23 de dezembro de 2014

Cegueira da prova cega


Quem me conhece afirma, fazendo disso uma anedota, que ao longo do tempo tenho vindo a tornar-me contra a prova cega.
De facto, assim não é! Só o absolutismo me aborrece. Não concebo a ideia de que a total idoneidade e isenção na prova possa vir unicamente do facto desta se realizar na total ignorância dos dados do vinho. Vou mais longe, acho que é precisamente o contrário.

Pensem neste exemplo, muitas vezes real:
Estão a avaliar um vinho do qual nada sabem. Imaginem que ele é colocado num flight onde a maioria dos vinhos são novos, acabados de fazer e lançar no mercado. Este vinho, longe de estar morto, dá-vos já sinais de evolução (não necessariamente cansaço). O que fazem? Consideram que é da idade dos outros e penalizam o seu estado avançado de decomposição ou, consideram a sua maioridade e dão-lhe uma nota a condizer.
Quando avalio um vinho gosto de ser justo, tanto com o vinho como com quem o vai consumir na base da avaliação que lhe der. No caso citado, o desconhecimento do ano de colheita penaliza ambos. È preciso explicar porquê?

O conceito usado em concursos como o IWC, é, quanto a mim, bastante mais justo. Ali, organizam-se os vinhos segundo a sua proveniência e esse conjunto é apresentado aos júris. Para além da origem, sabe-se também o ano de colheita, a quantidade de açúcar residual e as castas utilizadas. Estes elementos, não sendo reveladores da marca ou do nome do produtor, parecem-me essenciais na avaliação séria, honesta e coerente de um conjunto de vinhos. Podemos avaliar uma Baga da Bairrada ao lado de um Syrah do Alentejo sem nada saber sobre cada um deles?

Por ultimo, deixem-me referir que considero a prova inteiramente cega, muito útil para o treino do provador ou para a sua avaliação enquanto tal, na mesma medida em que a considero inútil para um vinho. Primeiro pelas dificuldades que cria ao avaliador, segundo porque o nosso cérebro, na ausência de dados, tem tendência para se defender, valorizando o que entende melhor. São os vinhos mais simples, com aromas mais directos e maior concentração de açúcar que saem beneficiados. Os vinhos complexos, muito secos, com aromas menos revelados (essencialmente os que coloco na categoria 3), confundem um cérebro desinformado que ainda nos tenta proteger do envenenamento. 

No limite, a prova inteiramente cega é outra forma (indirecta) de influenciar o cérebro. Tão "má" como a fama do rótulo.







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