25 de maio de 2015

Dia de atestos



Querido diário:

Eu sei! Tenho andado desaparecido. Não mereces isso!
È uma verdade. Que tenhas a bondade de me desculpar.

Hoje atestaram-se barricas na Murta. Especialmente as que contêm o vinho tinto de 2014.
Sabes que há duas grandes correntes no que toca ao acompanhamento de barricas. Grosso modo, uma defende que, com a frequência que se puder, as barricas devem ser atestadas* e corrigidas de sulfuroso, a outra, que se deve tocar o menos possível e fazer o mínimo de “barulho” ao vinho a descansar, mesmo que isso signifique deixa-lo em vazio** por mais tempo.

Os argumentos são imensos, ambas têm uns que me atraem e outros que não. Por exemplo: È certo que com atestos frequentes corremos menos riscos de vinhos estragados por contaminações microbiológicas e preservamos melhor a cor violeta dos primeiros dias. Não deixo contudo de teorizar que, em barricas "experientes", a maior fonte de incorporação de oxigénio é o orifício do batoque (aquele sítio por onde entra e sai o vinho) precisamente de cada vez que se tira o vedante. 

Normalmente, para vinhos que conheça muito bem, num produtor que quer estágio mais longo e com um parque de barricas conhecido, não tenho muitas dúvidas em apostar numa sulfitação mais defensiva antes de mandar o vinho para estágio e depois fazer atestos e correcções com frequências menores (3 a 6 meses de intervalo).
Este é um assunto apaixonante que sozinho teria informação suficiente para escrever um tratado. Fica-te portanto com um Lá Mi Ré dos pontos que me levam a escolher um trabalho ou outro.

Na Murta, aposta-se em estágios mais longos, com períodos de sossego maiores, e hoje foi dia de as “desempoleirar” e atestar. Felizmente não foi preciso corrigir.


Os vinhos tintos de 2014 na região de Lisboa continuam a deixar-me duvidas que o tempo confirmará ou dissipará. O ano foi duro, com muitas chuvas a fazer parar a maturação e a adiantarem as colheitas para fugir à podridão. Acabei por ter sorte nos produtores que acompanho. Um apanhou no pino do tempo quente e o outro, este, elaborou o vinho com uvas muito bem escolhidas e apanhadas à mão.

Mas é ainda muito cedo para cantar vitória. Por hoje, devo ficar feliz pelo facto do vinho estar com bons parâmetros químicos e com uma evolução favorável.
Amanhã logo se verá como ele vai crescer!

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* As barricas vão perdendo parte do líquido por evaporação e/ou principalmente por absorção pela madeira, pelo que, de quando em vez devem ser cheias, ou na gíria... atestadas.
**Quando um recipiente fechado não está atestado de vinho, dizemos que o vinho que lá se encontra está em vazio porque a cuba tem, precisamente uma parte do seu volume vazia de vinho.

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