1 de fevereiro de 2016

Myrtus Reserva - Uma abordagem emocional

Alguém que não recordo diz que somos animais emocionais e não racionais como temos alvitrado até aqui. Sou levado a concordar. A argumentação deste principio, aplicado à apreciação de vinho, daria um livro e mesmo assim não convenceria metade dos que hoje disso duvidam. Por agora não tenho tempo para tão baixas taxas de conversão. Adio essa demanda para a minha reforma.

Deixo contudo um presente a todos os que como eu, acreditam que é possível escreverem-se coisas interessantes à volta da degustação de um vinho, que este pode ser um mote para viagens e deambulações de espírito. Um brinde a todos os que entendem que nem tudo tem de ser notas de prova e relativas avaliações absolutas.

O texto que se segue é da autoria do meu mui amigo Vieira Jardim e reza assim:




Myrtus
  

Uma das coisas de que me lembro bem do meu falecido pai é de o ver beber copos de vinho branco de penálti. E o mais curioso é que o meu pai fazia vinho, pois era ele o feitor da casa agrícola de um conhecido e notabilíssimo médico e lavrador de Almeirim, uma espécie de Madre Teresa de Calcutá local, agraciado e recordado com saudade naquela cidade pela sua indiscutível sensibilidade e descomprometida solidariedade para com os mais pobres, não lhes cobrando as consultas e dando-lhes, ainda, esmolas generosas. Pena que a sua sensibilidade, altruísmo e solidariedade não se tenham manifestado para com o seu mais leal funcionário e braço direito quando abandonou o negócio do vinho e vendeu todas as suas propriedades, deixando o meu pai sem trabalho, sem perspectivas e mergulhado de cabeça no período mais negro e incerto da sua vida. Para Madres Teresa de Calcutá destas, eu faço um toma! à Rafael Bordalo Pinheiro.
Ora, sendo o meu pai alguém que fazia vinho, seguindo, claro, as prescrições que lhe haviam sido dadas por quem de direito, era suposto que fosse um apreciador, que o degustasse com o devido cuidado, sabedoria e requinte, mas não, o meu pai era, essencialmente, um sorvedor de álcool, para não dizer outra coisa. Em novo, até que foi um sorvedor de álcool com pinta, de calças justas, botins de cabedal, a boina de lado, tapando um sobrolho, e uma fúria estampada no olhar que sempre me fascinou. Todavia, com a idade, a mão que segurava o copo começou a tremer, sem, com isso, entornar uma única gota, e, mais tarde, os diabetes proibiram-no de continuar a beber vinho branco e a optar, moderadamente, pelo tinto. Homem violento e garboso na flor da idade, morreu caquéctico e só, numa cama de um lar de idosos, e de nada lhe valeu a fúria no olhar. No entanto, lembro-me sempre do momento em que ele terminava um copo de penálti e dava um estalo com a língua, fazendo «aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhh!!!» com a boca muito aberta e dizendo, no final:
– Até sabe a rebuçados!
Eu retribuía-lhe o sorriso, divertido e embevecido com aquele ídolo da minha infância, que, logo a seguir e se fosse preciso, era capaz de se levantar dali para ir dar uma tareia na minha mãe, mas isso são outras histórias, ou estórias. Para agora, vem a do vinho e das diferenças de substância entre o meu pai e eu, entre o vinho que ele bebia e o que eu bebo. Muito sinceramente, não acredito que alguma vez, nos seus intensos oitenta e quatros de vida, o meu pai tivesse bebido um vinho tão bom como este Myrtus branco, reserva de 2008, um Arinto da Quinta da Murta, Bucelas, e, mesmo que isso tivesse acontecido, tê-lo-ia feito de penálti e não o teria cheirado, respirado e apreciado com o requinte e o cerimonial que se lhe exigem, não teria tido a noção. O meu pai viveu o seu mundo e a sua própria história de vida e o Arinto e todos os Arintos deste mundo, seus primos e parentes afastados, foram o lado para o qual ele dormiu melhor. Mas eu não sou o meu pai e gosto do vinho pelo seu todo, pela experiência que me proporciona, pelo aprendizado, pelo prazer e exaltação dos sentidos, pelas pinceladas impressionistas deixadas na tela da minha imaginação e da minha memória.
 Estamos, portanto, a falar de uma casta, o Arinto, com predominância e origem comprovada na região de Bucelas, concelho de Loures (com Lisboa ali tão perto), cujo microclima lhe é particularmente favorável, não deixando, no entanto, de vingar noutras regiões do país, até no rigoroso norte, onde é, curiosamente, denominada de Pedernã. Sendo uma casta com uma acidez tão peculiar, consegue produzir vinhos com grande capacidade de evolução e que, mais tarde, após estágio em barricas de carvalho, se aguentam muito bem em garrafa. É o caso deste “Myrtus”, nome deliciosamente inspirado na denominação científica da planta que dá nome à casa que o produz, a Quinta da Murta, e onde o meu grande amigo Hugo Mendes foi membro honorário da equipa que o idealizou e produziu. E digo que foi membro honorário porque só o estou a ver a ele a ter o pioneirismo, a rebeldia e o atrevimento em insistir e assumir a responsabilidade de produzir um vinho com estas características, tão atípicas e avessas ao habitual carneirismo do mercado. Há um bocado aquela premissa de que o vinho branco não possui a estrutura nem a nobreza que lhe permitam um bom envelhecimento, mas isso é falso e ditado pelas necessidades e leis de mercado, onde, normalmente, é tudo para ontem e em que a rentabilização do investimento não permite reservá-lo para amanhã. Ora, o Myrtus é a prova cabal do contrário, para além de se perfilar, ele próprio, como mais um potencial e privilegiado nicho do mesmo, um vinho branco telúrico e mui nobre, com a densidade certa, nem leve nem pesado, que estagiou durante três meses com “Batonage” em barricas novas de carvalho francês, um vinho que, ao contrário do que é usual pensar em relação aos brancos, ganhará bastante se decantado numa degustação tribal ou, a solo, tal como eu fiz, reservando-o no frigorífico durante os dias que forem necessários, em qualquer um deles sempre melhor que no anterior, e acompanhando os mais diversos pratos. No copo, apresenta aquela belíssima cor amarelo-esverdeado, típica da casta, e no aroma e na boca, vêm, de imediato, a madeira e as incontornáveis e previsíveis notas cítricas, mas, depois, sobressaem, gradualmente, o caramelo e a fruta desidratada (tâmaras, sultanas, figos) e é um festim de sensações e emoções até cair, com elegância, dentro de um sempre expectante estômago, pobre coitado, sempre o último a saber.
Tenho a sorte de ter amigos assim e foi assim que, pelo Natal, me chegou esta garrafa às mãos. Tem harmonizado com os pratos mais diversos, desde carne, peixe a saladas. Começou com um vulgar esparguete à Carbonara, o qual, assim de repente, até pode parecer coisa de pouca monta e deslustrosa para com tão nobre vinho, mas há esparguete à Carbonara e esparguete à Carbonara, e o meu esparguete à Carbonara não é um esparguete à Carbonara qualquer, para além, claro, de ser, muito provavelmente, o prato favorito da minha filha (caramba, tem catorze anos, esperavam o quê, trufa e caviar?). No dia seguinte, acompanhou uma alegre e colorida salada quente de massas (búzios) e legumes (brócolos, cenoura e curgete) salteados em azeite, louro e alho, e foi a combinação perfeita. Seguiu-se uma fabulosa jardineira de rojões de porco e chouriço, o mais conseguido e saboroso dos pratos que tiveram a sua companhia (era ver os meus filhos a repetir e a mergulhar o pão naquele molho pecaminoso), mas, aqui, talvez se impusesse um tinto e a harmonia, apesar de existente, acabou por não ser a melhor. Anteontem, foi a despedida perfeita com um delicioso arroz de feijão e uns simples rissóis de camarão (para mim), e uns douradinhos de pescada (para os petizes). Foi, sem sombra de dúvida, a melhor harmonização a seguir à salada quente, o que vem provar que este é um vinho mineral, amante das coisas do mar, é um facto, mas com raízes profundas na terra. No entanto, a perfeição aconteceu, inesperadamente, num dia em que eu fazia uma sopa para o jantar e o tive por amena companhia e quase cavaqueira, juntamente com umas nozes e o último álbum de David Bowie, “Blackstar”. Não sei se foi da simplicidade e quietude do momento, se da combinação elegante do vinho com as nozes, se da música de Bowie, se de tudo um pouco e nada em particular, a verdade é que este foi o momento em que o Myrtus se aguentou muito bem sozinho e elevou à condição de coisa olímpica e inacessível ao comum dos mortais. Fez-me sentir especial. Único. Abençoado. E para terminar este rol de elogios, sugiro que se deixe um pouco deste vinho no fundo do copo para a sobremesa e sugiro uma simples e saborosa laranja para essa mesma sobremesa e sugiro saborear esse último resquício de vinho com a boca ainda impregnada da suculência da laranja e sentirão, nesse momento, algo muito, muito, muito próximo de um orgasmo e sugiro que o façam em casa, claro, a não ser que tragam sempre convosco uma muda de roupa interior.
Mas, regressando ao meu pai, que foi quem iniciou esta já longa e soporífica conversa, anteontem, no fim de beber o último gole deste precioso néctar, dei um estalo com a língua, fazendo um «aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh!!!...» com a boca muito aberta e dizendo, no final:
– Até sabe a rebuçados!
O meu filho riu-se, olhando-me, divertido e embevecido, impregnado desse amor juvenil e incondicional que só os seus olhos amendoados sabem transmitir. Pergunto-me se alguma vez o meu pai o terá notado em mim.
À nossa!


Cortiçóis, 20 de Janeiro de 2016


2 comentários:

Virgílio Loureiro disse...

Só quem não quer perceber é que acredita que a prova pode ser racional. Alguns ingénuos (ou principiantes, ou ignorantes) talvez acreditem na "objectividade" das notas atribuídas aos vinhos, mas quem as atribui há muito que não é ingénuo.Fico com curiosidade em rever o Myrtus para ver se emociona tanto como ao Vieira Jardim.

Hugo Mendes disse...

Vamos lá tratar desse reencontro então! :)

Concordo com o que diz e vou um pouco mais fundo. Se a responsabilidade disso ser assim é da "fileira" (detesto o termo) a mudança também deve vir de dentro!
Abraço