Pedro Garcias com cheirinho homeopático


Antes de mais tenho de fazer esta declaração:

Respeito o trabalho do Pedro Garcias e prezo muito o facto de ele ter opiniões e não ter receio de as expor. Ao contrário de muitos dos nossos concidadãos, continuo a respeitar tudo isto, mesmo quando não concordo com ele. São precisas pessoas com opiniões e argumentos diferentes para que possa haver discussão e avanço. Sabem bem como o silêncio militante e defensivo me enerva.

Posto isto:

Na edição de Sábado, dia 21 de Julho, do suplemento Fugas no jornal Publico, o Pedro tratou um assunto que me é caro e no qual até nem tenho uma visão conceptual assim tão distinta da dele.

Mesmo tendo percebido que há uma fuga para a filosofia "bio qualquer coisa" - que poderia ter sido um pouco mais assumida - encontramos ali argumentos e intensidades que ferem de morte a minha obsessão pelo rigor. A sua semelhança com os doutrinados pelas vertentes mais radicais do movimento bio deixam-me também, em boa verdade, assustado.

A comunidade cientifica não encontrou ainda evidências para nenhuma das afirmações técnicas que o Pedro faz* quando diz que a salinidade vem da proximidade ao mar, o eucalipto e esteva se devem à sua proximidade a campos com estas plantas. Curiosamente, no texto, o Pedro usa isso para servir de complemento justificativo para algo que está estudado e é mensurável, a quantidade de resíduos de pesticidas que ficam retidos na pruina e demais camadas dérmicas da uva (e outras frutas). O sabor de um vinho depende de tantos factores, que dar tamanha importância à presença de resíduos pode levar a que alguém que siga à risca este texto nunca consiga fazer um vinho capaz de  ser bebido. Sim, um vinho pode ter o seu sabor afectado pelos pesticidas, é um facto, mas culpo muito mais as más práticas do que o uso de pesticidas em si**. Garanto-vos que o produtor que faz isso não será mais brilhante numa filosofia bio. Quantos vinhos bio não sabem a volátil ou a "suor de cavalo"? Está a vinha próxima da vinagreira ou do estábulo? T
ambém não é "liquido" que uma vinha livre de ervas é mais propensa a doenças que uma outra que as mantenha, aliás... elas são retiradas precisamente para evitar doenças. Contudo, percebo que estamos a falar de doenças diferentes. Vocês também perceberam isso? Não n'é?

Há algo que o Pedro também não explicou e que é uma das pedras basilares da vinificação. Todos os enólogos sabem que a fermentação tem um potentíssimo efeito depurativo onde são eliminados metais pesados e muitos outros elementos contaminantes indesejados de forma natural. É isso mesmo. No que toca a elementos contaminantes, o vinho é, por definição, um produto menos tóxico que o mosto.
Depois, e isso o Pedro aflora de uma forma meramente informativa dando-lhe uma relevância menor, temos o álcool, que tem um poder tóxico infinitamente maior que os resíduos de pesticidas e outros elementos indesejáveis inerentes ao modo de cultura. Faz-me lembrar o discurso inverso, o dos benefícios do consumo de vinho que fala de moléculas como o resveratrol, mas não explica que seria preciso consumir cerca de 200L de vinho por dia para termos a quantidade mínima necessária.

A verdade é que o Pedro pode afirmar o que quiser quando enquadrado numa crença sua ou como sendo ele um partidário de uma corrente que acredita nisso. Julgo que não pode é dá-lo como um facto certo e provado. Apenas porque não é. Da mesma forma que eu não posso dizer que as afirmação são incorrectas (até gosto delas e partilho do sentido lógico). 

Não quero com isto destruir o texto ou a ideia da necessidade de tornar as nossas vinhas mais vivas, menos tóxicas e o sistema menos dependente de agroquímicos. Essa necessidade é mais do que evidente e a crescente transição de vinhas para o bio tem demonstrado que afinal as coisas não são bem como se contavam. O texto tem toda a relevância e pertinência, os argumentos é que não. A meu ver.
Confesso que não tenho estômago para aturar os técnicos de bancada (estou a fazer uma extrapolação e uma generalização face à leitura que faço do texto) que transformaram o empirismo em ciência e vão para todo o lado dar rodas de estúpido e de bandido a quem sabe, realmente, alguma coisinha do que anda a fazer e não toma decisões molhando o dedo na boca e observando para onde sopra o vento. Muito menos se estão a cagar para o mundo como fica muitas vezes subentendido***.
Estas abordagens que tentam resumir as decisões a "certo ou errado" apropriam-se da ignorância e são extremamente perigosas. Por um lado despejam todo o sentido às escolhas tornando-as apenas emocionais. Por outro dão a sensação a um numero crescente de pessoas que conhecem os elementos necessários para fazerem elas próprias essa escolha. Está errado. Já vimos este filme com a industria corticeira. 


Infelizmente este não é um caso isolado e o Pedro não é o único jornalista que faz afirmações recorrendo a argumentos empíricos e/ou veladamente tendenciosos. Bem se lembrarão das divergências que tenho com o João Paulo Martins sempre que ele entra pelas leveduras adentro, para dar apenas um exemplo.

Uma vez que os jornalistas parecem mais interessados em dedicar-se à ciência, pergunto-me se não estará na hora de os cientistas se dedicarem ao jornalismo. Há tanto assunto que precisa ser esclarecido, investigado, confrontado e debatido de forma não partidarizada (no mundo do vinho sim!) que, demitindo-se os jornalistas dessa função, e perdendo os cientistas a sua, seria apenas uma questão de realojar recursos. 


Pelo respeito supramencionado e pelo momento que se vive, ponderei bastante se publicaria este post. Não quero que isto seja lenha para alimentar a fogueira em que muitos o tentam queimar. A minha consciência ditou que o fizesse. Confio que o Pedro vai perceber a necessidade de expressar a minha opinião face ao que escreveu. Faço-o apenas porque entendo que a publicação de um artigo destes, num órgão publico e generalista carece de informação precisa e de intenções bem declaradas, sob pena de poderem virar sensacionalismo, propaganda ou alarmismo.
É importante perceber-se o que se faz e porque se faz e, se queremos esclarecer, temos de enquadrar e colocar todos os factos em perspectiva. O Álcool é o grande agente tóxico  do vinho, representa quase 100% dos seus malefícios. Julgo que não é dando importância e lupa às % residuais que vamos esclarecer melhor os consumidores.
Foi por achar que este artigo tem um efeito mais tóxico que depurativo que decidi dar-vos estas palavras. O meu desejo é que elas ajudem a encontrar um ponto de equilíbrio na discussão que a querer-se fazer, é válida e necessária.
Muito obrigado.


____
*Para o caso de me ter escapado algum que apresente conclusões científicos sobre esse assunto, por favor, queiram indicar-mo. Aceito que não conheça os estudos todos.
**Aqui há uns anos, salvo erro numa Visão, li um artigo onde eram relatados os maiores escândalos que a ASAE tinha encontrado. Uma padaria fazia pão recorrendo a água de um furo que estava visivelmente contaminada com água de esgoto. Ora bem... selar a casa não chega, o seu proprietário deveria, no mínimo, ser proibido de voltar a ter um negócio alimentar. Não concordam?
*** Nesse ponto, os consumidores ficariam impressionados com o fascinante equilíbrio que existe na filha-da-putice  e como esta é totalmente independente da filosofia praticada.


Comentários

GBT disse…
Excelente texto, parabéns.

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