1 de novembro de 2014

Vinhos brancos em 3 classes.



Quem me conhece, sabe que não gosto muito de classificações, provas cegas, procuras da qualidade absoluta e essas merdas que nos têm impingido ao longo dos últimos anos.
Gosto de apreciar o vinho, gosto de ter prazer e gosto de poder arrumar o que sinto em compartimentos, mais ou menos selvagens que me ajudam a interpretar o que sinto.

Aos brancos, compartimento-os em 3 categorias distintas. Estas, chegam-me para agrupar 90% dos vinhos existentes. Devo alertar que ficaria mais bonito arranjar nomes para cada uma delas. Talvez um dia o faça. Hoje não me apetece!

Categoria 1 – Nesta categoria, enquadro os vinhos que não me dão sensações nenhumas, ou muito reduzidas. Que não me fazem desejar bebe-los, vinhos "rapados" da maior parte dos constituintes que lhe podiam dar graça ou identidade. São normalmente vinhos que respeitam a constituição química, e pouco mais!
Na representação mental, imagino um copo, só com água.

Categoria 2 – Aqui enquadro os vinhos que, para além da base (Categoria 1), normalmente boa, possuem ainda elementos aromáticos intensos. São vinhos directos, com poucos descritores, mas bem definidos. Pouco complexos, são vinhos que não evoluem muito no copo e duram pouco na garrafa. Vêm muitas vezes munidos de uma boa dose de açúcar residual (não obrigatoriamente) e podem ou não ter namoro com a madeira. São quase sempre muito fáceis de descrever.
Costumo representa-los como um copo de água, com uma flor bonita lá dentro. Olhamos e imediatamente vemos toda a beleza da flor. Tudo nos é revelado no primeiro olhar.

Categoria 3 – Para esta categoria mando todos os vinhos com complexidade, que não mostram logo tudo, mas antes, que vão abrindo e revelando aos poucos o que têm para me dar. O prazer total não é imediato. É-me dado em pequenas doses que fazem aumentar ainda mais a excitação. São vinhos, normalmente difíceis de descrever, porque têm um espectro mais alargado, contudo, intensidade mais baixa.
Represento-os com o mesmo copo de água, só que lá dentro está um bolbo fechado. Ou seja, imediatamente percebemos que é diferente dos vinhos da categoria 1, mas ao contrário dos da categoria 2 não sabemos logo o que tem ele para nos dar. Imagine agora aqueles chás chineses em que os bolbos são enfiados em água quente e começam a abrir para as mais variadas formas de flores. A emoção dos vinhos desta categoria é precisamente o acompanhar dessa revelação, a atenção em cada novo detalhe, o estimulo à imaginação nos detalhes ainda não revelados.

Por norma, não tenho paciência para consumir vinhos da categoria 1, não sou um fã dos vinhos da categoria 2, preferindo sempre os da categoria 3, embora reconheça que há momentos que têm uma relação de exclusividade com os vinhos da categoria par!
O publico generalizado e a prova cega têm tendência a preferir imediatamente os vinhos da categoria 2 em detrimento dos outros. É um facto que ligo mais ao factor orgânico dos sentidos que usamos na prova do que propriamente a favorecimentos, conspirações, ignorâncias ou mesmo vontade de chatear. Os nossos sentidos foram desenvolvidos para nos proteger e só depois é que nos começaram a dar prazer. Defendem-nos sempre da confusão. 

Por fim, nada disto pode, ou deve ser usado para avaliar um vinho fora do momento do consumo. Se é um facto que conheço muitos vinhos que iniciam a sua vida na fase 2 e depois evoluem para a fase 3 (os bons Bucelas são um exemplo claro disso), a experiência diz-me que a maior parte dos vinhos que nasce 2 morre antes de se tornar 3. 
Mas... cuidado.
Muito cuidado!

2 comentários:

Mario Louro disse...

eu só não sei o quer dizer a palavra complexidade ...tanta categoria e pouca objectividade ... o vinho nao vive de subjectividades ...caro amigo...

Hugo Mendes disse...

Caro Mário,
Obrigado pelo comentário.
“O vinho não vive de subjetividades”
Não? Enquanto produto ligado ao gosto e ao prazer, não sei como pode ser objetivo. Do ponto de vista do negócio, não temos vivido de outra coisa que não da subjetividade!
Não vejo qual a necessidade de um apreciador de vinho ser objetivo na descrição das sensações que o vinho lhe dá. Pessoalmente, não sinto necessidade nenhuma de o fazer fora do contexto profissional.

“eu só não sei o quer dizer a palavra complexidade”
Não sabe? Então se estivermos a falar de cinema não sabe distinguir entre um filme simples e um complexo? Se falarmos de pintura também não? E de literatura? Margarida Rebelo Pinto é “literatura” simples ou complexa? E James Joyce? Por que razão não pode ser usada no vinho para adjectivar vinhos onde se identificam vários descritores, em que estes evoluam durante a prova e onde a sua descrição esteja muito mais enraizada na memória olfactiva do provador do que as sensações simples, directas e bem definidas?
O que me diz?