Curtimenta? Que raio é isso?



Curtimenta é a palavra que usamos, tradicionalmente em Portugal, para designar maceração. No fundo, é deixar as películas das uvas em contacto com o mosto enquanto este fermenta.

Nos tintos, já se sabe porquê: é dali que vem a cor e boa parte dos taninos, que estão na película e precisam de calor e álcool para passarem para o vinho. Mas nos brancos… porquê?

Confesso que não sei como foi noutros países. Por cá, durante muito tempo, a curtimenta em uvas brancas não era feita para dar aquilo que hoje associamos aos “orange”: tanino, cor, um perfil mais rústico e mais cheio. Era, sobretudo, uma solução prática para conseguir prensar melhor e tirar mais sumo.

Uvas acabadas de colher e prensadas imediatamente tendem a dar menos mosto. Depois de algum tempo em contacto com as películas, a polpa torna-se mais fácil de prensar, as zonas mais fibrosas cedem melhor, e o resultado era simples: mais mosto na pipa.

Em Portugal ficaram célebres as “meia-curtimentas”. Falando com os antigos, eram muitas vezes dois ou três dias de “manta levantada”, sinal de que a fermentação já tinha arrancado. Só depois se prensava.

Em traços gerais, com as exceções do costume, a ideia não era fazer vinhos ricos em tanino nem procurar a tal cor laranja. Era espremer o máximo possível. E, antigamente, a prioridade era essa: rendimento, não havia cá vida para romantismos.

Foi por isso que só em 2023 me decidi, de forma definitiva, a usar a palavra “Curtimenta” para designar o nosso vinho de maceração. Reparem: o nosso vinho passa nove meses em contacto com as películas. O resultado é completamente diferente daquele para o qual a palavra foi usada durante décadas. Eu, que penso demais e gosto de ser justo com os significados, hesitei. Mas a palavra é nossa. E não vejo mal nenhum em ela evoluir e em lhe darmos um sentido novo.

Deixo ainda um facto curioso. A OIV, que é quem define muitas das regras do vinho, só considera “vinho de maceração” os vinhos que passam, pelo menos, um mês com as películas. Isso significa que uma boa parte dos “Curtimenta”, “Orange”, “Âmbar” espalhados pelo mundo, na prática, não o são.

O que acha disto?



Comentários

Mensagens populares