1 de abril de 2016

Tejo e Lisboa, duas promessas (ainda) por cumprir.


Não é segredo para ninguém que tenho um carinho especial pela região do Tejo e que desejo ai fazer "pinga" (embora ainda deixe muita gente de boca aberta por isso). Também não espanta que trabalhando há tanto tempo na Lisboa do vinho, a tenha, igualmente no coração.
Estas duas regiões partilham há muito um fado semelhante. Sendo terras produtivas, sempre se cultivou aqui o negocio da quantidade, mas recentemente também o das modas… das cópias, do muito a bom preço!

Há uns tempos, ambas começaram a dar ao país vinhos com maior destaque. Vinhos que sobressaem dos outros ali produzidos. Um olhar mais atento leva-me no entanto a concluir que parte deles é feito com recurso a castas internacionais, mais umas dioptrias e percebo que são castas internacionais trabalhadas ao jeito “POP”, ou seja… modas.
Falando com os meus colegas apercebo-me que está a haver um abandono progressivo das castas portuguesas. Por exemplo, tenho uma dificuldade incrível em encontrar um 100% Fernão Pires no Tejo.
Estas duas regiões, nunca perderam muito tempo a desenvolver uma identidade própria como outras regiões fizeram/fazem. Se isto faz parte do DNA produtor local? Não sei!
Um dos factos recorrentemente mencionado é o carácter menos intenso dos vinhos feitos com as castas tradicionais em detrimento daqueloutros feitos com as rainhas das castas internacionais. Deixei-me embalar por isso, confesso, até ganhar a percepção de que, sempre que uma casta da moda é introduzida, sempre que se procura com ela fazer “o grande vinho”, procura-se a melhor terra para a colocar e trabalha-se com produções equilibradas. Ficando o volume alimentado pelas outras, as menos nobres, as que já não merecem atenção, trabalho ou investimento. Muito menos esforço. Passaram a ser verbo de encher de entrada de gama, uma base onde assentará a maquilhagem. Parece-me injusto que não se criem oportunidades de as trabalhar à luz dos conhecimentos actuais.

Volta e meia sou brindado com alguns vinhos antigos que contraria todas as crenças entretendo difundidas por esse rebanho de gente que não sabe esperar, que tem do vinho apenas a visão industrial (que não está errada, mas é apenas uma das possíveis) e cujos egos não podem deixar de ser massajados constantemente. Não haja duvida que uma mão de castas estrangeiras sobremaduras, barradas com madeira nova a potes ainda arranca algumas distinções e palmadinhas nas costas. Pergunto-me se não valeria a pena o esforço de compreender e testar as castas nacionais. Não numa perspectiva de as conduzir pela cerca apertada da normalização mas deixando que se expressem, cabendo apenas ao enólogo o papel de interprete e auxiliar da sua natural propensão.

Que fique claro (e infelizmente é sempre necessário esclarecer este ponto) que não defendo mudanças radicais e absolutas, mas entre o tudo e o nada há tanto que pode ser trabalhado. Uns ensaios de campo hoje, uma microvinificação amanhã, um lote engarrafado no dia seguinte. Educação de críticos e consumidores noutro dia.
Tenho de ser justo e referir que ainda assim, é na Lisboa que encontro mais casos de tentativa de ruptura, de procura, de estudo, de teste, de desafio, mas são poucos. Não chegam ainda sequer para acreditar num movimento de mudança.

Gosto de pensar que a geração actual é uma fiel depositária da herança deixada pela anterior, com o ónus de adicionar valor e preparar o caminho para a que se segue. Julgo que não se tem feito muito neste sentido, apesar de andarem ambas em êxtase pela quantidade de medalhinhas sacadas nos infinitos concursozinhos espalhados pelo mundo. Só tem servido para legitimar mediocridade!

Basta olhar para o longo prazo para imediatamente se perceberem que já “ali à frente” isto vai tudo para o cano. As modas mudam muito e rapidamente. Se optarmos por, aos poucos e em paralelo criar uma identidade com recurso ao que é local, talvez os nossos netos possam viver de vender identidade, em quantidade que sustente as suas casas. 
Sonho com um futuro em que produtores e enólogos tenham orgulho no que é seu e exclusivo do seu chão. Em que tenham finalmente aprendido a fazer vinhos com as suas castas e que encharquem o mercado com vinhos cheios de carácter e alma. Até porque, acredito, que a sobrevivência do sector em Portugal passará por este tipo de vinhos num futuro não muito longínquo.

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