23 de outubro de 2012

Inspira Portugal Touriga Nacional – Post III

Publicações precedentes: Post I (o conceito); Post II (a casta) e lista de vinhos


Os Vinhos.
Finalmente chego à apreciação (sem conclusões) dos vinhos. Para mim, a componente formativa do evento evidencia-se na possibilidade de comparar diferentes tourigas, variando na origem geográfica, bem como (inevitavelmente) no método de trabalho e na abordagem enológica. Mais do que avaliar a qualidade intrínseca de cada vinho, prefiro, e assim farei, tirar algumas conclusões mais generalistas sobre a casta, mas num outro post.


Os vinhos de Trás-Os-Montes chegaram numa condição diferente dos restantes. Eram vinhos de cuba, a maior parte da colheita 2011, sendo que apenas um era de 2009. Serviu para sentir o potencial e a evolução dos métodos na região, a força da casta enquanto nova. Da exuberância da fruta nuns, ao trabalho com a madeira noutros, fez-me sonhar com os anos vindouros. Não tenho, contudo o dom dos provadores que, em primeur, conseguem prever o futuro de vinhos que não foram ainda engarrafados, sem grandes margens para equivoco. Não conheço as casas nem a região, o suficiente para isso! Sobressai-me na prova o álcool e um carácter terroso. Vinhos a mostrarem rusticidade, que é como quem diz, bom trabalho na adega, mas sem grandes floreados do enólogo. Aprecio.


Na segunda região provada, o Douro, sobressai a delicadeza aromática da casta e uma ligeireza do corpo que, por isso me faz alguma confusão vê-la “atafulhada” de madeira, nova ou semi nova. Curiosamente, e talvez pareça contradição, acho que está muito bem trabalhada (quando analisada em separado), contudo, sinto sempre uma falta de estrutura na base do vinho que permita encher “o que falta até à madeira”. Tenho uma imagem mental, meio tola, que explica bem isso. Imaginem dois cilindros de diâmetros diferentes. O de dentro é a touriga, o de fora é a madeira. O espaço deixado livre na diferença de diâmetros deverá ser preenchido pela estrutura e, é do que sinto falta. Esta imagem repetir-se-á nas demais regiões, principalmente as mais litorais.


No Dão sinto força, austeridade e mais estrutura. A “comitiva” trouxe de tudo, vinhos mais antigos a mostrar para onde caminham estas tourigas (e a fazer sonhar se não será no tempo que esta casta se revela verdadeiramente), vinhos mais delicados, vinhos mais rústicos, enfim, uma variedade que demonstra bem a dinâmica que se vive presentemente na região.
Acho as tourigas dali mais completas, tendo em conta as datas de colheita.


Desço às Beiras, nas notas que tomei, lê-se: Vinhos finos, corpo médio, limpos, correctos, honestos mas sem deslumbre. Aqui a questão não é diferente das anteriores. Gostaria de os ver daqui a uns anos com os taninos bem maduros e uma idade consistente com o seu corpo.


Em Lisboa, senti menos extracção de cor. Sensação de uva colhida mais madura. Mais tendência para frutos maduros e menos o floral da casta. Em vinhos com pouco tempo de abertos, as amostras desta região, foram das que mostraram maior equilíbrio entre todos os componentes. Taninos menos agressivos. Será  mais tempo na vinha? Mais trabalho de adega? Não sei, contudo, são vinhos que se apresentam prontos, ou quase para consumo. 


Do Tejo chegaram duas soluções bem diferentes entre si. Dos apontamentos sai que eram limpos, frescos, firmes e harmoniosos. São trabalhos distintos mas que me levam a pensar que há em ambos, um bom trabalho de enologia. Bom sinal!


Descendo um pouco mais, chegámos à península de Setúbal. Ambas me pareceram com forte pendor novo mundista. Irrepreensíveis no trabalho de adega. Mostram mais uma vez a falta de estrutura que a casta demonstra para se apresentar sozinha.


As Tourigas Alentejanas pareceram-me um pouco abusivas no uso da madeira, pese embora o casamento com a casta me pareceu melhor. Senti uma maior sensação de doçura o que ajudou a encher mais a boca e a minimizar o carácter mais delgado da casta. São, como a maior parte do ideário dos vinhos alentejanos,  os vinhos que se apresentaram "mais prontos" para consumo imediato. 


Finalmente, com apenas um vinho a representar o Algarve, torna-se escandaloso caracterizar uma região apenas pela apreciação do mesmo. È um vinho com uma forte sensação da madeira, talvez um pouco sobre maduro, mas cuja harmonia me agradou. Sinto que tem muito do DNA dos vinhos alentejanos, mas com mais frescura e com uma doçura mais comedida. Se fosse uma prova cega, agrupá-lo-ia no grupo de Lisboa, Setúbal,.... Litoral, portanto.

No próximo post, apresentarei as minhas conclusões.

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