17 de junho de 2010

Rui Lourenço Pereira, os Produtores e o seu silêncio.

Rui Lourenço Pereira (http://artmeetsbacchus.blogspot.com/), colocou um post, recentemente, no Fórum da Revista de Vinhos (http://forum.revistadevinhos.iol.pt/viewtopic.php?f=2&t=1528) com o intuito de provocar debate acerca do preço dos vinhos.
Não conhecesse eu o Rui, diria ter sido um triste post, demonstrativo de uma falta de respeito pelo produto, pelos produtores e acima de tudo, de um perfeito desconhecimento dos custos de produção. Mas, o Rui é provocador e como tal, entendi que quereria promover a discussão do assunto e não tomar partido da conclusão primária do estudo!
Como é normal, o post limitou-se a recolher meia dúzia de respostas e o assunto parece ter morrido por ali! Não entendo muito bem porquê, já que, por razões óbvias, é nesse fórum que se concentra a, ainda pouca, intervenção das pessoas ligadas à produção que por aqui vão andando! Era quanto a mim uma questão pertinente que merecia ser discutida! Há aspectos que necessitam ser bem explicados e a construção do preço dos vinhos, é, quanto a mim uma delas (ainda que já se tivesse falado disso!)!
Ensinou-me a minha formadora do Curso de Formação de Formadores que o silêncio nada nos diz, logo, não posso tecer conjecturas para o justificar.
Entendo que o sector já deveria ter percebido que a internet nos proporciona oportunidades de chegar directamente aos consumidores de uma forma que antes era quase impensável! Produtores, enólogos, marketeers,… já deviam andar em força por aqui a aproveitar este manancial de troca de informação, muito mais interessante que uma página numa qualquer revista. E deveriam intervir! Sem medos!
È que reparem, o mutismo só gera desconfiança no consumidor, só o leva a pensar em justificações más, nunca nas boas!
Se o consumidor anda por aqui, porque não pegar nele e aproveitar para conversar um pouco? Dar troco ao que diz? Dizer-lhe que se calhar está certo neste ou naquele ponto mas que está errado naquele outro!
Eu sinceramente, acho que por vezes vivemos demasiado focalizados nos críticos e nos concursos que não nos pagam uma garrafa e descoramos o manancial de gente que as compra! Para quê ir aos anjos se agora temos a possibilidade de falar com Deus?

14 comentários:

OLGA CARDOSO disse...

Hugo, não poderia estar mais de acordo consigo, mas não pecará esta sua (nossa) opinião por excesso de lirismo?
Se é verdade que ainda haverá produtores e enólogos pouco sensibilizados para as vantagens da internet, outros (muitos) vêem nela uma espécie de ameaça! Quererão mesmo os vários intervenientes no processo, ouvir, "educar" e esclarecer os consumidores? Não entenderão como mais benéfico manter a "ignorância vínica" que por aqui reina? Consumidor esclarecido é igual a consumidor mais exigente e menos tolerante. E depois??? Como poderiam certos vinhos (vários) continuar a ser vendidos a preços elevados mesmo em anos reconhecidamente menos bons? Então não há por aí quem beba apenas rótulos?! Como poderia grande parte da restauração continuar a praticar margens verdadeiramente pornográficas sobre os vinhos que serve? Como poderiam continuar a viver com grande pedantismo, certos produtores e certos enólogos, se o povo começasse a dar valor ao néctar propriamente dito e não aos seus alegados paizinhos?

Hugo Mendes disse...

Olga,
Sinceramente, não acho que exista aqui excesso de lirismo! Não quando essa é a atitude correcta!
Acredito que se houver um movimento e este ganhar força, tiver confiança, pode-se varrer do mapa todas essas realidades de que fala que convenhamos, são a maior fonte de atraso do sector!
Eu gosto de pensar ao contrário! Repare! Aqueles que não têm nada a esconder ( até porque acredito que são mais que os outros) só saem a ganhar, e fazem-no de duas formas:
1ª Instruindo o consumidor nas particularidades do seu produto, o tal conceito ou especificidade, se quiser, vão mais facilmente incrementar as vendas e seleccionar os consumidores.
2ª Ajudam a dar força a uma Selecção Natural (em terminologia biológicos é de facto uma selecção artificial, mas adiante…) que favorecerá os honestos.
Isto não é difícil de conseguir, é o princípio democrático. Quanto mais instruída for a população (falamos de instrução mesmo! Não comparar com a bandalheira que se vive no país!) mais acertadas serão as suas escolhas!

Hugo Mendes disse...

Ah!
E eu nem vou tanto pelo lado dos interesses! Acho que o que se passa aqui ainda é um fenómeno mais anterior!
A gestão de tempo, normalmente deixa para trás os assuntos que consideramos menos importantes!
Eu acho é que, ainda não dão o devido valor à net, aos fóruns, às redes sociais, aos blogs, …..
Estão ainda presos aos paradigmas do passado!
Mais isso!

Vitor Mendes disse...

Hugo e Olga,

Partilho muito do que os dois disseram. De facto a questão dos preços dos vinhos é um "tabu" para os comuns enófilos. É verdade que existem diversos parâmetros que influenciam o preço final de um vinho. entenda-se por preço final aquele que nos chega às nossas mãos, e não o que "compramos" no restaurante... esse sim um "roubo" em grande parte dos casos! Mas ainda em relação à questão da elaboração de um preço, pelo que conheço existem várias questões que influenciam positiva ou negativamente o valor final pedido. Desde logo os custos normais de produção, que variam conforme região. Será sempre mais caro fazer um vinho no Douro que no Alentejo, por exemplo. Por outro lado, para quem conhece algumas adegas, a verdade é que a tecnologia paga-se e o cuidado que se põe na vinificação de um vinho influencia também. É verdade que os vinhos deveriam ser todos feitos com o máximo de cuidado e com tecnologia, mas a verdade é que mesmo nesse campo ainda estamos muito aquém do expectável. Mas, e esta é a minha opinião muito pessoal, acredito que um vinho que custe mais de 20 € é sem duvida resultado de outros factores externos, como um marketing agressivo e bem direccionado, ou então será por exemplo um vinho icónico como alguns que conhecemos, ou ainda e aí sim acredito num valor alto, um vinho com muito baixa produção e com muita procura por parte do consumidor. Aqui acredito numa "inflação" ditada pela relação oferta/procura. Esta é apenas a opinião de um enófilo, nada mais...
Quanto à questão das novas ferramentas sociais, que permitem que o consumidor possa estar bem mais perto do produtor, digo com algum conhecimento de causa, que ainda estamos bastante longe de saber utilizar este meio da melhor forma. Na verdade o que verdadeiramente importa é proporcionar ao consumidor sentir-se mais próximo da marca que provou, e que até gostou! A isso chama-se construir a marca, e é isso que "fideliza" o consumidor final, e é isso que ajuda a vender! Também é verdade que isso trará a reboque outras questões se calhar mais delicadas para o produtor responder, sem duvida! Mas eu diria que no computo geral o saldo é sempre muito positivo se formos também transparentes e honestos com os nossos consumidores. Um bom exemplo do que digo é o blogue do meu bom amigo Óscar Quevedo(www.quevedoportwine.com)! ele sabe como se relacionar com os seus consumidores. E é por via da honestidade e transparência que o tem conseguido. É um belíssimo exemplo a seguir por todos os outros produtores.

E pronto, não me alongo mais (acho que me excedi...), abraço a todos e parabéns pela discussão!

Vítor Mendes

Rui Lourenço Pereira disse...

Hugo,
Tu percebeste bem a minha intenção. Eu não compreendi e contínuo sem perceber é o marasmo de respostas. As questões foram feitas com determinado objectivo.
Fiquei vai para um ano escandalizado quando um produtor, teu vizinho, me perguntou como fazia eu o preço de um vinho. Ingénuo, respondi que somava todos os custos da minha produção, dividia pelo nº de garrafas produzidas e aplicava a minha margem. Ao qual ele respondeu, pensando (não dizendo) todas as obscenidades acerca de mim, que eu estava completamente enganada. O preço do vinho, faz-se pedindo aquilo que se quer pelo vinho, não interessando se a margem é 10% ou 50%. Não será por isso que há milhões de litros em stock pelo País???

OLGA CARDOSO disse...

Pedindo, desde já, desculpa pela minha ignorância na matéria...expliquem-me por favor!
Porque razão encontro um vinho, topo de gama do Douro, é certo, a € 70,00 na generalidade das garrafeiras portuguesas e em Espanha (Sevilha, in casu), encontrei o mesmo vinho (mesma colheita) a metade do preço? Os produtores não terão o menor controlo sobre os preços a que os seus vinhos são comercializados pelos retalhistas?

Rui Lourenço Pereira disse...

Olga,
Eu arranjo melhor.
Experimenta ir ao ECI de Lisboa ou Gaia, vê o preço dos vinhos, e depois podes ir compra-los como eu faço por exemplo ao ECI de Badajoz com menos 40%. Não compro é uma garrafa. Dou um passeio e compro uma ou duas caixas.

João de Carvalho disse...

Rui também não sejas exagerado... é que nem o ECI de Badajoz vende a grande maioria dos topos de gama de Portugal como a diferença de preços não é assim tão grande, compensa apenas e só em casos pontuais, mas isso é preciso saber-se ao que se vai.

Há um excelente exemplo para o pedido do Rui, quem leu o meu posto com um pouquinho de curiosidade ia ver que o tal Protocolo é um vinho com o selo Eguren, muito fica logo explicado, depois o vinho é um vino de tierra de castilla, e acaba por ser uma entrada de gama com destino quase certo para exportação, esgota num ai... é tinto, branco e rosé tudo do mesmo ano de colheita e com o mesmo preço. O tinto que tenha conhecimento tem uma pequena passagem por barrica... e a crítica lá fora já está mais que rendida com muitos 88 pontos... quer ao tinto, quer ao rosado.
O preço do vinho fica a coisa de 2,25€ e se não é uma das melhores relações preço/qualidade do mercado fico à espera que me digam qual é.

OLGA CARDOSO disse...

Tudo opiniões válidas, sem dúvida...mas acho que nos estamos a afastar do tema, meus amigos! O que julgo estar aqui em causa é o incremento dos meios "informáticos" para uma maior isenção na divulgação de vinhos mas, e sobretudo, para um cada vez maior esclarecimento dos consumidores. É ou não é a internet (blogs, redes sociais, fóruns, whatever...) uma forma de chegar directamente ao consumidor? Qual o nosso real papel neste cenário? Quais os verdadeiros parâmetros da nossa responsabilidade? Quais as nossas reais ambições no meio disto tudo? Onde queremos ou poderemos chegar? Conseguiremos, algum dia, influenciar o consumo de vinhos em Portugal? Somos ou não somos uma forma descomprometida de fazer mexer a coisa? Pessoalmente, e perdoem-me a vaidade, sinto-me...e quero continuar a sentir-me...inteiramente comprometida com a causa! Parafraseando Fernando Pessoa...(eu sei...é um facilitismo básico recorrer a estas frases mais do que feitas!) quando Deus quer e o Homem sonha...A OBRA NASCE! Até agora, o mundo da critica de vinhos (se é que tal existe em Portugal)estava totalmente depositada nas mãos dos Senhores Jornalistas. E porquê? Terão essas pessoas uma apetência especial para a prova e critica de vinhos? Nada disso...simplesmente as funções exercidas facilitavam-lhes a "chegada" ao público em geral...! Pois é...mas esse MONOPÓLIO terminou meus caros...! É chegado o fim da HEGEMONIA da imprensa escrita. Outros meios e outras pessoas surgiram! Queiramos nós...e a coisa muda. Até me sinto mal em dizer isto, pareço uma sindicalista nata e...acreditem, não sou nada assim. Dou razão ao Hugo Mendes...se houver um movimento e este ganhar força, tiver confiança, pode-se varrer do mapa todas as realidades nefastas que só contribuem para o atraso do sector! Nem todos os winebloggers existentes terão vontade, perfil ou capacidade para intervir neste sentido. E contra isso nada...a liberdade impera entre nós! Mas a quem quiser comprometer-se com a causa (vulgo, desmistificar correntes de opinião, promover a transparência, contribuir para o terminus dos Senhores Feudais, fragilizar as "fogueirinhas das vaidades" e elevar a "verdade do vinho" (afinal aquilo que a todos nos move), lanço aqui o desafio: Vamos, de uma vez por todas, unir as nossas vozes na censura do que consideramos errado? Vamos unir forças em prol de uma maior proximidade com aquilo que será a real vontade de quem compra e consome vinhos? Aguardo as vossas opiniões e ao Hugo Mendes, solicito e agradeço, uma "lição" sobre todos os factores intervenientes na formação do preço dos vinhos e a forma como a deveremos "balizar" em sede nacional.

Mário Negreiros disse...

Caríssimos,
Sou um pequeníssimo produtor do Douro que tenta estar a par do que se passa na net - que considero um canal importantíssimo e ainda mais para quem, sendo pequeno, não tem como investir para tornar visível o que faz. Não tenho nenhum problema em falar sobre o preço do meu vinho, não vejo aí nenhum tabu e só não participei do forum e dessa discussão específica porque não soube dele nem dela. Vou tentar estar mais atento mas, desde já, digo-lhes que estou às ordens para responder ao que saiba dobre a formação do preço do Negreiros.
Saúde!
Mário Negreiros

Mário Negreiros disse...

ou sobre outra coisa qualquer do Negreiros.

Hugo Mendes disse...

EH! Lá, grande responsabilidade essa que me pede, mas… já que fui eu que despoletei a coisa não me posso negar!
Sobre os post:
Acho que a Olga entendeu perfeitamente o que sinto, mesmo sabendo que muitas vezes a minha expressão escrita não leva as pessoas ao centro da questão. Aqui, foi na muche!
A mudança só depende da intensidade da vontade dos actores!
Sobre os preços:
Não há uma única forma de calcular um preço, até porque cada casa é uma casa e as várias valências de uma empresa podem ter pesos diferentes nos custos de um vinho! Há depois um factor de quantidade, que especialmente nos materiais de enchimento fará uma diferença absurda!
A título de exemplo, aqui há uns tempos fiz um estudo por alto, no sentido de saber quanto me custaria produzir 5000 litros de vinho branco e/ou de Espumante, com uma marca minha (como tenho muito tempo, gosto de roubar horas à cama com sonhos patetas!)
Grosso modo, considerei a compra da uva e a utilização de garrafas iguais às da marca da adega onde o vinho fosse feito para minimizar o seu custo unitário.
O quadro resume os custos em material e matéria-prima. Somente o custo para o degorgemente é o total, porque na altura, esse, era um trabalho que fazíamos externamente! Neste estudo fica de fora toda a mão de obra (e sua formação), todo o custo de armazenamento e uso de equipamentos, toda a energia, todo o custo de introdução no mercado, todo o custo de marketing,….
Gr Branco Gr Esp.
Vindima
0,30 0,30
Vinificação
0,25 0,25
Estágio/Mês
0,12

Engarrafamento
0,52 0,52
Degorgement
0,45
Legalidades
0,07 0,07

Total 1,14 1,71

É claro que isto é tudo muito relativo, já que os custos são muito variados consoante o material que se utiliza (podemos comprar uma barrica nova por 400€, mas também por 800€). Mas também podemos ter custos muito mais baixos, se a quantidade for maior, se as técnicas de vinificação forem mais simples, … sei lá! Este quadro que coloquei nem serve como indicativo, pois a variação na realidade é abismal.
No fundo é ter em conta todo o dinheiro que se gasta desde que não se tem nada, até que a garrafa é entregue nas mãos ou, para as mão do consumidor….
Ah! E nunca aqui se falou de custear o risco!
Está claro que, quando comecei a atribuir valores e a soma-los aos preços da tabela… Desisti!

Hugo Mendes disse...

Mário,
Bem-vindo!
Essa é também a minha atitude! Até porque, como já disso por outras vezes, a grande parte dos produtores vende os vinhos baratos. A sensação de que é ao contrário vem do facto de muita gente procurar e preferir os vinhos “das revistas”.

Abílio Neto disse...

Caros,

Gosto do que estou a ler... mas faltam mais contributos e mais diversos. Eu sou mesmo só consumidor, logo, não tenho ideia muito formada sobre o assunto. Tenho é pena do tabu a volta do assunto, não percebo, acho até que as pessoas (empresas / produtores) são livres de "criar" o seu preço, considerando sempre o valor que oferecem! (Acontece é que muitos que não oferecem valor... pretendem propor preços, aí sim, estamos no universo do disparate!)

Abr.,

An