à produção de volume a baixo preço, onde o critério de qualidade deriva muitas vezes de factores físicos-químicos, mais do que organolépticos.

Ora, isso mudou. Não parece, mas mudou (e será interessante relacionar essa mudança com a conversão da designação Ribatejo para Tejo). Eu diria que se vive um período de transição. Inicialmente foi preciso adaptar vinhas e adegas. Esse trabalho está feito ou vai adiantado. No vinho, também por isso fomos assistindo nos últimos 15-20 ano a uma estrondosa mudança. Começam a aparecer, finalmente, os esboços dos grandes vinhos, os tais "vinhões" que se procuravam há 10 anos quando comecei a trabalhar no meio. 

Estes vinhos são feitos, na sua maioria à custa do virar das costas às castras tradicionais. E isso, era algo que até aqui não conseguia assimilar e deglutir com facilidade. Confesso que sempre defendi que o caminho seria pegar nas castas tradicionais e começar a trabalha-las bem. Com conhecimento e inteligência. 
É difícil encontrar muitos vinhos feitos com 100% de castas da região, mesmo a aromática Fernão Pires está em desuso nos vinhos extremes. Já ninguém quer aquilo, dizem-me!
E eu andava triste e um pouco ressentido.

Mas até os tolos teimosos têm as suas epifanias. A minha chegou-me à força de ver alguns desses vinhos, finalmente a ombrear com os melhores nas escolhas de quem nos diz se o vinho é bom ou não presta.
A verdade é que os vinhos do Tejo nunca tiveram tanta popularidade como têm hoje, seja em que patamar de qualidade for.
Vou ser claro. Sempre achei que isso era possível, foi isso que me fez ser enólogo, mas nunca acreditei que fosse com recurso ao abandono parcial ou absoluto das castas tradicionais.

De repente, levei uma lambada nas fuças e percebi que afinal o que mais temia não aconteceu. A região conseguiu fazer vinhos que se impõem no mercado e estão a conseguiram criar uma identidade.
Essa história não é  nova. Tudo isto se sobrepõe, de forma quase perfeita ao surgimento dos Supertoscanos, os vinhos que as entidades certificadoras se viram forçadas a reconhecer pelo facto da sua fama se ter sobreposto ao da própria região, mandando-os para o bolo dos vinhos mais reconhecidos de Itália no plano internacional.
No caso do Tejo, não é preciso brigar. As autorizações foram feitas antecipadamente.

Toda esta conversa não é ainda uma declaração. Muito menos uma posição definitiva. È uma assumpção de um novo olhar para uma possível nova visão.

Estaremos a assistir ao nascimento dos Supertejanos?

______________


Post Scriptum:
Para tentar perceber melhor o que se está a passar, pretendo em breve juntar um numero de vinhos suficientes para fazer uma prova comparativa cujos resultados me possam dar novas luzes sobre este assunto. Vou dando notícias.


Comentários

João Miguel disse…
Fernão Pires: como uma das castas mais plantadas do país e, provavelmente, uma das mais versáteis, é tãããão triste ouvir reduzi-la a "oxida muito", "é chata porque perde acidez", "desidrata", "salta grau, um dia está a 11 no outro a 14"...em vez de aprender a trabalha-la e aprender com ela!

Nunca o que é bom é fácil.

Produz espumantes na Bairrada Maria Gomes) e Távora-Varosa, vinhos rápidos "cash flow", vinhos lentos (havia um do Casal Branco), vinhos licorosos deliciosos e ainda quando oxidam com o tempo...surgem com um torrão de café impressionante!

E ainda há o conhecimento engavetado do Prof. Antero...que com tanta planta plantada deve ter muitas e boas surpresas.
Hugo Mendes disse…
Caro João,
Precioso comentário. Obrigado.
Virgílio Loureiro disse…
Caro Hugo,
Há muito que não trabalho no Ribatejo (a minha idade permite-me continuar a chamar a região pelo seu nome e não pela alcunha), mas fiz lá vinhos durante 19 anos. Portanto ainda me recordo de muita coisa. E uma das que me recordo é do icónico "Fernão Pirão",da Goucha, que ia nos lugres da pesca do bacalhau para a Terra Nova. Ainda hoje sou um admirador incondicional desse vinho, que, quando bem feito, pede meças a muitos que há para aí a armar ao fino. Em Maio vou a Santarém fazer uma charla, na Escola Superior Agrária, intitulada "Fernão Pires, Fernão Pirão e Sopa da Pedra" e gostava de dar a provar aos alunos um Fernão Pirão bom. Será que me consegue arranjar um? Abraço, Virgílio

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